domingo, 26 de julho de 2009

Capítulo 3 - Um Jantar a sete

Olá pessoal, decidi publicar o livro dois, Kal Foster e o Mestre das Sombras, por inteiro. Quero que vocês conheçam mais a história do Milagre Foster e o desenrolar dela ao longo do segundo ano de Kal Foster em Avalon. Desculpem-me pelo atraso com esta publicação, esperava que o livro fosse publicado antes disso. Mas nós não desistimos, não é? Quem sabe o segundo livro nos dê visibilidade para chegarmos a este sonho.
O capítulo abaixo é o capítulo 3 do livro, lembrando que o capítulo 1 e 2 já foram publicados há algum tempo. Abaixo seguem os links dos dois primeiros capítulos, assim você não perde nada da história.

Kal Foster e o Mestre das Sombras
Capítulo 1 - Boa noite, Ministro
Capítulo 2 - A casa Foster


Agora, com vocês:

Capítulo 3 - Um jantar a sete

Kal Foster desceu a rua novamente logo depois de Cacius, ele iria procurar revistas, jornais e até mesmo parar nas esquinas para capturar uma conversa entre as pessoas do bairro. Quando se entra em um novo ciclo de pessoas, todos sempre querem passar uma boa imagem de si, e os Foster queriam fazer isto.

Naquela manhã, Kal tivera sua primeira conversa com uma garota deste novo ciclo, mas, na verdade, ele sentiu-se em um interrogatório como os que ele vira nos filmes de bandidos e policiais que passavam à noite na televisão. Sara parecia estar segurando um questionário social, e cada resposta que Kal lhe dava virava uma nova pergunta.

Passando pela praça da rua, Kalevi procurou por Sara, porém não a encontrou.

Provavelmente ela deve estar em casa. Pensou, satisfeito.

Ele não sabia ao certo porque o interesse repentino na nova vizinha. Em sua cabeça ele remoeu a aveludada voz da garota e o seu sorriso honesto de tranqüilidade, um sorriso que até mesmo lembrava o de Cacius com o seu ar pacato. Talvez suas emoções estivessem sensíveis e se misturando a imagens de pessoas por quem ele possuía uma empatia avantajada.

Pelo caminho, já longe da Rua Guaçuí, Kal percebeu que estava sendo observado por diversas pessoas, e não eram pessoas disfarçadas de gatos, cachorros ou pombos, eram pessoas não mágicas que o encaravam de modo curioso, como se a frente deles estivesse um espécime raro de animal selvagem pronto para atacar. Todos o encaravam realmente muito curiosos. Kal pensou que talvez as pessoas soubessem que ele e o restante de sua família ficavam sempre reclusos na própria casa e estavam imaginando o que aquele menino de treze anos estaria fazendo rondado as ruas do bairro.

Ele parou por um instante e lembrou-se de que não sabia para onde estava indo, não sabia onde era a banca de jornal mais próxima, afinal, mal saíra de casa. Kal parou na esquina da Rua Chinchila onde uma placa indicava que à esquerda ficava a Rua das Gaivotas e à direita a dos Tormentos, ele ficou estático. Não sabia para onde ir, e antes que tivesse qualquer outra idéia teve seus pensamentos interrompidos por uma voz logo atrás de si:

- Está perdido, garoto? – perguntou um homem alto e robusto – Posso ajudar em alguma coisa?

Em seu mundo mágico, Kal sabia que poderia contar com a ajuda de qualquer pessoa que aparece, pois fazia parte da natureza dos bruxos o companheirismo, mas pelo que ouvira de alguns colegas que moram entre os não mágicos, ele não poderia confiar em qualquer um que lhe oferecesse ajuda. Lembrando-se disso, respondeu em prontidão:

- Não, senhor, estou exatamente onde quero estar. Muito obrigado.

Kal sentou-se no meio fio e esperou até que o homem tivesse sumido de vista. Levantou-se limpando a roupa e então percebeu a varinha no bolso de trás do jeans.

Foi bom ter trazido a varinha.

Para todos os bruxos havia uma só regra quanto à utilização da magia fora dos domínios do Governo Mágico; apenas em caso de perigo extremo – e mesmo assim escondido o máximo possível dos olhos humanos. Ao que constava a Kal, esta regra ainda tinha um parágrafo que dizia ser ilegal o uso de magia para fazer qualquer tipo de mal aos humanos, principalmente as maldições e os diversos tipos de transfiguração corpórea.

O sol estava brilhando forte no céu. Sem nuvens para bloquear alguns raios ou vento para refrescar, Kal começou a suar e arrependeu-se de estar usando jeans e blusa de frio, mesmo dobrando as mangas do moletom ele ainda sentia-se incomodado com a roupa e então desejou poder usar a varinha para fazer uma brisa de ar gelado como a que seu professor de feitiços, Tirso, fizera no ano anterior em uma de suas aulas.

Tirso era, de longe, o professor favorito de Kal em Avalon, não só pela matéria que ensinava, mas também pela sua simpatia e compreensão. Ele havia ajudado Kal com algumas questões que o rondavam, como o livro sobre projeção astral que comprara no início do ano anterior, com alguns mistérios a respeito Livro de Merlin e principalmente sobre Nicolas Weny, que no final das contas mostrou-se sendo na verdade Kricolas, o maior assassino de todos os tempos.

A projeção astral era um tipo de viagem que se fazia por um plano paralelo ao plano físico, um plano em que se podia voar e atravessar paredes como um fantasma e viajar na velocidade do pensamento. Nas férias de meio de ano, Kal fora para sua casa em Vila da Cachoeira com seu irmão Daimon, Guinevere e seu amigo Ralph, de lá eles viajavam todas as noites em projeção astral até a Cidade dos Elfos, a vários quilômetros de distância de onde seus corpos físicos estavam localizados.

Ralph Scheiffer tornara-se o melhor amigo de Kal no ano anterior, eles se conheceram no dia em que voaram em uma carruagem puxada por bruxos montados em vassouras voadoras até a Cidade dos Elfos. No início, os dois não entenderam-se muito bem, mas Guinevere fez o possível para que os dois pudessem desenvolver uma amizade. Ralph era filho dos Guardiões Chefes de Warren, a penitenciária para bruxos, e tinha um falcão de nome Osíris, o qual mandou, junto com Kal, uma carta para seus pais pedindo que lhes enviassem um retrato falado de Kricolas e alguns dias depois eles receberam uma resposta com a figura mais horrenda que já haviam visto.

Ralph era o amigo com quem Kal compartilhava alguns de seus segredos mais particulares, apesar de ainda não ter assumido oficialmente que estava interessado em Emanuela Goldemberg, isto era quase desnecessário de ser feito, pois o rosto dele brilhava com a simples menção do nome da garota. Emanuela foi a causa de Kal ter aceitado um convite para tornar-se guardião mirim dos terrenos de Avalon no Conselho Estudantil da escola. O presidente do Conselho, Rômulo Martins, o convidara na primeira semana de aula, no entanto ele não aceitara o convite de imediato, e quando o fez foi bravamente repreendido por Guinevere e Ralph, alegando que ele apenas aceitara o convite por causa de Emanuela. O que não era nenhuma mentira. Aquela fora a primeira e única briga a qual eles tiveram no ano inteiro.

Em Avalon, Kal também conheceu outras pessoas que o cativaram com a amizade, como Jonathan Mc’Oz, melhor amigo de Daimon, e Thalis Kinguest, um garoto também vítimas de Kricolas; seus pais foram brutalmente assassinados pelo meio-vampiro.

Um estranho mistério pairava sobre Thalis quando se conheceram, pois bruxos menores de dezesseis anos não conseguem esfumaçar, mas surpreendentemente, Thalis esfumaçou momentos antes de Kricolas conseguir estrangulá-lo. Após isto ele ficou perdido na Floresta Amazônica e foi atacado por Griphons, criaturas amarelas originárias do plano astral, com a capacidade de se materializar no plano físico. Encurralado e com medo, Thalis gritou por socorro, sendo localizado por Kal e Ralph. Enquanto Ralph buscava ajuda, Kal embrenhou-se floresta adentro e livrou-se dos Griphons. A partir daquele dia, Thalis começou uma nova vida como bruxo. No final do ano, ele soube que sua mãe era de uma família de bruxos e que ela havia se desligado da magia após ter perdido seus pais pelas mãos de ninguém menos do que Kricolas.

O meio-vampiro fazia inimigos por onde passava, nos últimos anos ele matara mais pessoas do que se pode contar com os dedos, deixando crianças órfãs e mulheres viúvas, a última de suas vítimas, pelo menos que se tem notícia, fora o Ministro da Defesa e Segurança Mágica, Mardo Runifer, e Kal não sabia ao certo o que aconteceria ao Governo com esta perda tão significativa. A morte de Mardo, para Kal, tinha um valor muito mais simbólico do que simplesmente psicopata. Agora, todos sabiam que as forças do mal não estavam para brincadeiras, e que com o Livro de Merlin em mãos, Donnovan estaria de volta à vida em pouco tempo.

Há exatos novecentos e noventa e nove anos, Donnovan, ou, Cavaleiro Negro, foi o maior bruxo das trevas em toda a terra. Ele liderou massacres contra os humanos, acreditando que por não possuírem dons mágicos, eles deviam ser considerados criaturas inferiores, meros erros da evolução das espécies, e que ele tinha a missão de aniquilar esta raça de humanos imperfeitos. Donnovan conseguiu reunir um vasto exército de bruxos das trevas e outras criaturas mágicas que comungavam da mesma idéia.

Felizmente, havia Merlin e seu discípulo Foster, o primeiro antepassado de Kal, juntos eles inauguraram a Escola de Magia de Avalon. Uma escola onde bruxos, ou não, qualquer interessado em magia poderia aprender a arte. Para livrar-se das perseguições do exército das trevas e de alguns humanos que passaram a temer os bruxos pelo seu poder, Merlin e Foster ergueram o castelo acima das nuvens, onde logo abaixo formou-se a maior cidade encantada do país, a Cidade dos Elfos.

Avalon tinha um aspecto de castelo medieval, no entanto era tão novo e tão conservado, de longe diria-se que o castelo possui mais de novecentos anos. São vários os encantos que protegem os segredos do castelo, a começar com as nuvens que o cercam, formando uma densa muralha natural, onde qualquer viajante não convidado poderia ficar perdido eternamente.

Tão perdido quanto estava Kal naquele momento. Ele já dera a volta em três quarteirões quando percebeu que estava completamente desnorteado. Estava em seu ponto de partida, na mesma esquina em que um homem robusto lhe oferecera ajuda. As pessoas dentro das lojas continuavam a olhá-lo atenciosas, porém agora elas tinham um motivo. Kal havia circulado os quarteirões da redondeza e todos estavam curiosos para saber o que aquele garoto de família tão estranha estava fazendo ao circular pelo bairro?

Ele decidiu que era hora, então, de perguntar. Perguntar ao primeiro que passasse em sua frente, fosse quem fosse. Afinal, ele estava com sua varinha e não iria se importar em usar caso corresse perigo.

Logo a sua frente vinha uma mulher, uma senhora já de idade, tinha o cabelo curto, um vestido comprido que lembrava um tipo de camisola e calçava um sapatinho de couro. Kal já estava separando os lábios para perguntar onde ficava a banca de revistas mais próxima, quando um cão de porte médio e pelos amarelos pulou a sua frente tirando-lhe um pequeno grito de espanto. Ele colocou a mão direita na calça e tocou a varinha, ele sabia que aquele não era um cão, era um bruxo transformado.

Cães não saltam na frente das pessoas desse jeito.

- Hei, garoto! Espere. – falou o cão de cabeça baixa.

- Quem é você?

- Katrini Likiniki. – respondeu – Guarda de Warren. Sua mãe me disse que você havia saído e estava demorando.

- Oi.

- Está perdido, não é?

- Preciso ir até uma banca de revistas. Sabe onde tem uma?

- Vem comigo.

Era a situação mais inusitada que já acontecera na Rua Chinchila, um garoto após ficar completamente perdido parecia ter conversado com um cachorro e agora o estava seguindo. Ninguém parecia querer acreditar naquilo, então resolveram se dedicar cem por cento ao que estavam fazendo e esquecer as sandices do novo morador do Araçá.

Alguns mais curiosos continuavam a observar Kal das janelas dos prédios no segundo andar, e ele lembrando-se do que Cacius fizera quando fora até sua casa e todos os moradores o encararam intrigados, começou a distribuir “boa tarde” a todos que o observavam.

- Fique quieto! – ordenou Katrini – Não chame a atenção.

- Conversar e seguir um cão chama muito mais.

- Certo, da próxima vez arrumamos uma coleira...

Katrini conduziu Kal por várias ruas, fazendo curvas e desvios, no fim, a Guarda de Warren deixou o garoto em uma banca de revista chamada Tulipa. Kal lembrou-se imediatamente da floricultura da Cidade dos Elfos, a Flor-de-Lis. Ela era a mais antiga de todas as floriculturas do país e fora fundada pelo Governo mágico após a construção de Warren. A floricultura carregaria a marca com que os prisioneiros de Warren recebiam ao serem presos, a Flor-de-Lis. Algo parecido com uma espada com pétalas nas bordas. No ano anterior, Kal visitara a floricultura com Ralph, Guinevere e Daimon, onde cada um comprou um tipo de planta. Kal escolhera sem querer a planta mais difícil de se cuidar, a Herviana gornóide, um tipo de planta subterrânea sensível à luz.

- Bom dia, senhor! – cumprimentou Kal a um homem gorducho e muito sujo.

- Bom dia. – respondeu o homem enquanto limpava a mão suja de doce na camiseta branca.

- Tem revistas e jornais?

- Isto aqui é uma banca de revistas e jornais.

- Certo. Certo. – disse Kal sem entender direito o que o homem havia dito – Eu quero o jornal de hoje.

- Qual? – perguntou o homem exibindo na prateleira alguns exemplares.

- Ah... este! – apontou Kal para um em que havia um anúncio de cereal.

- Um real.

- Ok. – disse separando o dinheiro sem muita dificuldade.

- Mais alguma coisa?

- Vou olhar as revistas.

- Tudo bem. – falou o homem enfiando mais um pouco do doce enquanto pegava um jornal para ler.

Kal leu alguns títulos, mas não sabia ao certo o que eles queriam dizer. As pessoas daquele mundo tratavam de diversos assuntos ao mesmo tempo, uma única revista podia abordar os mais variados temas e Kal não sabia qual escolher.

Ele olhou mais uma vez e decidiu por pegar uma em que havia um casal em pose de meditação. Ele achou que falar sobre guerras e desastres naturais em um jantar não seria muito amistoso.

- Eu quero esta.

- Então compre. – respondeu o homem impaciente – Você não é daqui, é garoto?

- Sou é... sou do norte.

- Sei... – disse o homem com uma expressão estranha – São sete e cinqüenta.

- Tome. – disse Kal estendendo uma nota de dez.

- Obrigado. – agradeceu enquanto entregava o troco ao garoto e ainda assim olhando de esguelha para ele.

Kal enfiou o restante do dinheiro no bolso e olhou para Katrini que estava se coçando logo mais à frente. Ele saiu de dentro da banca de jornais e seguiu até a bruxa disfarçada. Ela o esperava impaciente e assim que se aproximou ela parou de se coçar e o seguiu dizendo:

- É cada humilhação que temos que passar para manter o emprego...

- Você podia se transformar num pássaro, não?

- Não tenho permissão para isto?

- Como assim?

- Warren ordenou-me assumir a forma de um cão.

- É assim que funciona, então?

- Não é tão ruim.

- O que pode ser pior? – perguntou Kal imaginando algumas possibilidades estranhas.

- Certa vez, tive que me transformar em vaca. Nestas horas, o que mais sinto falta são dos polegares!

- Imagino.

Ao chegar na praça da Rua Guaçuí, Katrini Likiniki seguiu por outro caminho, mas Kal já estava em segurança. Alguns dos guardas de Warren perambulavam pela rua em sua tarefa de proteger os Foster contra qualquer perigo. Kal estava curioso para saber o que havia acontecido no Governo após a morte de Mardo, mas não quis entrar em detalhes com Katrini no meio de várias pessoas. Certamente elas estranhariam o tipo de conversa e também o ouvinte. Ele subiu a rua folheando as páginas do jornal à procura de uma manchete interessante e que pudesse render um bom assunto...

Antes que Kal pudesse chegar em casa, seu irmão, Daimon, veio correndo ao seu encontro com o rosto pálido e suando frio. Daimon estava com uma camisa de botões, que estava aberta até quase a metade do peito. O garoto parecia estar muito ofegante e Kal parou no meio da rua para que ele pudesse se explicar melhor.

- Vem... comigo... mamãe... depressa!

Kal dobrou os joelhos para pegar um melhor impulso e saiu rua acima puxando o irmão pelo braço. Daimon quase não tocava o chão, tamanha a força que Kal fizera para arrastá-lo. Os dois chegaram em casa quase que expulsando os pulmões. Amanda estava sentada na sala praticamente desmaiada, Guinevere ao seu lado abanando.

- O que aconteceu? – perguntou Kal ao entrar.

- Graças a Deus, meu filho, que você chegou. Estava ficando preocupada...

- Não precisava. Katrini estava comigo.

- Sim eu sei, mas... mas aconteceu algo terrível. Cacius não tinha o direito de nos ter escondido isto... não tinha.

- Do que ela está falando? – perguntou Kal a Daimon sem entender a que Amanda se referia.

- Olhe isto. – disse Daimon pegando uma folha de pergaminho em cima da televisão – É o jornal de hoje.

Kal segurou a folha em frente aos olhos e leu em voz alta.

Falhas da segurança, morre um ministro

Morreu na semana passada o Ministro da Defesa Mágica, Mardo Runifer. O ministro, que ocupava o cargo há pouco menos de dez anos, foi brutalmente assassinado pelo meio-vampiro Kricolas, que segundo dados do próprio ministério, já assassinou mais de quinze pessoas só neste ano. O caso havia sido abafado pelo governo na tentativa de conter os ânimos da comunidade mágica. Mesmo com tanta precaução, a notícia vazou e informantes que gozam de nossa inteira confiança, nos afirmaram que o assassinato ocorreu por volta de nove da noite do dia sete de janeiro.

Hoje, o ministério ainda não se pronunciou quanto o caso. Soubemos que ontem foi realizada uma reunião com os Guardas de Warren para determinar que todos permaneçam em seu posto até um novo ministro ser nomeado.

Alguns nomes foram indicados durante a reunião, e entre a lista, os três mais importantes são: O diretor da escola de Magia de Avalon, Cacius Henrique Emrys; o até então Guardião Chefe de Warren, Uric Scheiffer e o atual Secretário de Defesa e Estratégia do Estado Mágico, Dorian Gulemarc. Não conseguimos depoimentos a respeito dos dois primeiros bruxos, mas sabemos que, no passado, Cacius Henrique ocupou o cargo de vice-presidente por alguns meses e após esta experiência foi indicado para outros cargos de importância dentro do Governo, mas recusara a todos os convites em nome de sua escola. Uric Scheiffer é um personagem em ascensão no país, e não se sabe muito mais do que a sua função em Warren.

No entanto, o transparente Dorian Gulemarc visitou nossa redação e disse que caso ele seja escolhido pelo Conselho de Magia, do qual os três candidatos fazem parte, para assumir o papel de Ministro da Defesa e Segurança Mágica, sua primeira meta será colocar guardas a paisana por todo o país “em busca do sanguinário Kricolas”, como mesmo frisou. Ele disse não entender porque o governo quer esconder uma calamidade como esta. “Temos um monstro perigoso à solta e devemos contar com o máximo de ajuda possível. As pessoas precisam saber!”.

Quando inquirido se Kricolas vasculhara alguns departamentos do prédio sede do Governo, o Secretário apenas disse que Kricolas roubou os relatórios do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas, que ficavam no mesmo andar da sala de Mardo Runifer.

Kal parou perplexo. Não acreditara no que lera. Aquilo definitivamente não poderia ser verdade. O Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas do Ministério da Defesa e Segurança Mágica, era o programa em que os Foster estavam inscritos. Se Kricolas estava com os relatórios era certo que ele também sabia onde estavam morando.

- Você acha possível que... – perguntou Daimon, a Kal, olhando para sua mãe que continuava a ser abanada por Guinevere.

- Que ele venha atrás de nós? – completou Kal.

- Não há como afirmar nada. Por hora é melhor esquecermos isto.

- O que disse, meu filho?

- Que estamos seguros, mamãe. Têm mais de trinta guardas lá fora prontos para se transformarem e atacarem qualquer pessoa que tente nos ferir. – falou Kal num tom de voz confiante.

- É isto mesmo senhora. Enquanto estivermos aqui não há com o que se preocupar. – falou um gato laranja e pouco peludo que estava na janela ao lado de um segundo gato. Ele era persa e tinha os pêlos acinzentados.

- Olá. – cumprimentou Amanda.

- Estaremos atentos a qualquer coisa. – disse o persa.

- Ih! Olha um novelo!

O gato laranja pulou da janela e caiu de pé sobre um novelo de lã que usou como brinquedo.

- Adoro ser gato.

- Cale a boca, Fred! – cortou o persa enquanto saltava da janela e assumia a forma humana, um homem alto com o uniforme branco e cinza de Warren combinando com seus cabelos longos, lisos e grisalhos – Senhora Foster, meninos, senhorita. Eu sou Stuart, e este é Fred – o gato laranja pareceu não se incomodar com a apresentação e continuou brincando com o novelo de lã – Nós montamos um esquema de segurança para que possam ficar tranqüilos. Sempre que quiserem ir além da praça nos informem que enviaremos alguma escolta.

- É, mas também pedimos para que não saiam de casa à noite porque queremos descansar também.

- Fred, você quer perder o emprego não quer? – perguntou Stuart, secamente.

- De forma alguma. – falou ele, também voltando à forma humana, a de um rapaz de vinte anos, magrelo e de cabelos ruivos – Eu ainda vou ser Ministro da Defesa e Segurança.

- Torça para a noite chegar logo que isto acontece, com certeza. – falou Stuart tirando risadinhas de Kal, Daimon e Guinevere – Muito bem então, acho que agora temos que ir. Não queremos incomodar vocês.

- Obrigada, Stuart e... Fred. – falou Amanda percebendo que esse continuava a brincar com o novelo de lã mesmo depois de ter se transformado – Agradecemos por tudo que vocês têm feito por nós, e vamos contribuir para não dificultarmos muito as coisas.

- Tenham uma boa tarde, então. Vamos Fred, e por Merlin largue este novelo. – grunhiu Stuart antes que os dois se transformassem novamente em gatos e saltassem pela janela.

- Viu só mamãe. Estamos seguros. – disse Daimon.

- Sim, estamos, mas Cacius não poderia ter nos escondido o fato de Kricolas saber onde moramos...

- Ele não sabe. – disse o professor que acabara de esfumaçar ao lado da janela – Desculpe-me por chegar assim, sem avisar, mas é que estou num pequeno intervalo de uma reunião e precisava vir o mais rápido possível.

- Já sabemos de Kricolas, professor. – falou Daimon.

- Sim. Era exatamente isto que vim avisar. Podem ficar tranqüilos. Kricolas não tem o endereço de vocês. – afirmou ele com toda segurança.

- Mas aqui diz que os relatórios... – argumentou Amanda segurando o jornal.

- Sim, o Folha Mágica gosta de acrescentar muitas informações nos seus textos. Contudo nem todas são verídicas. Os relatórios que Kricolas roubou não continham qualquer informação sobre o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas. Na verdade ele roubou apenas um dossiê explicativo esclarecendo as metas do programa.

- Então ele não sabe onde estamos? – quis assegurar-se Amanda.

- Não.

- E onde estão os relatórios? – perguntou Kal curioso.

- Em um lugar onde ele nunca poderia entrar.

- Avalon? – sugeriu Kal.

Cacius sorriu, como se estivesse contente com a resposta de Kal, porém corrigiu-o logo em seguida.

- Warren. Todos os relatórios estão lá. Em segurança.

- Isto me alivia muito, professor... – confessou Amanda.

- Eu imagino como se sente. – disse Cacius retirando um relógio prateado de dentro do bolso das vestes – Desculpe, preciso ir agora. Está na hora da reunião. Sinto muito, só que não poderei ficar para jantar, senhora Foster. A reunião vai se prolongar. Vejo vocês outra hora. Até mais.

Mal terminara de dizer as últimas palavras, o bruxo já estava esfumaçando outra vez, deixando apenas um colorido esfumaçado que rapidamente sumiu com a ajuda do vento. Kal estava a meio segundo de perguntar ao professor o que era o Conselho de Magia que o Folha Mágica enfatizara, então deduziu que devia ser uma espécie de assembléia, onde os grandes bruxos do país votavam leis entre outras decisões.

- Bem, agora que estamos certos de nossa segurança acho que podemos nos preparar para receber nossos visitantes. – falou Amanda.

Os quatro sentaram-se no chão da sala e distribuíram os cadernos de notícias do jornal. Leram sobre economia, turismo, ciência, tecnologia, esportes e algumas outras novidades internacionais. A revista que Kal comprara não fora tão útil, pois em sua maior parte era composta por anúncios, sobrando poucas páginas de matérias bobas e outras cheias de fotos de pessoas em festas. No geral, os Foster e Guinevere conseguiram ter uma mínima noção a respeito do mundo não mágico, pelo menos o suficiente para cogitar um breve assunto.

Por volta das seis horas, Amanda e Guine entraram na cozinha com um caderno de receitas, enquanto Kal e Daimon limpavam a sala e a copa. Os dois trancaram toda a casa e fecharam as cortinas, a fim de poderem usar magia para facilitar o serviço de limpeza. Após isto, os dois começaram a trocar as lâmpadas, queimadas graças à radioestesia, sintonizaram a televisão, que insistia em não pegar, estenderam um tapete verde no chão da sala e acenderam alguns abajures pela casa para que não passassem vergonha caso uma lâmpada deixasse de funcionar. Depois de arrumarem a casa, os quatro vestiram roupas bem sociais, como as que viram nas fotos da revista que Kal comprara.

- Acho que acabamos. – falou Daimon largando-se no sofá.

- Já são sete e meia. Os Chiabai podem chegar a qualquer momento.

Eles sentaram-se em frente à tv e passaram a assistir o noticiário das sete. Naquele dia as notícias não eram tão boas. Quatro acidentes de carro e cinco mortes, Kal prestou bem atenção para ver se relacionava os ocorridos à Kricolas, no entanto parecia improvável que o meio-vampiro tivesse suicidado três pessoas e atirado em outras duas.

Às oito da noite, a campainha do interfone dos Foster tocou e de um salto os quatro levantaram-se do sofá com os corações acelerados. Daimon retirou o interfone do gancho e disse:

- Chiabai?

- Oh, sim! – falou o senhor Alexandre Chiabai, através do interfone.

- Podem entrar. Não temos cachorro. – disse Daimon desligando o aparelho – Estão vindo.

Kal e Guinevere ficaram ao lado de Amanda, na porta de entrada, prontos para recebê-los enquanto Daimon se certificava de que a lasanha que sua mãe e Guine fizeram não estava queimando dentro do forno.

- Está ok. – falou ele ao se juntar aos três.

- Olá! – disseram Alexandre e Mara Chiabai ao entrarem e cumprimentarem todos.

- E sua filha? Não pôde vir? – perguntou Amanda.

- Oh, ela virá. Estava com umas amigas em casa e por isso se atrasou. Em instantes ela chega.

- Por favor, entrem... – falou Amanda conduzindo-os até a cozinha.

- Será que ela vem mesmo? – perguntou Guinevere a Daimon e Kal e os dois deram de ombros.

Amanda, o senhor e a senhora Chiabai sentaram-se na mesa da cozinha e conversaram tranqüilamente, Amanda prestava atenção no que os dois falavam entre si, e logo percebeu que humanos e bruxos não eram nada diferentes. Aqueles dois estranhos despertaram nela uma alegria que há tempos não sentia. Amanda e seu marido Adonis conversavam longamente durante o dia, e ela sentia falta disso. Ter alguém para partilhar idéias e sugestões. Era certo que Cacius sempre a visitava, mas em geral não havia muito o que conversarem, nem ela queria fazer o professor perder seu valioso tempo discutindo sandices. Os guardas de Warren passavam a maior parte do tempo na forma de animais e eles precisavam estar sempre concentrados, então ela não os incomodava. Desde que se mudaram de Vila da Cachoeira, portanto, seus únicos parceiros de conversa eram três adolescentes. Mas Amanda ainda achava que suas conversas não eram tão atraentes para os três. E agora, ali, olhando para aquele casal sentiu-se finalmente contente por ter com quem trocar idéias, mesmo que não fosse sobre o seu verdadeiro mundo.

É uma pena que eles não possam saber de nós, talvez se interessariam... Pensou, em um leve entusiasmo.

Entediados, Kal, Guine e Daimon saíram pela porta da frente e caminharam pelo jardim até o portão de entrada. Quando tentaram abri-lo deram-se conta de que os Chiabai o haviam trancado e que eles estupidamente esqueceram as chaves.

- Vocês acham que tem alguém espiando? – perguntou Kal.

Os dois espreitaram os olhos pela vizinhança, primeiro na casa de Alexia Almeida, a fofoqueira de plantão, se ela não estivesse olhando ninguém mais estaria.

- Acho que não tem ninguém espiando. – falou Daimon.

- Opandor! – disse Kal com a varinha apontada para a tranca do portão.

- Posso saber aonde os três estão indo? – perguntou uma voz familiar vinda de cima de uma árvore ao lado do portão dos Almeida.

- Quem está aí? – perguntou Kal escondendo a varinha.

- Por Merlin, vocês são uns teimosos! – falou novamente a voz de cima da árvore – Sabem que têm que nos avisar quando tiverem intenção de sair.

- Só vamos dar uma volta.

Um gato laranja e de pelos curtos saltou da árvore com a verdadeira destreza de um felino. Era Fred.

- Eu os acompanho. – disse o guarda de Warren.

- Tudo bem, mas de longe. – impôs Guinevere.

- Será que um de vocês poderia me carregar no colo? Acho que machuquei a pata quando saltei da árvore...

Os três entreolharam-se com as sobrancelhas erguidas e bufaram.

- A menos que prefiram ficar em casa...

Daimon puxou o gato pela nuca e segurou-o como se fosse um bebê.

- Obrigado. Vocês são muito gentis. – agradeceu Fred enquanto lambia sua pata dianteira.

Os quatro seguiram rua abaixo até a pequena praça, onde na manhã daquele mesmo dia Kal conversara com Sara Chiabai. A vizinhança estava silenciosa, algumas poucas luzes acesas dentro das casas e nada mais, apenas dois postes estavam com as luzes queimadas e alguns outros passaram a piscar quando eles passaram por baixo.

- Estranha essa tal de radioestesia, não? – comentou Fred.

- Tão estranho quanto gatos falantes. – disparou Guinevere.

- Estive pensando em comprar botas, soube de um famoso que usa botas.

- Quieto! – advertiu Kal.

Ao se aproximarem da casa de Sara, ele pôde ouvir barulhos de conversa e sentiu uma imensa vontade de tirar a varinha do bolso e usar o Captus, feitiço que dá ao bruxo uma super audição capaz de ouvir qualquer coisa com perfeição num raio de um quilômetro.

- Ela é legal? – perguntou Guinevere, desconcentrado Kal de seu pensamento.

- Sim. – respondeu ele rapidamente.

- O que vocês vieram fazer aqui? – perguntou Fred.

- Nada. – disseram os três.

- Pelas grades de Warren! Eu estava dormindo como um bebê e vocês vêm aqui por nada! – resmungou o gato.

- Ninguém te convidou... – disse Daimon que já estava cansado de carregá-lo no colo.

Os três sentaram-se nos mal cuidados balanços e Kal ficou a olhar para a casa de Sara, quase que hipnotizado. Ele nunca sentira algo parecido. Talvez nem mesmo por Emanuela Goldemberg, por quem era apaixonado, nem isto ele tinha mais tanta certeza. Mas sabia que naquela manhã, algo acontecera entre ele e Sara Chiabai. Algo estranho e talvez bonito. Mas ainda assim não sabia se era exatamente amor.

Nas últimas semanas, ele assistira a vários filmes, e em diversos deles os personagens falaram em amora à primeira vista. Porém ele achou que aquilo era uma técnica de cinema, uma que construir um verdadeiro amor em menos de duas horas era impraticável, então, inventou-se o “amor à primeira vista”. E ele não queria ser influenciado por uma corrente amorosa de cinema. Definitivamente não.

- Está pensando nela? – perguntou Daimon de supetão.

- Sara. – completou Guine.

- Acho... acho que sim. – respondeu com toda sinceridade, coisa que não era muito comum, Kal sempre achara que os seus sentimentos não deviam ser compartilhados.

- Temos alguém apaixonado por aqui? – perguntou Fred.

- Disse para ficar quieto! – repreendeu Kal.

- Cara, você está caidinho pela não mágica! – gargalhou Fred balançando as patas no colo de Daimon.

- Fica quieto. – disse Daimon, que se esforçava para conter o gato.

- Não mágicos e bruxos são como água e óleo, seu burro. Não dá para misturar.

- Saia daqui! – trovejou Guine com o guarda que começava a agir impertinentemente.

- Não posso abandonar meu posto.

- Que pena. – disse Kal, o mais calmo entre eles. Não se importava em nada com as opiniões de Fred ou do conceito de que não mágicos e bruxos são criaturas muito distintas. Dificilmente ele se abatia com o julgamento alheio.

Eles ficaram sentados ainda um bom tempo conversando, sobre qualquer outro assunto que não fosse a vida amorosa de Kal, até que Sara Chiabai saísse de casa com suas três amigas por volta de nove horas. Kal admirou a vizinha em sua saia até um pouco acima dos joelhos e sua camisa de manga comprida verde, àquela noite fazia frio, mesmo estando no verão.

- Boa noite. – disse a garota aos três.

- Boa noite. – responderam.

- Bonito gato. – falou ela olhando para Fred que se espreguiçava no colo de Daimon.

- Não é meu. – falou ele jogando o gato para frente – Só estava... só estava com ele.

- Entendo.

Fred aproveitou que Sara estava de costas para ele e fez língua para Daimon em protesto.

- Estavam me esperando? – perguntou a garota – Desculpe-me fazê-los esperar.

- Não. Tudo bem. Só estávamos... aqui. Só isso... – disse Kal, meio que gaguejando.

- Eu sou Guinevere. – disse apresentando-se para Sara.

- Oi! Kal me falou sobre você hoje de manhã. – respondeu ela.

- Acho que... acho que estão... estão nos esperando. – disse Kal cabisbaixo e se odiando por estar gaguejando tanto.

Ele adiantou o passo e saiu na frente dos três, no entanto ao atravessar a rua até a esquina da casa de Sara ele sentiu um arrepio gelado em seu estômago como se tivesse engolido uma pedra de gelo naquele momento e um frio cortante alisou sua nuca. Aparentemente, apenas ele sentira aquilo. Guinevere, Daimon e Sara continuaram o caminho passando por ele, Fred seguia-os logo atrás.

Kal concluiu que era apenas um vento, um vento como qualquer outro e que não era motivo para pânico. Ainda mais na presença de Sara.

- Algum problema, Kal? – perguntou ela ao reparar que o garoto estava muito atrás deles.

- Oh! Não, não. Tudo ok. – disse meio que sem confiança e correu para acompanhá-los.

- Se isso te ajuda rapaz, eu também percebi. – disse Fred de cabeça baixa quando Kal passou por ele – Vão para casa! Depressa!

Kal acenou com a cabeça e se apressou mais ainda fazendo com que os outros três acompanhassem seu passo acelerado.

- O jantar deve estar pronto, não é?

Amanda e Guinevere fizeram um excelente trabalho na cozinha. A lasanha estava no ponto de cozimento exato e não houve falhas no tempero, até mesmo o paladar mais exigente se renderia àquela comida. Quando os garotos chegaram em casa, Amanda acabara de pôr os pratos na mesa com a ajuda de Mara, que apanhara uma jarra de suco de laranja dentro da geladeira e servira nos copos de vidro, cada um com três cubos de gelo.

- Parabéns às cozinheiras! – disse Mara.

- Obrigada. – responderam Amanda e Guinevere em coro.

Os assuntos da mesa divergiram sobre tudo o que os Foster leram. Naturalmente eles incitaram o assunto que tinham decorado na ponta da língua, para ganhar uma certa vantagem, e de forma que não se perdessem com as notícias recém adquiridas. Os Chiabai foram agradáveis em suas respostas e tinham uma visão bem politizada dos assuntos. Sara, apesar de parecer o tipo de garota que não entende muito além de maquiagem e shopping, mostrou-se bastante franca e confiante em suas afirmações. A cada palavra que a moça soltava, Kal sentia seu pelo eriçar de entusiasmo e alegria de ter, supostamente, se apaixonado por alguém tão encantadora.

Em dada hora da noite, os Chiabai perguntaram se eles não gostariam de sair todos juntos para um passeio entre amigos. Mesmo indecisa sobre a idéia, Amanda perguntou aos visitantes:

- Têm alguma sugestão?

- Chegou um parque na cidade. – falou Sara – Todos os meus amigos já foram lá.

- Parece uma boa idéia. – disse Kal olhando timidamente para a garota a sua frente.

- Dentro do parque tem um circo também. – prosseguiu Sara.

- Ótima idéia! – disse Alexandre – Faz tempo que não vamos a um circo, querida.

- Acho que a Sara era uma criança. – completou Mara.

- E vocês? – perguntou Sara a Kal, Daimon e Guine – Já foram a um circo?

Os três entreolharam-se e dirigiram o olhar a Amanda, que respondeu:

- Sim. Fomos. Mas eles eram tão pequenos, duvido que lembrem de muita coisa. – mentiu. Os Foster nunca se quer chegaram próximo a um circo, muito menos um parque de diversões.

- É uma boa idéia, então? – perguntou Daimon à mãe.

- Sim, claro. – respondeu ela, temerosa.

- Quando vamos? – perguntou Guine entusiasmada.

- Por que não vamos logo amanhã. – sugeriu Alexandre.

- Ótimo. O parque abre às dezoito horas. – disse Sara.

- Legal então. Combinado. – respondeu Kal e assim que terminou de falar sentiu novamente um arrepio na barriga e o vento na nuca.

Novamente nenhum dos presentes pareceu sentir a mesma sensação, porém ele agora tinha certeza de que não era apenas um vento. Olhou para sua mãe na ponta da mesa e ela parecia estar nervosa com alguma coisa. Os talheres em suas mãos estavam tremendo e Kal viu uma pequena gota de suor descer pela testa de Amanda.

Kal voltou ao seu prato para dar mais uma garfada no pedaço de lasanha que acabara de cortar e assim que o colocou na boca engoliu-o em seco ao ouvir um som rouco, quase como um agouro vindo da janela. O menino olhou para fora e viu o lago refletir calmamente a luz da lua por um breve instante, mas no segundo seguinte a água agitou-se provocando um movimento de ondas, como se uma pedra bem grande tivesse sido jogada no lago, no entanto, naquela ocasião, ele sabia que não fora uma simples pedra.

Olhando mais fixamente para fora, percebeu uma pequena agitação entre os guardas de Warren que corriam de um lado para o outro do lago. Era um movimento sincronizado como se estivessem isolando-o, verdadeiramente fazendo uma muralha. Kal suspirou profundamente quando um guarda inicialmente transfigurado em pombo sobrevoou o lago e transformou-se em peixe, mergulhando de cabeça. Fora uma sorte os três Chiabai estarem posicionados de costas para a janela.

- Algum problema, Kal? – perguntou Mara percebendo que o garoto estava catatônico e olhando fixamente para fora.

- Não. Não há problema nenhum. Só os peixes que estão pulando muito hoje. – respondeu nervosamente.

Amanda percebendo a situação pronunciou-se antes que um dos visitantes também se interessasse pelos peixes que Kal mencionara e olhasse para trás.

- Kal, está frio aqui não está? Por que não fecha a janela, querido. – sugeriu.

Kal balançou a cabeça positivamente, talvez ele mesmo tivesse aquela idéia um minuto mais tarde. Antes de fechá-la, enfiou a cabeça para o lado de fora e procurou pelos guardas. Todos tinham sumido.

- Feche logo, querido. – disse mais uma vez Amanda, em claro tom de nervosismo.

Ele puxou as vidraças e desceu a persiana, de forma que nada que acontecesse do lado de fora pudesse ser visto ou percebido por nenhum deles ali da cozinha.

Quando o relógio na parede marcou dez e meia, os Chiabai levantaram-se agradecendo pelo jantar e recombinaram o encontro do dia seguinte.

- Que jantar agradável. – disse Mara – Ficamos felizes em tê-los em nossa vizinhança.

- Às dezoito horas, na pracinha, combinado? – sugeriu Alexandre.

- Está bem, então. – respondeu Amanda.

- Até mais, Kal. – disse Sara ao atravessar a porta de entrada.

- Até...

No momento em que os Chiabai chegavam ao portão um gato peludo passou a poucos centímetros de suas pernas e Mara tomou um pequeno susto.

- Apenas um gato. – disse ela virando-se para os Foster.

Assim que Mara Chiabai selou os lábios todos os postes da rua começaram a piscar e se apagaram ao mesmo tempo, deixando a rua sob uma névoa de escuridão.

- Tudo bem não há perigo. – disse Alexandre não muito convencido.

Kal correu para dentro de casa e foi direto para a cozinha abrir a janela com vista para o lago. Ele admirou a cena. Eram mais de cinqüenta gatos e cachorros, todos olhando para o centro do lago em expectativa. Kal reconheceu o gato mais próximo como sendo Stuart. Ele chamou a atenção do gato e disse baixinho:

- Stuart! Você pode seguir os Chiabai até em casa? Por algum motivo todos os postes se apagaram!

- Precisa ser agora? – perguntou o guarda, claramente exautado.

- Por favor. Pode ser perigoso para eles.

- Não posso abandonar meu posto. – teimou.

- O que está acontecendo afinal de contas? – quis saber Kal.

- Tudo bem garoto. Eu vou acompanhá-los. Vá dormir. – disse Stuart esquivando-se da pergunta de Kal.

O garoto pôs-se para dentro da cozinha novamente e trancou a janela, correu então para a janela do seu quarto de onde teria uma visão mais aérea da cena. Havia um brilho estranho dentro das águas esverdeadas do lago, e não era apenas o brilho da lua. A luz parecia sair do fundo do lago. Os guardas de Warren continuavam espalhados à margem muitos em posição de ataque.

- Algum problema, Kal? – perguntou Daimon curioso da porta do quarto.

- Não! – respondeu fechando a janela subitamente – Só estava olhando a lua...

- Parece estar bonita hoje. – disse Daimon se aproximando da janela.

- É uma pena que tenha muitas nuvens. – falou Kal e o irmão se afastou.

- A tudo bem. Eu vou dormir então. Boa noite.

- Boa noite.

Kal encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, contudo assim que o fez, seu cérebro mostrou-lhe as imagens do lado de fora da casa. Ele continuava vendo os guardas ao redor do lago, e então viu os Chiabai indo para casa, seguidos de perto por Stuart. Era apenas imaginação. E foi neste ritmo que Kal mergulhou em um sono atormentado por pesadelos e sonhos confusos. Como o em que ele corria por uma linha de trem e ao passar por uma estação ele viu Sara sentada em um banco, mas quando quis parar não conseguiu. Seus pés não o estavam obedecendo e ele continuou correndo até a próxima estação onde a mesma Sara continuava sentada em um banco a sua espera, no entanto ele não podia parar, não, não podia...

- Kal... Kal... Kal acorda... – ouviu ao longe.

- Kal, o professor Cacius quer ver você.

- Guine... o que...

- Bom dia. Acho que estava sonhando. – falou Daimon.

- Você estava dizendo que queria parar. – disse Guinevere logo em seguida.

- Cacius está aí?

- Sim. – confirmou a garota.

Kal levantou da cama, ainda estava com a roupa que usara no jantar, e correu rápido até as escadas descendo dois degraus por vez. Ao chegar à cozinha, deparou-se com Cacius que bebericava uma xícara de café enquanto Amanda contava como fora agradável a noite anterior com a visita dos Chiabai.

- ...e eles adoraram a lasanha.

- Bom dia, professor. – cumprimentou Kal.

- Bom dia, Kal.

- Dormiu bem, querido? – perguntou Amanda.

- É. – disse Kal não querendo contar seus sonhos a ninguém.

- Kal, gostaria de falar com você. Se possível.

- Claro. – disse, esperando exatamente por isso.

O professor agradeceu a Amanda pela xícara de café e levantou-se, abriu a porta da frente e saiu acompanhado de Kal. Os dois saíram da varanda e deram a volta na casa até chegarem próximo às margens do lago, que parecia mais quieto naquela manhã do que estivera na noite anterior. Cacius contemplou o horizonte a frente por instantes sem parecer ter vontade de falar qualquer coisa, mas algo parecia obrigá-lo a fazer aquilo.

- Quero lhe contar algo muito importante agora, Kal Foster.




quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Minha biografia

Semana passada a Editora BookLink pediu pela minha biografia, comentei com algumas pessoas que eu precisava escrever uma urgentemente, e eis que um amigo se solidarizou escrevendo com um humor digno de nota.

Biografia de André Fantin
Por Raphael Perovano

Publicitário, moralista, ensaísta, líder cívico, cientista, inventor, estadista, diplomata, filósofo e herói da independência comunicacional, nascido ao dia 18 de abril de 1988 em Vila Sésamo, cujas atividades intelectuais abrangeram os mais variados ramos do conhecimento humano, das ciências naturais, educação e política às ciências humanas e artes. De origem humilde, de uma família numerosa de 16 irmãos, aos dez anos já trabalhava com o pai na fabricação de sabão e pedra pomes e aos quinze passa a trabalhar na gráfica de um de seus 16 irmãos. Mudou-se para Flexal, em Cariacica, (1999), onde trabalhou como laterneiro. Aprendeu idiomas, como tupi-guarani e xintu, e a tocar vários instrumentos, como sanfona e gaita. Conseguiu construir sua própria micrográfica (2001) e fundou o jornal Entretanto, mais tarde o Segunda Mão e, com o pseudônimo Kal Foster, editou o Livro de Merlin, quando ganhou o prêmio Estrela de Prata.

O sucesso foi tanto que pôde montar tipografias em outras das 13 colônias ufesianas e acumulou grande fortuna, o que lhe permitiu aposentar-se dos negócios (2020), passando a se dedicar integralmente a política e a pesquisa científica. Foi membro do Centro Acadêmico (2008-2009). Criou em São Pedro II a TV Fantin, fundou a primeira biblioteca circulante de São Pedro II e uma academia que mais tarde se transformou na Faesa. Organizou um clube de chá e truco, que deu origem à Sociedade Ufesiana de Filosofia, e ajudou a fundar o hospital das clínicas.
Ingressou como publicitário na UFES em 2007. Sua dúvida era cruel entre Arquivologia (aliá o Word não reconheceu essa palavra), Estatística e Engenharia Industrial Madeireira. Optou por publicidade, para ficar próximo da sua amada sorveteira Quiabai. Mais tarde descobre que na verdade Quiabai não existe. Tudo não passava de um plano para fisgar os alunos de comunicação. A UFES lhe proporcionou diversas aventuras. Na Ecos chegou a se tornar Presidente, mas abdicou do cargo por interesses mais congruentes. Tentou ingressar no Nexo e na Excom, mas não teve êxito. Participou dos estudos interdisciplinares com a turma das Artes Plásticas e Filosofia. Fez reopção para o curso de Gemologia, em 2010, por ter encontrado a Pedra Filosofal nos arredores do Cemuni V. Desistiu da UFES logo no início de 2011.
Foi enviado à Argentina (2011) para solucionar a disputa entre Maradona, Pelé e Madonna. Voltou a UFES (2012), após ter dados uns pegas na Madonna, mas as más línguas desconfiam que seria na verdade o Maradona. Voltou casado com a mexicana Maria Martins, uma ex-catadora, que emplacou em novelas famosas do Sistema Brasileiro de Televisão e da Televisa. Com Maria teve 6 filhos: Manoel Augusto (2012), Ana Luzia e Ana Lúcia (2013), Catarina Angélica (2014), Luiz Mário Fernando (2015) e Mara Felipa (2016).
Em 2020 foi recebido como herói e eleito presidente do Morro do Alemão. Foi um dos delegados da convenção que elaborou a nova constituição boliviana e tentou em vão abolir a escravatura dos vascaínos. Escreveu numerosos ensaios, artigos e panfletos e seu livro mais conhecido e único foi o Livro de Merlin, publicada postumamente (2067). Faleceu em 19 de abril, Etiópia, e é homenageado com seu rosto na cédula de R$ 3,00.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Um conto de Natal

Chovia forte do lado de fora do bar, que naquela noite fora completamente decorado para as comemorações natalinas. Dois homens entraram se estranhando no recinto, vociferando alto um para o outro em tom de insulto. Madame Maria Ortiz, a dona do bar Mulsos para Moços, brandiu sua varinha de detrás do balcão em gesto repreendedor.
Com os nervos acalmados, os dois homens sentaram-se distantes e fizeram seus pedidos.
- Sempre a mesma estupidez. – disse um jovem, muito desgostoso com a situação que incomodara sua janta.
- Um dia eles conhecerão seu lugar. – disse em resposta um homem encapuzado ao lado do jovem.
- Não enquanto bruxos como Merlin insistirem em ensinar magia a esse humanos. – dizer essa última palavra parecia ter ardido a língua do jovem.
- Nessas horas fico feliz em não ser considerado humano. – disse o encapuzado enquanto tomava para si um drink cor de âmbar.
O jovem, de pele alva e cabelos enegrecidos, fuxicou o nariz levemente ao ouvir o encapuzado se pronunciar.
- Tudo ao seu tempo, Kricolas. – disse o jovem, retomando o assunto original – Existem outros bruxos que não estão tão satisfeitos em ter que partilhar suas riquezas com esses humanos.
- Temos o apoio de criaturas mágicas, certamente. – disse o encapuzado em meio a outro gole do líquido âmbar.
O jovem Donnovan desviou sua atenção do homem ao seu lado e voltou a olhar para a sua janta, que aquela altura já esfriara. Olhou para a janela e viu a chuva brigar com o vento. Tudo parecia desinteressante naquele momento. As pessoas no bar não se entreolhavam, era como se o espírito de natal não tivesse alcançado aquele lugar.
A maioria dos freqüentadores da Mulsos para Moços eram pessoas que não tinham companhia para essas ocasiões, ou não gostavam de comemorá-las, como Donnovan.
- E o seu pai? – perguntou o bruxo.
- Não sei por onde anda. Provavelmente se vendendo e não fazendo o que sua natureza ordena. Uma vergonha.
- Difícil acreditar que um dos maiores vampiros do mundo é aliado do tolo mago Merlin.
- Não me culpe por isso, por favor. – disse Kricolas.
- Poderíamos assassinar Merlin. – disse Donnovan com um certo vislumbre em seus olhos, como se pudesse imaginar perfeitamente a cena.
- É uma opção. Ou podemos matar aquele discípulo estúpido dele.
- Foster? – indagou o bruxo em meio a uma risada – Não entendo qual talento Merlin vê naquele fracote.
- Dizem que ele tem um Enid próprio. – comentou Kricolas.
- Está falando sério? – espantou-se Donnovan, um ar de indignação estampou-se em seu rosto, lividamente.
- Não se chateie por isso. Você ainda é o mais forte, sem dúvidas.
- Não eu não sou. Por mais difícil que seja dizer isso, Merlin ainda é mais poderoso do que eu. – como da primeira vez, parecia que a língua do jovem bruxo iria inflamar.
- Merlin é apenas um velho, meu senhor. Não há dúvidas de que seu poder será infinitamente maior que o dele em questão de tempo.
- Quão tempo? – indagou Donnovan, sacudindo a varinha no ar em gesto ameaçador.
- Você será uma lenda e quando isso acontecer, esses não mágicos cairão. Serão escravos ou sei lá qual o destino deles.
Donnovan permaneceu em seu silêncio, mas quase era possível ouvir seus pensamentos fantasiando com dias de glória, poder e total controle sobre a magia. Algo que ele fascinava e orgulhava-se. Há poucos dias ele soubera que possuía um Enid próprio, um indicativo de que ele era dono de grandes habilidades mágicas e capaz de grandes feitos.
- Desgraçado! – rugiu um dos homens que entrara no bar minutos antes.
O outro, que o acompanhara, reagiu do outro lado jogando no primeiro uma garrafa cheia de hidromel, que se espatifou ao atingir o balcão.
Madame Maria Ortiz veio correndo da cozinha ver o que acontecia em seu bar, mas desta vez nem mesmo sua varinha foi ameaçadora o suficiente para os dois briguentos.
Num ato impetuoso de fúria, Donnovan largou o resto de sua janta no balcão e ergueu a varinha para o homem que iniciara a nova confusão. Sibilou algumas palavras e um feixe de luz prata engalfinhou o humano, fazendo tombar e bater a cabeça com força em uma mesa próxima. Quando o sangue parecia jorrar pelo ouvido do sujeito, Madame Maria Ortiz horrorizou-se
- Por Merlin, você o matou?
Donnovan sorriu maliciosamente para a mulher e repetiu o gesto com a varinha, mas esta estava preparada para desviar do ataque. Os demais ocupantes do bar recolheram-se a um canto, amedrontados demais para qualquer outra reação.
Enquanto o jovem bruxo de cabelos negros abria caminho para fora do bar, ouviu-se um grito seguido por uma explosão. Quando Donnovan olhou de volta para o balcão, viu os traços de Kricolas arrastando para a chuva o corpo inerte e ensangüentado do outro humano briguento.
Numa última ação triunfante, Donnovan disparou um feitiço dentro do bar fazendo parte do teto ceder e, assim, saiu pela chuva para cumprir o seu destino que fora determinado naquela Natal.




segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Desejos e a fumaça

Era mais um dia entediante como qualquer outro. As mesmas pessoas na sala de aula, a mesma ladainha sobre cadeias de carbono, mitose e meiose, sujeito e predicado, trigonometria e mais blá, blá, blá...

Os minutos agradáveis conseguidos no intervalo já estavam longe do pensamento naqueles dez últimos minutos de aula em que os professores gostavam de tornar mortificantes o suficiente para derrubar o ânimo juvenil de qualquer estudante.

Os ponteiros do relógio na parede pareciam estar colados. Simplesmente não se moviam. Mas os ouvidos do garoto estavam bem atentos ao sinal da escola. Logo, logo ele tocará. Pensou, ansioso.

Era a última semana de aula antes das férias de julho, e logo, ele e os pais viajariam para o litoral. Nada como uma boa praia e uma água de coco para fazer esquecer todas aquelas regras e raízes quadradas que ele absorvera nos últimos meses.

Sete minutos...

O professor andava de um lado para o outro, esforçando-se para manter a atenção dos alunos, que já guardavam seus materiais escolares.

- Ainda temos mais alguns minutos. – alertou o professor, ao consultar o relógio na parede.

O garoto batia o pé embaixo da mesa. Os olhos já não conseguiam focar um único ponto e giravam nas órbitas como se fosse um prisioneiro desesperado por uma oportunidade de fuga. Mas ele sabia que a fuga logo chegaria... apenas mais cinco minutos.

Debruçando-se sobre a cadeira, o garoto decidiu fechar os olhos e pensar nos momentos agradáveis que estariam por vir. Assim, talvez, a ansiedade não fosse mais desesperadora e os cinco minuto finais da aula, conseqüentemente, menos mortificantes.

Não demorou mais do que o tempo de se abaixar. Após não obter da turma a resposta para o valor de π, o professor viu-se derrotado pela proximidade das férias e liberou os alunos.

A animosidade se viu refletida no barulho de carteiras se arrastando e no espreme-espreme provocado na hora de passar da sala para o corredor. Os alunos se acotovelavam nas escadas e corriam até o portão de saída. Ele, no entanto, estava mais tranqüilo depois de livre da sala de aula. Suas férias já se iniciavam do jeito que planejara. Tudo o que precisava agora era chegar em casa com tranqüilidade, almoçar, colocar seus últimos pertences na mala e cair na estrada com os pais...

Despediu-se dos colegas com um aceno, desejou-lhes boas férias e seguiu caminho assoviando uma música que passava em sua cabeça. Tinha um ritmo bem baiano; descontraído e risonho. Provavelmente era algum axé que ele ouvira numa rádio qualquer e já não se lembrava.

Sua escola ficava bem próxima a sua casa, apenas quatro quadras de distância. Era muito rápido o trajeto e durante ele, sempre via as mesmas pessoas. A sra. Salestiana, dona da padaria em que, costumeiramente, ele passava para comprar alguns doces antes da aula; o sr. Ronaldo, um caminhoneiro conhecido da região que passava o dia a revisar seu instrumento de trabalho e Pedrinho Tião, um pinguço que vivia a tropear pelo bairro cantando bossa nova e recitando versinhos românticos para as mulheres que por ali transitavam.

Apesar de ser totalmente inofensivo, o garoto não gostava de topar com Pedrinho Tião. Havia nele um quê de derrota que o incomodava, mas não sabia por que se sentia assim. Apenas sentia.

Naquele dia, porém, a padaria estava fechada e tanto o caminhão quanto o sr. Ronaldo não estavam na rua. Porém, ao longe, o garoto viu os pés caídos de Pedrinho Tião entre latas de lixo tombadas, bem em frente ao destino final.

Por que ele tinha que cair logo aí? Perguntou-se o garoto, muito enraivecido.

Meio que de soslaio, ele tentou dar a volta no bêbado para chegar até o portão e entrar sem ser notado, pois sabia que Pedrinho Tião faria um pequeno escândalo se fosse acordado.

Mas que droga! Bravejou o  garoto ao perceber que o homem estava escorado justamente no portão.

- Ei. Ei... – chamou – Acorda.

O bêbado, porém, não se mexeu. Ele não tinha muito mais que trinta anos, cabelos lisos, sujos e compridos até a altura do queixo, pele queimada pelo sol e enrugada pelos hábitos pouco saudáveis, trajava uma calça de brim bege que exalava um azedume de urina e fezes misturadas e uma camisa de botões que um dia fora branca.

A cabeça estava caída, quase encostando na própria barriga e não havia em nenhuma de suas duas mãos uma única garrafa de cerveja ou cachaça. O que era, de fato, estranho.

- Vou chamar a polícia. – ameaçou o garoto, cutucando o bêbado com o pé direito, mas, como da primeira vez, não obteve resposta.

Ele olhou pela rua buscando por alguma ajuda. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não naquele dia.

O garoto estendeu um braço até o interfone da casa e apertou o botão na esperança de que seus pais já estivessem em casa para acudi-lo. Quando fez-se o barulho do interfone saindo do gancho, produzindo os sons de dentro da casa, não houve uma voz, nem sussurro, ainda assim, o garoto respondeu.

- Cheguei!

A trinca estalou várias vezes quando alguém, dentro da casa, abriu o portão. Automaticamente, o peso de Pedrinho Tião empurrou o portão para dentro e, por conseguinte, o deixou estirado no chão, a cabeça virada de lado.

Dessa vez ele acorda. Pressupôs o garoto. Cedo demais.

Vendo que o bêbado não reagia, ele entrou em casa e foi espiar mais uma vez o homem. Uma onda de choque tomou-lhe por inteiro ao ver de perto, e pela primeira vez, o rosto de Pedrinho Tião. A garrafa que lhe faltava à mão estava enterrada em seu crânio, fora enfiada por baixo da mandíbula até o cérebro, mas, estranhamente não lhe escorria sangue.

- MÃE! – gritou o garoto em desespero, correndo para dentro da própria casa.

Tal seu desespero que somente notou que a porta da entrada fora explodida quando já estava saindo a caminho do segundo cômodo. Observou os demais móveis em volta e pareciam intactos. Saindo da sala e partindo para a cozinha, deparou-se com gavetas reviradas, pratos quebrados e a geladeira caída sobre a porta numa tentativa inútil de bloquear a passagem até a sala de jantar.

Seu bom senso parecia ter sido anestesiado assim que pisou dentro da casa. Em qualquer outra situação ele teria saído à rua gritando desesperadamente por socorro, mas aquela era a sua casa. A casa dos seus pais. Não havia o que temer.

Na sala de jantar, mais rastros de luta. Uma mesa de vidro quebrada, garrafas de vinho estilhaçadas, paredes queimadas e no alto da escada de acesso ao segundo andar um tremendo choque.

O garoto procurou evitar aquela visão pavorosa e angustiante. Seu pequeno poodle fora preso à parede com uma fava atravessada na garganta, manchando toda a área com seu sangue canino, que fora derramado numa tentativa valente de proteger o lar de seus donos.

- Ahhhh! – gritou uma mulher, no segundo andar.

Mais que depressa, o garoto rumou até a origem do grito, passando pelo cadáver do animal sem nem ao menos lhe dedicar atenção. Aquela era sua mãe e ela precisava de ajuda. Ao pé do segundo andar, ele localizou uma faca caída e a empunhou com valentia. Seu coração pulsando mais rápido do que jamais pulsara antes. O pensamento de férias calmas e tranqüilas no litoral já inexistentes e uma incrível saudade de trigonometria.

A porta do quarto de seus pais estava entreaberta e sombras indistintas eram projetadas pela luz que incidia pela janela e iluminava o quarto. Ele não soube se fora por valentia ou burrice, mas segundos depois estava escancarando a porta para dar de cara com a cena que marcaria para sempre a sua vida. Havia três ocupantes no quarto. Todos amontoados em cima da cama de casal ensangüentada. Um dos ocupantes estava caído de barriga para cima, os braços escapulindo pelas beiradas, os dedos ainda se mexiam por espasmo, mas o restante do corpo estava visivelmente morto. As vísceras expostas e rosto manchado de vermelho traziam a expressão de quem sofrera terrivelmente até chegar àquele estado.

O Segundo ocupante era monstruoso. Grande, forte, amarelado e nodoso. Um estranho par de asas rasgadas se armara ao ver o garoto. Ainda assim, essa súbita invasão não o impediu de dar um último mergulho no sangue que escorria do pescoço da mulher que ele segurava com tanta sede. Ela ainda estava viva quando viu o garoto entrar no quarto, mochila nas costas, faca na mão e a pior representação do medo.

- Cor-rre... – disse ela num último esforço, antes de se entregar com prazer à morte e cair por cima do corpo frio do marido.

Apavorado, o garoto deixou a faca cair no chão, por pouco ela não o perfura o pé. Descendo as escadas três ou quatro lances por vez, ele tropeçou na metade do caminho e bateu de cara com a parede, a testa latejou de dor após o contato, mas a adrenalina anestesiara aquele ferimento muito rapidamente.

Outra vez no primeiro andar, ele correu até a saída, saltando pela geladeira que obstruía o caminho. Quando pensou estar a salvo na sala de estar. O assassino de seus pais surgiu como fumaça em seu caminho. Só agora sua atenção pudera entrar em detalhes da criatura.

Ele possuía um focinho achatado como o de morcego, olhos injetados e uma fúria que transpirava de cada poro.

O garoto tornou a correr para dentro, desesperado por ajuda. Saltou uma terceira vez sobre a geladeira planejando pegar o telefone sem fio, retornar ao segundo andar e trancar-se no banheiro para fazer uma ligação.

Ele não soube explicar como, mas assim que se aproximou da mesa com o telefone, ela simplesmente explodiu à ordem do assassino.

Encurralado, o garoto olhou para a enorme janela de vidro que servia como fonte de iluminação de toda o ambiente e decidiu que aquela seria sua única salvação. Retirou a mochila das costas, colocou-a diante da cabeça para se proteger e se atirou contra o vidro.

Com a astúcia improvisada, ele se equilibrou e já quase alcançava o portão de saída quando o assassino usou de alguma força que ele não conhecia e o fez tropeçar. A mochila ficou de lado quando ele caiu por cima do corpo de Pedrinho Tião. A pressão do impacto fez a garrafa sair de dentro do crânio seguida por litros de sangue...

A estranhíssima criatura puxou o garoto pelo ombro e o encarou por alguns instantes. Aqueles olhos vermelhos vasculhando os olhos castanhos, como se estivessem tentando penetrar a mente e a alma. Mas o garoto já achava que sobrara pouco das duas coisas. Não havia nada em sua mente que não fosse tristeza, angústia, medo – muito medo, pavor, aflição e infelicidade infinita. E sua alma, ele sabia, estava assombrada por cada um desses péssimos sentimentos. Certamente já não era uma alma tranqüila que valesse a pena se roubar.

- O q-ue q-q-quer? – perguntou o garoto, que agora sentia aqueles dedos nodosos abraçarem tão fortemente sua garganta.

A resposta que ele recebeu do assassino foi uma pressão maior sendo exercida por aqueles dedos, as unhas afiadas rasgando-lhe a carne...

Sons sufocados do garoto se confundiam com a respiração ofegante do assassino, que agora sorria e parecia contente ao exibir suas longas presas vampírescas.

Pela mente do jovem Thalis Kinguest passavam as últimas imagens tranqüilas de seu dia. Como seria bom retornar para aquela última aula de sexta-feira antes das férias. Como os números eram amigáveis. Biologia nunca lhe pareceu tão interessante quanto agora. História seria extremamente excitante, se tivesse outra oportunidade.

Seu pavor era tamanho que sua mente estava eliminando qualquer pensamento negativo. Ele tentou relembrar dos pais no andar de cima da casa, mas já não podia. A pressão daqueles dedos repeliam suas memórias e ele só pensava em sua sobrevivência.

Enquanto o ar lhe faltava nos pulmões, ele imaginou-se respirando ar puro, uma outra vez. Sentiu seu corpo livre daquela pressão e longe daquele assassino. Ocorreu-lhe então uma floresta deserta, preenchida por árvores altas e espessas, abrigo de pássaros e outros animais. Queria sentir-se de novo entre pessoas como ele. Queria fazer novas amizades. E tão forte foi o seu querer, que seu corpo quase morto pareceu inflamar-se de desejo. Cada centímetro ardia como brasa, seus órgãos pareciam estar se afastando, e isso nada tinha a ver com o vampiro que ainda o segurava. Então, ele reabriu os olhos a tempo de ver a surpresa na face daquele monstro ao ver sua vítima desaparecer de suas garras deixando para trás apenas um rastro de fumaça.  

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Planos e avanços

Já se passara três dias desde que trancara-se dentro daquela pequena sala repleta de objetos estranhos, pontiagudos e barulhentos. A falta de notícias do mundo externo o incomodava um pouco, embora fosse difícil aceitar esse pensamento; de que algo o podia incomodar.

Seu servo saíra para uma caçada e não retornara, o que poderia ter acontecido? Descartou qualquer possibilidade de derrota. Seria vergonhoso demais. Improvável demais para se pensar naquilo. Ele era asqueroso o suficiente para afastar qualquer curioso, forte o suficiente para encarar qualquer inimigo e perigoso o suficiente para matar qualquer um que se metesse em seu caminho.

Os três dias que se passaram foram seguidos de planos e revisões de planos. Ele não era um homem que se deixava guiar pelo acaso. Ele planejara tudo. Planejara seu próximo passo como quem planeja uma vida inteira, mas não queria compartilhar tais informações com qualquer um que fosse. Ele precisava garantir-se de que daria certo.

Largando um amontoado de pergaminhos em cima de uma mesa, ele levantou-se de sua cadeira de peroba polida e caminhou até uma estante de pedra desalinhada, onde se encontravam vários pequenos objetos, como um guarda-volumes. Dentre esses objetos, ele selecionou um pequeno relógio de bolso muito brilhante. Abriu-o e checou as horas, parecia não ter acreditado, pois retornou a checar e depois conferiu com um segundo relógio pendurado à parede.

Está atrasado. Pensou, mas não era ao relógio a quem ele se referia.

Andou vagamente pelo quarto a espera de algum sinal estranho. Reviu seu plano infalível mentalmente e consentiu consigo mesmo. Não havia como falhar. Nada que fosse feito pelo outro poderia atrapalhar suas ambições. Já descartara qualquer intervenção do velho, que àquela altura já tivera sua influência oxidada no meio mágico. Após a terrível demonstração de fúria em Cidade dos Elfos, todos os que resistiam por acreditarem no ideal daquele velho bruxo já não estavam mais tão certos de sua sanidade.

Pelo que ele soubera, antes de se enclausurar, Merlin descera de seu imponente castelo bravejando impropérios, mais para si do que para outros, e mutilou um livro em praça pública, em seguida acolheu-se no pomar da cidade.

Retornando sua atenção para o cômodo em que estava, o homem voltou a andar em círculos, sua longa capa arrastando-se e o barulho de suas botas fazendo o chão de madeira ranger sinistramente, como se fantasmas assombrassem o ambiente.

Onde está? Pensou, uma ânsia dominando-lhe os sentidos.

Ele não queria explodir sua cólera naquele instante. Estava prestes a fazer isso, mas não seria a toa. Logo estaria de frente com seu inimigo e poderia fazer dele o que quisesse... aí sim, valeria a pena externar toda aquela ânsia, aquela frustração de ter que se confinar por três dias, quando, na realidade, precisava estar a céu aberto, matando, torturando e avançando com seus planos de dominação.

Ouviu-se um toc toc quando o homem já experimentava sentar-se novamente em sua cadeira de peroba polida. Sem demonstrar a ânsia que sentira a pouco, aproximou sua mão da maçaneta logo mais a frente e com um giro e um puxão, abriu a porta. Um corpanzil encapuzado apareceu ao batente, completamente molhado.

- E então? – perguntou ao servo – O que houve?

- Quinze, meu senhor. Entre eles Aleixo e Mordento... infelizmente.

O homem de capa longa crispou os lábios ao saber da morte de seus aliados, mas pareceu não se importar e prosseguiu:

- Foi a mulher, não foi?

- Sim, meu senhor. Ela estava do lado deles o tempo inteiro.

- O que mais? – inquiriu.

O servo retirou seu capuz empapado de água e jogou-o numa cadeira vazia, fechando a porta atrás de si em seguida.

- Schimedel. Pegamos a Schimidel, mas não obtivemos muito mais do que já tínhamos com ela. Então a matamos. – informou o dedicado servo. A pele naturalmente enrugada estava ainda mais cavada, resultado das batalhas e dos dias sem descanso – Todos esperam pelo seu plano, meu senhor. Estão todos em posição neste exato momento.

Donnovan caminhou com sua capa longa pelo ambiente avaliando as notícias. Certamente perder quinze de seus seguidores não estava em seus planos, mas muitos outros iriam substituir esses mortos assim que seu plano fosse executado com perfeição.

- Kricolas, e quanto a Foster? – perguntou Donnovan, como se esperasse por aquela resposta desde o momento em que fitara o servo a sua porta.

­­- Foragido, agora. Após duelarmos na região sul do país, mas ele esfumaçou antes que algum feitiço potencialmente letal o atingisse. – fez uma pausa, pensativo – Seria algo maravilhoso se algo assim existisse de fato, não? Um feitiço letal.

- Tenho certeza que algo assim é possível. E após o plano tratarei de descobrir. – comentou Donnovan, pensativo.

- O Livro de Merlin? – arriscou Kricolas, intimidado.

Donnovan assentiu que sim, mas não queria mais tocar no assunto, guardava suas certezas para si, e só para si. Se um poder tão grandioso assim realmente existisse, somente ele seria digno de possuí-lo.

- Meu senhor... – suplicou Kricolas por mais algumas palavras, mas este o ignorou.

Andou novamente até a estante de pedra, alisou os cabelos negros com as mãos firmes, e retirou do móvel o pequeno relógio de bolso, checou as horas uma outra vez e o guardou em suas vestes.

- Está na hora. – alertou – Hora de matar tudo aquilo em que as pessoas acreditam.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O dia em que ele se foi

Ela estava impaciente àquele dia. Já fizera seis semanas desde que se mudara para aquela terra distante. Distante das batalhas sangrentas que eram travadas na lendária ilha de Hi Brazil. Queria poder estar lá, como queria...

Sentia que a pequena cabana improvisada que construíra no dia de sua chegada era um cômodo cárcere, porém, a verdade que doía em seu peito é a de que seu coração, pulsante e raivoso, era a pior de todas as celas.

Após os quatro primeiros dias, ela percebeu que seus prantos já não mais seriam atendidos, que não haveria quem enxugasse suas lágrimas e que a colocasse no colo para ampará-la. Decidiu estocar cada lágrima que ainda lhe restava para quando fosse feliz. Mesmo que isso lhe parecesse uma idéia muito vaga.

Na terceira semana, decidiu que seria seguro sair para olhar o sol e à noite, a lua. Sentir o vento tocar a cútis seca, sem brilho e envelhecida pela preocupação. Rugas se formavam naquele rosto jovem que não havia muito, irradiava extrema beleza. Os cabelos longos e enegrecidos caídos nas costas, agora pareciam chumaços de palha amontoados na cabeça. As roupas sempre tão limpas e cheirosas tinham um aspecto rústico após dias de solidão.

Não parecia haver magia que consertasse todos aqueles problemas, aquelas deformações. Não enquanto estivesse enclausurada. Não enquanto fosse prisioneira do seus sentimentos. Da sua culpa.

Quinze para meia-noite, avisava o pequeno relógio de madeira pendurado à parede. Ela começava a se misturar aos lençóis da própria cama, apalpando um travesseiro extra que substituía alguém ausente.

CLAC!

O coração dela pulsou forte ao ouvir aquele som familiar. De um só salto pôs-se de pé, a varinha em riste. Só uma pessoa sabia exatamente onde ela estava, e por mais que seu coração pedisse por esperanças, ela já as perdera ao longo das últimas seis semanas. Não teria motivos para ele ir até ela. Teria?

- Está aí? – perguntou uma voz masculina, do lado de fora, que a fez tremer encima dos joelhos.

- O q-q-que f-faz a-a-aqui? – perguntou ela, a voz falhando pela falta de uso.

- Aconteceu alguma? Parece assustada. Deixe-me entrar.

Reagiu por impulso, como se aquele “Deixe-me entrar” fosse, de fato, uma ordem.

Vaidosa, ela ainda tentou ajeitar os cabelos ressecados com algum feitiço conhecido, mas a emoção a impedira de fazer um bom trabalho.

- Não é porque está foragida que precisa se aparentar tão mal. – disse o homem sardonicamente.

Sem outra reação, ela jogou-se para cima do amado e tocou suas costas com um longo abraço, querendo dar mais valor aqueles segundos de amor do que as seis semanas de esquecimento.

- Senti sua falta. – disse ela, finalmente.

- É claro que eu senti também. – comentou ele, sua voz sincera, porém comedida – Como vocês passaram esses últimos dias?

Ela não queria falar dela mesma. Tivera tempo o suficiente para saber que a dor que sentira não era digna de lembrança ou comentários. Queria notícias.

- Por onde vocês estiveram? Não recebi uma notícia se quer.

- Estivemos lutando, claro. – respondeu ele, ainda curioso, analisando a mulher a sua frente – Desde a sua partida, as pessoas têm resistido mais.

- É verdade? – inquiriu, enquanto puxava cadeiras para os dois se sentarem próximos à mesa.

- Por certo. Eles entenderam de que lado você está e agora estão resistindo.

- Mas isso me custou a liberdade. – lamentou.

- Fiz bem em te mandar para cá. Não seria seguro você permanecer por lá. Não depois de ter abatido Aleixo e Mordento. Dizem que os dois eram os mais fiéis e antigos seguidores dele.

- Eu juro que não queria matá-los... juro. Mas não poderia permitir que ele se aproximasse de mim, não agora. – falou ela encarando, resignada, o pequeno quarto aonde dormia.

- Gostaria de poder estar presente. – lamentou o homem, encarando os próprios pés.

- Você tem o seu outro, não tem? Faça dele alguém feliz.

- Não diga essas coisas, por favor... – pediu o homem, levantando-se.

Ela sentiu que uma lágrima lhe escaparia, lembrou-se de sua promessa e a segurou com todas as forças.

- Você acha que ele ainda virá atrás de mim? – desviou o assunto.

- Já o teria feito se realmente quisesse. – tranqüilizou-a – Ele anda muito ocupado chefiando seu exército de criaturas mágicas.

- Ainda usam aquelas criaturas?

Por algum motivo ele soube exatamente do que ela falava.

- Sim. Pegaram Alicia Schimidel na semana passada. Todos lamentamos a morte dela.

- Não gosto daqueles olhos azuis perfurando a minha alma... eles realmente paralisam.

Ele deu mais algumas voltas pela pequena sala improvisada analisando o ambiente. Sacou a varinha e saiu realizando feitiços para consertar objetos quebrados e conjurar novos.

- Sua proteção tem servido bem. Ninguém pareceu tentar perfurá-la.

Ele sorriu vaidosamente.

- Enquanto eu viver, você estará segura aqui. E quando eu morrer... – fez uma pequena pausa – não haverá motivos para se esconder.

Quer fosse por gratidão, pena ou desespero comedido, ela sorriu.

- Posso dar uma olhada nela antes de ir?

- Claro... – respondeu a mulher, guiando-o para o pequeno quarto.

Logo ao lado da cama onde a pouco a mulher estivera deitada, estava um pequeno berço torto de madeira, coberto por um véu negro.

- Não tem me dado o menor trabalho. – disse ela erguendo o véu e revelando uma pequena criança com pouco mais de um ano de idade, dormindo em sono profundo, distante dos acontecimentos.

- Sinto tanto por não estar presente... – lamentou ele, com uma sinceridade marcante.

- Cuide do seu outro filho. Garner. Não foi esse o nome que o deram?

- Sim. – respondeu – Garner Foster, é o nome dele.

- Antes de ir... – disse ela se aproximando de uma cômoda e retirando de lá um objeto – Quero que leve isso.

- O que é?

Ela se aproximou do amado e colou nele um pequeno colar.

- Para lhe trazer sorte nas batalhas. – após isso deu-lhe um curto beijo.

- Eu te amo, Morgana.

- Também te amo, Foster.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desenho do Castelo de Avalon


Não sei quanto a curiosidade de vocês, mas resolvi postar um desenho muuuiiittooo antigo do castelo de Avalon que eu fiz. Dei uma pintada básica no photoshop só para ilustrar, mas é mais ou menos essa a idéia da escola de Kal Foster.


Abraços

sábado, 21 de junho de 2008

Lista de Feitiços do primeiro livro

Edjipto – feitiço de limpeza.

Sendart – dobra um pedaço de papel em formato de avião e o envia para alguém.

Pedrusco – conjura uma pedra.

Scringer Secret Schoupan – versão poderosa do Opandor.

Bolhasradiant – cria bolhas de luz.

Guives – interrompe o Bolhasradiant e espoca as bolhas que já saíram.

Levitoriano – faz objetos flutuarem.

Concertûnia – repara objetos.

Lonvy (maldição das fadas) – deixa a pessoa sem senso de direção.

Fículous (maldição das fadas) – impede que a fada minta quando está sozinha.

Planta Exander – faz a planta adormecer.

Lumier – ilumina a planta.

Farfalha – atira estilhaços no inimigo.

Escaparta – dispara um filete azul.

Amstãnder – um raio elétrico.

Mórfinus – faz a pessoa dormir.

Opandor – abre trancas.

Eixo – fecha trancas.

Efesto – fogo

Inflamiun – fogo 2

Sedructos – maldição da morte

Morgora Nãltis – feitiço da morte

Dracóvia – oposto ao Lumier.

Horbário Obedientis – invoca a Herviana.

Obéverno – feitiço de transformação.

Griamen – revitalizar.

Cefalotúrgia – transforma cabeças em balões.

Corparo – revitalizar.

Réplica – repele ataque.

Dunkel – maldição da transfiguração.

Linglesingle – maldição da voz cantarolante.

Fétida – fumaça marrom fedorenta.

Revelarbus – invoca o Enid.

Lócus Amenus – cancela qualquer feitiço.

Pelínculo – feitiço sinalizador.

Morgáide – feitiço do clima.

Ediagrom – contra-feitiço do clima.

Aprumus – feitiço usado por Kal e CIA durante “O desafio do Amaldiçoado”.

Perpétuo – Feitiço que gera uma grande força com a destruição do Enid

domingo, 4 de maio de 2008

Capítulo 2 - A casa Foster

Araçá era um pequeno bairro residencial de Anomatí, uma cidade no interior do sul do Brasil. No interior do bairro, a Rua Guaçuí se estendia de uma pequena praça com brinquedos até um sobrado que tinha em seu quintal uma lagoa de águas esverdeadas. As casas tinham formas e tamanhos variados, algumas com apenas o andar térreo e outras que chegavam até o terceiro andar. Todos os dias de manhã, os moradores da levantavam-se bem cedo, abriam suas portas e janelas, colocavam seus carros modernos para fora, levantando uma massa cinzenta de fumaça que empestava toda a rua. Depois de feito este ritual diário, eles enfurnavam-se em ternos ou vestidos longos, enfiavam-se nos carros e saiam para o trabalho no centro da cidade.

Em quase todas as casas esta era a rotina. Mas não na casa número vinte e dois.

Os moradores da Rua Guaçuí ainda tentavam se acostumar com o estilo de vida dos novos vizinhos. As três crianças raramente saiam do quintal da casa que era cercado com um muro alto e bem gradeado. A mãe delas não trocava palavras com os vizinhos, eles nem ao menos sabiam exatamente o seu nome e porque haviam se mudado para aquele bairro tão isolado.

No dia da mudança, alguns deles se ofereceram para ajudar a carregar umas caixas pesadas, já que seria impossível três crianças e uma mulher levantá-las sozinhas, mesmo assim, relutante, a mulher agradeceu e dispensou toda a ajuda.

- Mal educada. – disseram eles.

Após um dia inteiro de entra e sai de caixas, a nova família trancou a porta da frente e fechou as cortinas dos dois andares da casa, que não era tão grande, mas suficiente para abrigar as quatro pessoas. O jardim havia sido decorado com pequenos anões, que segundo souberam os vizinhos, haviam sido um presente de uma amiga da região do Amazonas, e algumas margaridas e tulipas que estranhamente os moradores da casa queixavam-se porque elas não estavam se movendo. Sem dúvida alguma era a família mais esquisita que já residira em Araçá.

Talvez, a única casa que pudesse se igualar aos vizinhos do número vinte e dois fosse a da velha senhora que residia no número dezessete. Enquanto todos os moradores de Rua Guaçuí expunham-se em público para conversar, a senhora de cabelos brancos e de pele flácida, fazia de sua casa sua grande fortaleza anti-social.

No segundo dia da mudança, os Almeida, moradores do número vinte e um, levaram um bolo de boas vindas aos novos vizinhos, um menino de cabelos e olhos castanhos colocou o rosto para fora do portão, estendeu um dos braços para receber o presente, agradeceu rapidamente e em seguida trancou o portão sem nem mais uma palavra.

- Que gente esquisita. – disseram.

No terceiro fim de semana desde a chegada da família ao bairro, eles receberam sua primeira visita. Um velho senhor de olhos bem azuis, com a cabeça quase careca, porém com algumas tranças desalinhadas que lhe batiam abaixo dos ombros e uma barba quase tão longa que seria possível amarra-la ao cinto que segurava sua calça marrom lama.

- Bom dia. – cumprimentava ele aos moradores que lhe encaravam curiosos.

Certamente se poderia haver tipo mais esquisito de pessoa que os moradores do número vinte e dois, com toda certeza seria este estranho senhor.

- Bom... bom dia... – responderam alguns somente por educação.

O velhote seguiu rua acima até chegar ao portão, então chamou pela dona da casa.

- Sra. Foster!

Como se estivesse esperando pela visita, a mulher, imediatamente, colocou o rosto na janela e disse:

- Oh, bom dia Prof. Cacius. Queira entrar, por favor.

A trava elétrica do portão estalou e este imediatamente se abriu para receber o visitante. O homem sorriu e deu bom dia para os anões de jardins enquanto caminhava em direção à pequena varanda de entrada. No meio do caminho, Cacius foi surpreendido por um gato de pelo laranja e estranhamente o homem respondeu.

- Bom dia, Fred.

Os moradores olharam-se curiosos e então sacudiram a cabeça e foram para seus lares certos de que já haviam visto de tudo.

Alexia Almeida pegou sua vassoura de piaçava e saiu sacudindo até a porta de entrada de sua casa para espantar os pombos que se alimentavam de migalhas de pão caídas pela calçada.

- Malditas aves! Malditas aves! – resmungou.

- Esta rua está parecendo um zoológico! – resmungou junto seu marido.

Era verdade. Após a mudança da família Foster, a Rua Guaçuí recebeu um considerável contingente de animais que passaram a perturbar toda a vizinhança. Eram pombos em todas as calçadas, cachorros latindo e uivando, gatos que andavam pelos telhados à noite e ratos que percorriam todas as casas, atravessando cozinhas e salas a qualquer hora do dia como se nada os incomodasse.

Os únicos simpatizantes da família Foster eram, ironicamente, seus vizinhos mais distantes, os Chiabai. O casal Mara e Alexandre e sua filha de treze anos, Sara, haviam indicado aos Foster onde era a sua nova casa assim que chegaram ao bairro. Naquele mesmo dia, Amanda havia feito um convite para que, num sábado, eles fossem almoçar em sua recém inaugurada casa. Passaram-se dois finais de semana e os Chiabai ainda não tinham se apresentado para o tal almoço, mas, ao que parecia, os próprios Foster também haviam esquecido, ou não se importado.

Ao término do primeiro mês, os vizinhos começaram a reclamar que as lâmpadas dos postes não duravam mais do que uma noite sem queimarem. E a companhia de luz passou a ter que trocá-las quase que diariamente. Certa vez, um vigia foi contratado para descobrir quem estava queimando as lâmpadas, ele passou a noite inteira perambulando pela rua para apanhar o vândalo, mas ao invés disto, surpreendeu-se ao ver que a casa dos Foster parecia abrigar uma boate. Luzes coloridas piscavam por todos os cômodos da casa e barulhos estranhos como chicotadas e tambores ruíam pelo jardim. O vigia estava estático olhando aquela cena, pensou em tocar a campainha e perguntar se estava tudo bem por lá.

No momento em que se decidiu por fazer isso, as luzes da rua começaram a piscar freneticamente atraindo a atenção do homem que deixou os braços caírem sobre as pernas e a boca abriu-se quase que automaticamente. Foi um piscar incessante até que finalmente todas as luzes se apagaram de uma só vez, deixando a Rua Guaçuí completamente mergulhada em sombras.

Na manhã seguinte, mais uma vez, a companhia de luz e energia veio fazer a troca das lâmpadas, no momento em que o velho homem de tranças atravessava a rua, a pé, para visitar mais uma vez a família Foster.

- Bom dia, senhor. – cumprimentou Alexia Almeida que já se acostumara com a figura do visitante.

- Bom dia, senhora. – disse gentilmente – Sabe me dizer se a sra. Foster está em casa hoje?

- Com certeza sim. – respondeu a mulher – Ninguém sai daquela casa, senhor.

- Eles sofreram muito nestes últimos meses...

- Como assim? – perguntou a mulher debruçando-se sobre o seu muro.

- Outra hora, talvez. – falou ele sorrindo.

- Tenha um bom dia.

- Igualmente.

Cacius atravessou a rua em direção ao número vinte dois que, para sua surpresa, encontrou o portão destrancado.

- Estou entrando. – anunciou – Bom dia! – disse para os anões, como era de costume fazer.

- Oh, estávamos esperando pelo senhor, Prof. Cacius. – disse Amanda, que surgira em uma das janelas da frente – Fiz uns bolinhos.

- Fico grato. E os meninos? Como estão?

- Superando, eu diria. Kalevi sentiu mais com a perda, mas acho que ele consegue.

- Tenho certeza. Tenho certeza. Você tem filhos muito corajosos.

Amanda permitiu-se um pequeno sorriso de orgulho, mas ainda assim não parecia muito contente.

- Professor, o que está acontecendo no mundo... no mundo...

- No mundo mágico? – completou Cacius olhando em volta – Acho que ninguém pode nos ouvir aí dentro.

- Certo. – concordou ela acompanhando o professor até a entrada da casa através da pequena varanda – Mas o que está havendo lá? Os guardas sumiram. Não há mais pombos, gatos, cachorros ou ratos. Ninguém está vigiando a rua. Estou com medo.

- Não há com o que se preocupar. – falou Cacius já fora do alcance de ouvidos curiosos – Bem, eu posso oferecer proteção em quanto eles não voltam.

- Mas por que eles foram embora então? O Governo desistiu de nos proteger?

- Não exatamente sra. Foster...

- Mamãe quem est...

- Olá, Kal. Há quanto tempo. – saudou Cacius.

- Olá, professor. – cumprimentou secamente – Desculpe, agora tenho que ir.

O garoto saiu pela porta da frente correndo em direção à rua, sua mãe em seus calcanhares.

- Não vá longe, Kalevi Foster!

- Deixe-o. Tenho certeza de que estará seguro...

Esta foi a última frase de Cacius que Kal pôde ouvir. O garoto vazou pelo portão de entrada e desceu a rua em direção à praça, sem destino exato. A companhia de luz ainda estava fazendo o serviço de troca das lâmpadas e alguns moradores estavam acompanhando o trabalho dos operários e conversando.

Kal passou por eles sem ao menos notá-los, mas eles repararam bem o menino. Era a primeira vez que um dos Foster colocava os pés fora de casa, e este parecia estar afoito para fazer isto, porque correu loucamente como se tivesse ganhado a liberdade de uma prisão. Kal Foster estava com um jeans desbotado e uma camisa de manga cumprida um pouco mais larga do que deveria ser. Aparentemente sua mãe havia se distraído na compra e escolhera uma um número maior.

- Você ouviu a sua mãe! Não vá muito longe! – disse Alexia quase que correndo atrás dele como uma dama de companhia que fora largada para trás.

- Não use a varinha, não use a varinha... – falou entre os dentes de modo que ninguém pudesse ouvi-lo.

Kal não estava se acostumando muito bem ao novo estilo de vida que lhe fora imposto. Não usar a varinha durante o dia, não poder brincar de duelo com Daimon e Guinevere, enfim, não fazer nada para chamar a atenção dos outros moradores. Nestas horas, Kal sentia saudades dos resmungos e implicâncias dos moradores de Vila da Cachoeira, pelo menos, lá, ele poderia agir de maneira natural.

Em Avalon, a escola de magia que Kal estudara no ano anterior, ele havia aprendido diversos feitiços, os quais planejava colocar em prática assim que retornasse para casa. Mas isto agora parecia impraticável. Sua nova casa estava cercada de guardas de Warren muito bem disfarçados de animais e sua mãe não abria uma brecha para diversão. Mas naquela manhã, Kal Foster havia planejado tudo muito bem. Assim que ouvisse Cacius chegar em sua casa para conversar com Amanda, ele passaria pelos dois em disparada e sairia, finalmente, do número vinte e dois.

A praça no final da rua não tinha muito mais que alguns canteiros de flores, algumas gramíneas e um pequeno playground com escorregador e balanço. O lugar estava deserto àquela hora do dia, ao que parecia, não havia muitas crianças na Rua Guaçuí e os adultos que não estavam trabalhando estavam observando o interessante trocar de lâmpadas.

Kal aproximou-se de um dos balanços e sentou-se. Ficou a olhar para a praça à procura de algo móvel com que pudesse se distrair, mas não encontrou nem mesmo uma formiga. Mas para sua surpresa ele ouviu atrás de si uma voz feminina e aveludada que desconcertou seus pensamentos.

- Olá.

Kal virou-se para examinar quem seria e contemplou aquele rosto de pele clara e cabelos bem enegrecidos e alisados, lábios rosados, nariz fino e olhos verde vivo. Ele sentiu que conhecia a garota, mas em sua mente ela o lembrava uma garota por quem se apaixonara em Avalon, Emanuela Goldemberg, no entanto Emanuela era loira e tinha os olhos bem azuis.

- Olá... – respondeu ele timidamente.

- Posso me sentar? – perguntou ela segurando um balanço ao lado de Kal.

- Claro.

- O que está fazendo aqui?

Ele olhou para as pessoas da companhia de luz, deu uma pequena risada e voltou à garota.

- Não acho um passatempo divertido assistir a troca de lâmpadas. – comentou.

A garota deu sorrisinho e então disse.

- Qual o seu nome?

- Kalevi Foster. – a garota eriçou as sobrancelhas, talvez assustada com a espontaneidade que ele demonstrara ao dizer o nome por completo – E o seu? – perguntou tentando se redimir.

- Sara. Sara Chiabai, já que você gosta assim.

Agora era a vez de Kal levantar às sobrancelhas incomodado com alguma coisa.

- Vocês nos mostraram nossa casa assim que chegamos na rua, não foi?

- Exatamente. Mas só não entendemos como não sabiam onde era a própria casa. Quero dizer... as pessoas olham as casas antes de comprá-las, não é?

- É que... é que... foi uma herança.

- Ah... e vocês moravam onde?

- Morávamos no Centro-Oeste do país.

- Goiás, Mato Grosso...?

- Pode ser... – disse Kal sem saber na verdade qual era o estado em que morava. Os bruxos não ligavam muito para a geografia dos humanos não mágicos.

Sara permaneceu curiosa, mas decidiu não perguntar mais nada sobre a antiga casa de Kal.

- Você mora aqui há muito tempo? – perguntou.

- Sim. Meus pais trabalham no centro da cidade e eu estudo no colégio do bairro. A propósito, você vai se matricular aonde?

- Hã... é...

- Ainda não decidiram?

- Acho que vou permanecer na minha antiga escola.

- Na Região Centro-Oeste?

- Não. Ela fica no Amazonas. No meio da... – Kal ponderou sobre o que ia dizer, estava se expondo demais, por um triz ele não dissera que sua escola ficava no meio da Floresta Amazônica, sobre uma nuvem, acima de uma cidade cheia de elfos, fadas e outras criaturas mágicas – No meio da capital.

- Oh sim... – disse ela achando que Kal tinha algum tipo de problema – Você tem irmãos não tem?

- Sim. Na verdade apenas o Daimon é meu irmão. Guinevere mora com a gente desde que os pais dela morreram, já faz um bom tempo isto.

- Vocês não gostam muito de se expor, não é?

- Aconteceram muitas coisas...

- Que coisas?

- Coisas difíceis de explicar... perdas, na verdade.

- Desculpe. – falou ela percebendo que estava entrando em um assunto delicado.

- Ainda estamos superando...

Sara permaneceu em silêncio, seu estoque de perguntas pareceu ter acabado após descobrir que os Foster estavam passando por um problema familiar um pouco mais grave do que as pessoas da rua comentavam.

- Coisas estranhas têm acontecido, não é? – disse ele.

- Defina estranho.

- Lâmpadas queimando, animais por toda à parte... a rua é sempre tão animada? – fingiu.

- Na verdade. – falou ela, pausadamente – Essas coisas começaram a acontecer depois que vocês se mudaram.

- Sério? – perguntou ele quase que convencido de que não sabia de nada a respeito.

- É o que as pessoas comentam.

- Incluindo você e seus pais?

- Não. Não nos intrometemos na vida das pessoas. Mas existem algumas pessoas por aqui que gostam de se preocupar com os outros. Bom dia, dona Alexia! – cumprimentou à mulher que disfarçadamente varria a calçada da esquina da rua – A frente já foi varrida hoje senhora!

- O que ela está fazendo ali? Aquela não é a sua casa? – perguntou Kal.

- Exatamente. Dona Alexia tem o péssimo hábito de ouvir a conversa alheia.

- Acho que entendo. – falou ele.

Neste momento Kal observou que Cacius saia de sua casa e começava a caminhar pela rua. Ele não sabia ao certo como o diretor chegava à Anomatí.

Talvez ele esfumace em um beco ou banheiro público. Pensou.

Kal observou Cacius descer a rua, pensou que talvez o professor iria até ele assim que passasse pela praça e imediatamente Kal planejou continuar a conversa com Sara para que pudesse disfarçar e fingir que não o notara. Kal Foster não estava com raiva ou rancor de Cacius. Os dois deram-se muito bem no ano anterior, na verdade. Cacius agira mais como um bom amigo do que como um professor, em Avalon, ele aconselhou e apoiou o garoto em situações difíceis e após a morte de seu pai, Adonis Foster, Cacius contara a Kal alguns segredos sobre Kricolas e o Livro de Merlin. Tornara-o seu confidente. Mesmo assim ele ainda sentia-se magoado porque Cacius aparecera minutos depois de Kricolas ter matado Adonis. Ele imaginava que se o professor tivesse aparecido mais cedo, talvez, os Foster ainda estivessem juntos em Vila da Cachoeira e não tivessem que se esconder tanto das forças malignas do meio-vampiro.

- Desculpe-me por eu estar fazendo outra pergunta, não quero que pense que sou como a Alexia. Mas quem é aquele senhor que vai até a sua casa todos os fins de semana?

- Um amigo da família. – respondeu Kal sorrindo.

- Ele parece ser uma boa pessoa. Parece ser um senhor calmo.

- Às vezes até demais. – falou Kal lembrando-se do ar sereno que Cacius mantinha em todas as ocasiões, por mais sérias e desesperadoras que sejam.

- Olhe, ele está conversando com os moradores.

Kal olhou para Cacius de imediato. Sara estava correta. O bruxo mais respeitado do Brasil, e provavelmente o melhor, estava parado diante um poste de luz a observar o serviço dos operários, como faziam os demais ao redor. Kal percebeu que se quisesse evitar Cacius aquela era a melhor hora de voltar para casa. Passaria despercebido pelo professor, que aparentava estar muito distraído e interessado pela curiosa técnica de se trocar lâmpadas de poste.

- Desculpe, Sara. – falou Kal olhando fixamente para a garota – Tenho que ir para casa.

- Tudo bem. – respondeu satisfeita – Vejo você depois?

- Ah... ah claro. – falou ele embaralhado – Você e seus pais ainda nos devem uma visita.

- Apareceremos em breve. – falou ela sem muita confiança no que dizia.

- Por que não vão jantar lá hoje? – sugeriu Kal sem nem ao menos pensar. Ele só percebera o que disse depois de as palavras já terem escapulido de sua língua.

- Sua mãe sabe deste convite? – perguntou ela.

- Oh, claro. Claro que sim. Na verdade eu vim justamente fazer o convite a vocês, mas vi que não tinha ninguém em casa e resolvi esperar aqui. – mentiu. Percebendo estar ficando bom em fazer isto.

- Tudo bem então. Vou dizer aos meus pais assim que eles chegarem do almoço.

- Se quiser... Pode levar alguém que seja especial para você também... – falou ele investigando.

- Oh, acho que... acho que não tenho ninguém em especial...

- Ok. Vejo você mais tarde então. É... então é isso. Até mais.

Kal virou o rosto antes mesmo que começasse a ficar vermelho, tinha certeza de que ela o acharia um idiota se isto acontecesse. Ele quis correr, mas também achou que os garotos não correm quando se despedem de uma garota. Ainda mais uma garota por quem se está desenvolvendo uma amizade.

Amizade, decididamente é isto. Disse Kal mentalmente.

Ele seguiu caminho com passos apertados, em certos momentos achou que iria tropeçar, mas, finalmente, conseguiu sair da praça e passar por Cacius, que estava tão entretido com o processo de troca das lâmpadas que nem ao menos o notou, ou pelo menos fingiu não ter notado.

Em casa, Amanda estava na cozinha sendo ajudada por Guinevere a fazer o almoço, uma das duas, Kal não distinguiu qual – a voz delas eram muito parecidas –, queixou-se de que não usar magia atrasava muito o serviço. Daimon estava na sala tentando ligar a televisão, que por vezes dera problema, assim como todos os eletrodomésticos da casa. Em sua primeira visita aos Foster, Cacius dissera que eles sofreriam com um problema chamado de radioestesia, que era causado quando há muita magia em determinado ambiente, tudo que utiliza energia elétrica sofre forte interferência mágica e entra em curto circuito. Este era o motivo real para as lâmpadas dos postes estarem queimando todas as noites. A magia irradiada pela casa deles gerava uma forte interferência nos postes que piscavam até que finalmente queimassem. Cacius explicou os eletrodomésticos funcionavam como copos de água cheios até a borda. E que utilizar magia perto destes objetos seria o equivalente a colocar mais água no copo. Quando ele transborda significa que o aparelho entrou em curto.

A nova casa dos Foster não era nem um pouco parecida com a mansão em que estavam acostumados a morar, onde Kal nasceu, literalmente dizendo, e onde passou sua turbulenta infância. Ao entrar na sala pela varanda da frente, chegava-se à sala, virando para a esquerda estavam a cozinha e copa, de onde Amanda e Guinevere estavam, e atravessando a sala passando ao lado da escada para o segundo andar estava um confortável banheiro. No segundo andar havia três quartos e um corredor. A casa era pintada de branca e o piso de alvenaria da mesma cor, que Amanda fazia questão de manter sempre limpo, mesmo que nunca ninguém o sujasse, ela insistia em limpá-lo, talvez para passar o tempo.

- Mamãe, temos visita para o jantar. – disse Kal enquanto subia as escadas para o segundo andar.

- Como assim? – perguntou ela vindo com um pano de prato enxugando as mãos.

Kal olhou para os lados, Daimon levantara-se do sofá e parou para fixar o olhar em Kal, assim como Guinevere fez em seguida.

- Os Chiabai, lembra?

- Kalevi, você deveria ter me consultado primeiro. Não sei se podemos recebê-los agora...

- Eu acho uma ótima idéia. – disse Cacius que acabara de abrir a porta.

- Professor... o senhor tem... certeza?

- Sim, por que não sra. Foster?

- Não sei, talvez não seja prudente... acho que não nos acostumamos muito bem com a situação...

- Pois eu acho que vocês já estão bem acostumados. – opinou.

- As lâmpadas da casa vivem piscando por causa da radioestesia, se ainda fosse de dia... não sei se vai ser uma boa idéia...

- Não se preocupe. Vamos dar um ótimo jantar.

- Obrigada, professor.

- O senhor está se convidando? – perguntou Kal indiscretamente.

- Kalevi Foster, não seja indelicado.

- Não faz mal Amanda. Não faz mal. Nós realmente não explicamos aos garotos a situação.

- Certo, professor. Meninos, venham até a cozinha aqui comigo.

- Amanda, se me permite, poderia eu mesmo dizer isto ao Kal?

Ela deu de ombros e então seguiu para a cozinha com Daimon e Guinevere. Cacius acompanhou com o olhar os três até que finalmente haviam desaparecido de sua vista, então se voltou a Kal.

- É algo difícil de se resumir. É muito mais significante do que podemos imaginar.

- Desculpe, mas eu vou subir.

- Eu lhe acompanho. – insistiu o professor.

Kal terminou de subir os degraus até o segundo andar e seguiu caminho pelo pequeno corredor até o seu quarto, no fundo estava curioso para saber o que Cacius queria dizer-lhe. Sentia vontade de abraçá-lo e chorar a morte de seu pai, contudo ainda assim queria culpá-lo por tudo aquilo estar acontecendo. Queria dizer que ele deveria ter detido Kricolas assim que chegou na Cidade dos Elfos disfarçado de Nicolas Weny, que deveria ter protegido melhor o Livro de Merlin, que deveria ter encontrado a Página Perdia antes de Kricolas e que deveria ter feito tantas outras coisas para impedir que Adonis morresse.

- Não adianta me culpar, Kal. – falou Cacius e Kal percebeu que o professor estava lendo seus pensamentos, porque os grandes bruxos têm habilidades para fazer isto.

- É costume seu espiar o que as pessoas estão pensando? – perguntou ele deitando em sua cama e passou a jogar uma bolinha de tênis para cima.

- Não preciso ler seus pensamentos para saber que você está me condenando aí dentro. – retrucou o professor com sutileza – Eu gostava tanto de Adonis quanto você, Kal.

- Mas não sente tanto a falta dele como eu. – disse, parando de brincar com a bola e olhando para o professor com um olhar cortante e gélido, cheio de rancor.

- Você ainda tem sua mãe, seu irmão, seus amigos. Várias pessoas já passaram pelo que você está passando agora. E todas elas cometeram o mesmo erro que você está cometendo. Culpar alguém inocente.

Kal sentou-se em sua cama e ele olhou para fora, viu o reflexo do lago em toda a sua serenidade. Se existisse algo mais calmo, com certeza este era Cacius.

- As pessoas que sofrem perdas graves procuram uma válvula de escape para que possam drenar todo o seu rancor. E acho que infelizmente eu sou a sua válvula.

Kal desviava do olhar do professor fingindo estar intrigado com algo em cima do guarda roupas de quatro portas a sua frente.

- Isto não vai adiantar. – insistiu o professor.

O garoto mantinha-se concentrado na difícil tarefa de ignorá-lo. Cacius não era o tipo de pessoa que abria a boca a todo instante e quando fazia isto, merecia toda a atenção possível.

- Me culpar não trará seu pai de volta, Kal.

- E o que trará? – perguntou ele virando-se para frente da cama de Daimon onde o professor estava parado, de pé.

- Não há como... sinto muito...

- Sempre há uma maneira.

- Bem que eu queria, Kal. Não só por Adonis. Esta semana Kricolas matou outro amigo.

Kal olhou curioso para o professor, não ouvira nada sobre o assunto. Geralmente os guardas de Warren que os protegiam informavam-lhes o que estava acontecendo pelo país, alguns deles conseguiam edições do Folha Mágica, o jornal mais popular entre os bruxos, mas talvez esta nova morte estivesse relacionada com o fato dos guardas terem subitamente desaparecido da Rua Guaçuí.

- O que houve, afinal? – perguntou Kal olhando fixamente para Cacius.

- Algo trágico aconteceu com Mardo.

- Kricolas matou o Ministro da Defesa e Segurança Mágica? – espantou-se o garoto.

- Não sei se matar é exatamente a palavra, talvez com mais calma eu pudesse lhe usar outro verbo, – Cacius tinha uma voz pesada quase como se ela estivesse sendo empurrada garganta acima – mas sim, Mardo está morto.

- Por que ele fez isto?

- Não saberia responder a esta pergunta. Há mais coisas na mente de Kricolas do que poderíamos entender.

- Professor. – chamou Kal e Cacius sentiu-se aliviado ao perceber que a raiva do garoto estava se esvaindo – No ano passado eu perguntei ao senhor quanto tempo Kricolas demoraria em traduzir todo o Livro de Merlin.

- E eu lhe disse que era impossível fazer esta previsão.

Kal assentiu.

- Continuo tendo a mesma opinião, se quer saber.

- O senhor já leu o livro? – perguntou Kal, com interesse.

- Algumas partes. A complexidade do livro não é verdadeira.

- Como assim?

- Isto depende de quem o lê.

- Quer dizer que...

- Quero dizer que o Livro de Merlin arma um labirinto para aquele que não têm boas intenções. Isto acontece com a maioria dos objetos criados por magia do bem.

Kal achou este detalhe de magia do bem algo bobo, mas no fundo agradecia por ela existir e ser precavida o suficiente para que os segredos mágicos mais poderosos do mundo não caiam em mãos erradas.

- Isto impedirá Kricolas?

- Esta é outra previsão impossível. Para um bruxo comum, o fato de a magia do bem estar contida no livro é o suficiente para que ele não entenda nem mesmo o significado da existência do referido objeto. Contudo, tratando-se de Kricolas, bem, ele é o bruxo mais velho do mundo, certamente, e tem muita experiência. É como eu já havia lhe dito, nós não sabemos quais os limites de seu conhecimento. Encontrar o Livro de Merlin sozinho foi uma verdadeira prova de sabedoria. A magia que protegia o livro também era magia do bem, e ele conseguiu burlá-la.

- Entendo... então os guardas de Warren foram prestar uma última homenagem ao seu ministro? É isso?

- Não teria explicado melhor. – falou Cacius simploriamente.

- Professor Cacius, tia Amanda pediu para chamá-lo para almoçar. – disse Guinevere ao colocar a cabeça para dentro do quarto.

- Oh, sim, minha querida. Creio que eu e Kal já tenhamos conversado bastante.

Quando Cacius preparava-se para sumir no corredor ele foi interrompido pelo som da voz de Kal.

- Professor, desculpe-me e... obrigado também.

Cacius sorriu para o garoto e deu uma piscadela com um de seus brilhantes olhos azuis, como se dissesse “sem ressentimentos”.

- Senti pena do ministro... – comentou Guinevere sentando-se na cama de Daimon.

- Eu também. É sempre uma pena. – falou Kal.

Guinevere era uma garota muito bonita e que se assemelhava muito à Amanda em alguns aspectos, mas a mãe de Kal tinha os cabelos negros e olhos azuis, enquanto Guinevere tinha os cabelos castanhos e olhos esverdeados, porém o jeito, a maneira de falar e a meiguice eram idênticas. Ela fora morar com os Foster quando ainda tinha seis anos, logo após a perda dos pais, que também haviam sido mortos por Kricolas em sua fuga de Warren.

- É doloroso, não é? – indagou a garota – Perder uma pessoa tão importante.

- Sim... – disse ele sabendo que Guinevere referia-se a Adonis agora.

- Eu perdi meus pais, e agora o tio Adonis...

- Pelo mesmo assassino.

- Ele vai pagar.

- Isso eu te garanto. Ele vai pagar sim.

Durante o almoço eles retornaram o assunto sobre o jantar com os Chiabai. Cacius convencera Amanda de que aquela era uma boa oportunidade para eles se entrosarem com a nova vizinhança, e que seria importante para ela fazer algumas amizades, de forma que tivesse com quem conversar quando Kal, Daimon e Guinevere retornassem à Avalon.

Já convencida, Amanda pediu algumas sugestões de pratos para impressionar os Chiabai com uma boa comida, Kal, Daimon e Guinevere sugeriram pizza, haviam viciado desde que comeram uma de presunto no dia da mudança, mas Amanda não achou que seria muito prudente. No final do almoço ela já estava muito empolgada com os visitantes, e ordenou que os meninos arrumassem a casa enquanto ela e Guinevere se viravam na cozinha para preparar o jantar.

Cacius despediu-se de Amanda, Kal, Daimon e Guinevere logo após o almoço dizendo que deveria se encontrar com alguns outros bruxos do governo, porém antes disso providenciaria um outro grupo de guardas para protegê-los, já que não poderia fazer este serviço por muito tempo. Amanda perguntou se ele estaria para o jantar, mas ele não foi muito preciso em sua resposta, ainda assim os quatro ficaram esperançosos de que o professor pudesse voltar a tempo para ajudá-los com a recepção.

Aquela seria a primeira visita não mágica que a família Foster receberia e eles não estavam muito certos de como agir, do que preparar ou dos assuntos que deveriam ser desenvolvidos durante a noite. Cacius sugeriu então que um deles fosse a uma banca de revistas próxima e comprasse alguns exemplares para que eles pudessem conhecer melhor o universo não mágico. Amanda apenas levantou o dedo num estalo e apenas disse:

- Ótima idéia.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Imagem de divulgação

sábado, 22 de março de 2008

O Castelo de Avalon

Construído por Merlin, com alguma ajuda de Foster e outros bruxos da época, o castelo foi edificado em cima das nuvens de Cidade dos Elfos no momento em que a magia passou a ser mal vista pelos humanos não-mágicos.

Assim, Avalon passou a ser um lugar onde os bruxos poderiam praticar suas feitiçarias sem medo de retaliações.

Avalon é um nome comum na história de Merlin. Ele construiu várias outras, como a britânica, onde, supostamente, hoje é Glastonbury.

Várias histórias cercam Merlin, como o seu suposto envolvimento amoroso com Viviane, porém nenhuma delas é confirmada e provada pela história.

Alguns ambientes do castelo:

Primeiro andar – Sala de Clerigologia; Sala de Poções

Segundo andar – Sala de Feitiços (Roberta Skinger)

Terceiro andar – Salão de Katzin; Sala de Geomagia; Sala de Maldições; Sala de Feitiços (Tirso); Sala de Biomagia;

Quarto andar – Sala de Línguas; Enfermaria; Sala de Artefatos Mágicos

Quinto andar – Sala de aula de História; Salão de Tadewi; Diretoria

Sexto andar – Sala do Conselho Estudantil; Sala de Adivinhação

Torre do Sino – ponto mais alto da escola

quarta-feira, 12 de março de 2008

O passado de Amanda Foster

Amanda Jude Foster, nasceu na cidade de Aracruz – ES, em 1968, onde passou os doze primeiros anos da sua vida morando com os pais em uma área afastada da sede. De família humilde, Amanda estudou em casa e aprendeu noções básicas de magia com seus pais e a irmã mais velha, Lilith.

Aos treze anos, Amanda mudou-se para Cidade dos Elfos com uma bolsa de estudos para a Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon. Lá ela se formou em 1985, quando foi trabalhar na sede do Governo como Auxiliar Da Inquisição de Criaturas Mágicas, no nordeste do país. Durante um trabalho, conheceu o jovem Adonis Foster, com quem se casou anos mais tarde, dando origem a dois descendentes, o que jamais acontecera na família Foster.