sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Planos e avanços

Já se passara três dias desde que trancara-se dentro daquela pequena sala repleta de objetos estranhos, pontiagudos e barulhentos. A falta de notícias do mundo externo o incomodava um pouco, embora fosse difícil aceitar esse pensamento; de que algo o podia incomodar.

Seu servo saíra para uma caçada e não retornara, o que poderia ter acontecido? Descartou qualquer possibilidade de derrota. Seria vergonhoso demais. Improvável demais para se pensar naquilo. Ele era asqueroso o suficiente para afastar qualquer curioso, forte o suficiente para encarar qualquer inimigo e perigoso o suficiente para matar qualquer um que se metesse em seu caminho.

Os três dias que se passaram foram seguidos de planos e revisões de planos. Ele não era um homem que se deixava guiar pelo acaso. Ele planejara tudo. Planejara seu próximo passo como quem planeja uma vida inteira, mas não queria compartilhar tais informações com qualquer um que fosse. Ele precisava garantir-se de que daria certo.

Largando um amontoado de pergaminhos em cima de uma mesa, ele levantou-se de sua cadeira de peroba polida e caminhou até uma estante de pedra desalinhada, onde se encontravam vários pequenos objetos, como um guarda-volumes. Dentre esses objetos, ele selecionou um pequeno relógio de bolso muito brilhante. Abriu-o e checou as horas, parecia não ter acreditado, pois retornou a checar e depois conferiu com um segundo relógio pendurado à parede.

Está atrasado. Pensou, mas não era ao relógio a quem ele se referia.

Andou vagamente pelo quarto a espera de algum sinal estranho. Reviu seu plano infalível mentalmente e consentiu consigo mesmo. Não havia como falhar. Nada que fosse feito pelo outro poderia atrapalhar suas ambições. Já descartara qualquer intervenção do velho, que àquela altura já tivera sua influência oxidada no meio mágico. Após a terrível demonstração de fúria em Cidade dos Elfos, todos os que resistiam por acreditarem no ideal daquele velho bruxo já não estavam mais tão certos de sua sanidade.

Pelo que ele soubera, antes de se enclausurar, Merlin descera de seu imponente castelo bravejando impropérios, mais para si do que para outros, e mutilou um livro em praça pública, em seguida acolheu-se no pomar da cidade.

Retornando sua atenção para o cômodo em que estava, o homem voltou a andar em círculos, sua longa capa arrastando-se e o barulho de suas botas fazendo o chão de madeira ranger sinistramente, como se fantasmas assombrassem o ambiente.

Onde está? Pensou, uma ânsia dominando-lhe os sentidos.

Ele não queria explodir sua cólera naquele instante. Estava prestes a fazer isso, mas não seria a toa. Logo estaria de frente com seu inimigo e poderia fazer dele o que quisesse... aí sim, valeria a pena externar toda aquela ânsia, aquela frustração de ter que se confinar por três dias, quando, na realidade, precisava estar a céu aberto, matando, torturando e avançando com seus planos de dominação.

Ouviu-se um toc toc quando o homem já experimentava sentar-se novamente em sua cadeira de peroba polida. Sem demonstrar a ânsia que sentira a pouco, aproximou sua mão da maçaneta logo mais a frente e com um giro e um puxão, abriu a porta. Um corpanzil encapuzado apareceu ao batente, completamente molhado.

- E então? – perguntou ao servo – O que houve?

- Quinze, meu senhor. Entre eles Aleixo e Mordento... infelizmente.

O homem de capa longa crispou os lábios ao saber da morte de seus aliados, mas pareceu não se importar e prosseguiu:

- Foi a mulher, não foi?

- Sim, meu senhor. Ela estava do lado deles o tempo inteiro.

- O que mais? – inquiriu.

O servo retirou seu capuz empapado de água e jogou-o numa cadeira vazia, fechando a porta atrás de si em seguida.

- Schimedel. Pegamos a Schimidel, mas não obtivemos muito mais do que já tínhamos com ela. Então a matamos. – informou o dedicado servo. A pele naturalmente enrugada estava ainda mais cavada, resultado das batalhas e dos dias sem descanso – Todos esperam pelo seu plano, meu senhor. Estão todos em posição neste exato momento.

Donnovan caminhou com sua capa longa pelo ambiente avaliando as notícias. Certamente perder quinze de seus seguidores não estava em seus planos, mas muitos outros iriam substituir esses mortos assim que seu plano fosse executado com perfeição.

- Kricolas, e quanto a Foster? – perguntou Donnovan, como se esperasse por aquela resposta desde o momento em que fitara o servo a sua porta.

­­- Foragido, agora. Após duelarmos na região sul do país, mas ele esfumaçou antes que algum feitiço potencialmente letal o atingisse. – fez uma pausa, pensativo – Seria algo maravilhoso se algo assim existisse de fato, não? Um feitiço letal.

- Tenho certeza que algo assim é possível. E após o plano tratarei de descobrir. – comentou Donnovan, pensativo.

- O Livro de Merlin? – arriscou Kricolas, intimidado.

Donnovan assentiu que sim, mas não queria mais tocar no assunto, guardava suas certezas para si, e só para si. Se um poder tão grandioso assim realmente existisse, somente ele seria digno de possuí-lo.

- Meu senhor... – suplicou Kricolas por mais algumas palavras, mas este o ignorou.

Andou novamente até a estante de pedra, alisou os cabelos negros com as mãos firmes, e retirou do móvel o pequeno relógio de bolso, checou as horas uma outra vez e o guardou em suas vestes.

- Está na hora. – alertou – Hora de matar tudo aquilo em que as pessoas acreditam.

Um comentário:

paulo disse...

a historia e´mt boa gostei mt d livro