quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Capítulo 6 - O Conselho Estudantil

Continuaram subindo pelas escadas do castelo e quando chegaram ao terceiro piso avistaram um grupo de alunos sentados em poltronas grandes e vermelhas largadas pelo corredor. Um deles exclamou algo como, “os porcos de Tadewi”, levantando certa indignação nos três.

- O que você disse? – bravejou Kal.

- Ora, ora, se não é o Foster. – observou um deles.

- O que querem com a gente? – perguntou Kal em tom hostil.

- Uhu... – fizeram como se fossem fantasmas assustando uma pessoa.

- Valente o nosso amigo! Prazer, eu sou Rômulo Martins, presidente do Conselho Estudantil. - disse o garoto estendendo a mão para Kal.

- Kalevi Foster. – disse respondeu ao gesto – Estes são meus amigos, Guine...

- Com certeza você vai querer novos amigos. – cortou Rômulo – Nós de Katzin, podemos ajudar. Vou te apresentar ao grupo. Estes são: Antônio Furtado, terceiro ano, Marcos Herdam, quarto ano e nossa nova musa, Emanuela Goldemberg, primeiro ano. Como já havia dito, meu nome é Rômulo e estou no último ano escolar.

Kal visualizou cada um com extrema cautela, em especial, Emanuela. A garota parecia extremamente meiga em sua expressão, os cabelos eram loiros, bem lisos e compridos, como cascatas de água corrente. A pele clara e os olhos azuis eram capazes de tontear qualquer um com seu intenso brilho. Rômulo era um garoto alto e bonito, tinha as costas largas e os cabelos bem penteados. Em oposição, Marcos Herdam era magro e baixo, exibindo claramente sua fraqueza física. Já Antonio tinha mais do feitio de Rômulo, embora seu corpo apresentasse uma barriga saliente.

- Nós promovemos tudo o que há em Avalon. Somos os membros do Conselho Estudantil. – informou Rômulo.

- Nenhum de vocês é representante. – disse Ralph em tom vitorioso.

- Não se precisa disto quando se faz parte do Conselho. – falou o presidente

- O que são essas poltronas velhas? – perguntou Guinevere mudando de assunto.

- Nós, do Conselho Estudantil, decidimos reformar as mobílias de nossa sala de reuniões. – explicou Rômulo.

- E o que mais vocês mudarão na Escola? – perguntou Ralph curioso.

- Nada. – respondeu secamente.

- Como nada? Por que só mudaram a sala de vocês? – questionou Guinevere.

- Mudamos para aumentar o nosso conforto. – respondeu mais uma vez Rômulo – Mas deixemos isto de lado. Bem, Foster, como pôde perceber o Conselho Estudantil é muito seletivo quanto a seus membros, Cacius se envolve pouco nestes assuntos, então andamos pensando. Seria bom ter você na equipe. Quer fazer parte do Conselho?

- E... e... eu? – gaguejou Kal pensando não estar ouvindo direito – Por que eu?

- Não seja modesto, Foster. – Rômulo disse esta última palavra com a entonação precisa para que Kal entendesse o porquê da escolha – É claro que você deve estar honrado de participar do Conselho, ainda mais sendo do primeiro ano.

- Eu realmente estou surpreso. – disse Kal.

- Imagino. Emanuela ainda não acredita que faz parte do conselho. – continuou Rômulo sorrindo para a garota – Esperamos sua resposta amanhã no café, Foster.

Rômulo e os outros se levantaram e desceram as escadas, desaparecendo por completo de vista.

- Eu, membro do Conselho Estudantil! – imaginou Kal – O que vocês acham?

- Hum... – fez Ralph dando de ombros.

- Não sei o que dizer. Apenas que estamos um pouco atrasados para a aula. – comentou Guinevere.

Mais que depressa os três correram até o quinto andar. Chegando lá, procuraram pelas tais armaduras que poderiam cortar suas cabeças caso não tomassem cuidado. Encontraram. Mas as portas que elas guardavam estavam fechadas, sinal de que a aula havia começado. Não tentaram abri-la pois as estátuas pareciam atentas e nenhum dos três estava muito disposto a correr o risco de ser decapitado logo no primeiro dia de aula.

- Precisamos entrar! – falou Guinevere.

- Ninguém conhece um feitiço para abrir portas? – perguntou Ralph aos dois.

- Eu conheço um ótimo. – falou uma voz vinda das escadas.

- Professor Cacius! – exclamou Kal.

- Como estão? – perguntou o professor gentilmente.

- Acho que atrasados... – falou o garoto coçando a nuca.

- Somos quatro. – respondeu o professor piscando o olho esquerdo – Vamos abrir a porta então. Opandor! – a fechadura estalou e a porta foi aberta.

As estátuas reverenciaram Cacius e permitiram que os quatro bruxos entrassem.

- Desculpem-me pelo atraso. – falou o professor para a turma enquanto caminhava até sua mesa.

Kal, Guine e Ralph sentaram em três mesas ao fundo, já que, as da frente estavam todas ocupadas. A sala era um quadrado perfeito, bem iluminada por grandes vitrais em mosaicos coloridos próximo à altura do teto e grandes espelhos suspensos por fios quase invisíveis em vários pontos da sala. Os espelhos pareciam ser um tipo de iluminação artificial que refletia luz para os pontos em que a luz que incidia pela janela não alcançava.

- Boa tarde alunos de Tadewi e Katzin! – saudou o professor de braços erguidos.

Kal olhou para os alunos na sala e não demorou a perceber que seus uniformes estavam bordados com os brasões de suas respectivas repúblicas, provavelmente haviam visitado a loja de uniformes, Vestuário, depois que desceram do café da manhã. Apenas os uniformes dele mesmo, Guine e Ralph não estavam com os brasões. O professor Cacius, repentinamente, também notou a ausência dos brasões e deu outra piscada com o olho esquerdo. Sem ninguém mesmo perceber, Cacius conjurou um feitiço simplesmente erguendo a ponta da varinha. Talvez, Kal, Guine e Ralph nem ao menos tivessem reparado o que Cacius fizera se não estivessem observando o professor atentamente. As bordas de seus uniformes ganharam um tom alaranjado e na manga esquerda surgiu o brasão de Tadewi, um Dragão serpenteando a letra “T”.

- Perfeito. – sussurrou Cacius – Para aqueles que ainda não aprenderam o meu nome, eu sou Cacius, professor de história e também diretor de Avalon. Vocês devem estar se perguntando: por que dois grupos tão distintos terão aulas juntos? Onde está a turma de Angus? – representou Cacius – Eu respondo que: algumas aulas devem ser feitas juntas. Outras aulas devem ser realizadas com apenas um dos grupos. A questão é que em Avalon vocês aprenderão algo mais além do que magia. Aprenderão a viver. E não se pode restringir a vida a um único grupo ou tipo de pessoas. Por isso a interação. As pessoas precisam trocar experiências para compreenderem boa parte do que se passa no mundo. E nestes cinco anos que passarão em Avalon, vocês conhecerão a felicidade, a vitória, a prosperidade, mas não pensem que será sempre tão fácil. Conhecerão o medo, a desilusão e o desespero... apenas coisas da vida. – disse – Mas, bem, começamos nossa aula um pouco atrasados, então aproveitaremos estes minutos que nos restam para nos conhecermos melhor.

Cacius iniciou um rápido e simples interrogatório de nomes, era mais como uma chamada. Havia na sala dez alunos de Tadewi e quinze de Katzin, dentre eles estava a irritante figura de Rick Wosky.

- Katzin tem quinze alunos só no primeiro ano! – exclamou Ralph.

- Dezesseis. – completou Kal – Uma aluna não está na aqui.

- Emanuela Goldemberg. – adivinhou Guinevere – Belo exemplo do Conselho Estudantil.

- Talvez estejam em reunião. – protestou Kal.

- Você meu jovem. –Cacius chamou Kal, que foi surpreendido – Queira dizer o seu nome para a turma.

- Kal, Kalevi, senhor... – respondeu por impulso.

- Mande lembranças ao seu pai. – falou Cacius.

- Seu nome. – perguntou a Ralph.

- Ralph Scheiffer. – respondeu orgulhosamente.

Cacius seguiu por Guinevere, passando por Pedro Andrade e Camila Cerda, a garota com quem embarcaram no balão de volta a Avalon e finalmente terminando em Rick Wosky.

Eles começaram a discutir os planos que cada aluno tinha para o futuro e o que esperavam de Avalon. Kal, no entanto, afundou-se na cadeira com medo de ser solicitado porque ele nunca pensara exatamente no que faria no futuro ou o que esperava aprender em Avalon, a não ser um monte de feitiços para usar em pessoas como Rick. Os outros alunos, no entanto, respondiam tudo o que era perguntado por Cacius com convicção.

Kal não sabia ao certo o que estava acontecendo. Cacius foi seguindo aluno por aluno na mesma ordem que perguntara os nomes, mas quando chegou a vez de Kal, ele saltou para Ralph, que tinha seu futuro na ponta da língua, como se fosse um texto decorado. Entre os planos estavam; estudar feitiços de defesa, poções e aprender a se transformar em animais, tudo isto para ingressar como Guarda de Warren, assim como seus pais.

- Parece que nosso tempo se esgotou. – disse Cacius olhando para uma ampulheta pendurada ao teto, que somente agora, Kal havia notado.

A ampulheta dourada de areia azul deixou cair o último grão e automaticamente a porta da sala foi aberta e o sino da escola badalou uma música suave.

- Alunos de Katzin, a aula de Geomagia é no segundo andar, a professora Zélia os espera. Os alunos de Tadewi devem ir ao quarto andar, será uma aula individual com o professor Tirso. Por favor, se apressem e até a próxima aula. – Cacius sentou-se delicadamente em sua cadeira e reclinou a cabeça.

- Aula com o professor Tirso! Incrível! – exclamou Kal empolgado.

- Parece que Tirso conseguiu um fã. – falou Ralph.

Contente porque teria aula com o homem com quem, prazerosamente, conversara na Cidade dos Elfos, Kal liderou os alunos de Tadewi até a sala do professor no andar de baixo.

O professor Tirso recebeu os alunos com um largo sorriso. Todos caminharam até as mesas admirando a sala, que não era muito ampla e não tinha muitos detalhes, a não ser algumas inscrições ilegíveis nas paredes e algumas estantes abarrotadas de livros empoeirados.

Kal procurou uma mesa à frente para que pudesse aproveitar o máximo da aula absorvendo cada simples frase que o professor ditasse. Feitiços era a matéria pela qual ele estava mais interessado em aprender, principalmente porque em sua infância ele tivera pouco, ou quase nenhum, contato com esta matéria tão fascinante. Raramente sua antiga professora, Srª. Ana Lara, permitia que Kal fizesse qualquer movimento com a varinha, por mais simples que fosse o feitiço. Ela guardava um enorme medo de que o fazendo, Kal sugasse toda a magia dos seus outros alunos, já que para eles, Kal era um tipo sugador de magia e fora assim que conseguira se tornar um verdadeiro bruxo.

- Boa tarde, Tadewi! – saudou o professor entusiasmado.

- Boa tarde! – responderam em coro.

- Eu sou Tirso e serei o professor de feitiços este ano. Conheço pouco de vocês, quais os nomes? – Tirso iniciou a mesma sessão de Cacius, mas o número de alunos era consideravelmente menor e não tomou muito o tempo da aula.

Era uma oportunidade a mais de Kal aprender os nomes de cada colega. Eduardo Gardner, Camila Cerda e Antonieta Cavalcante, foram os únicos nomes que Kal conseguiu memorizar.

- Agora que estamos devidamente apresentados podemos dar início à aula. – o professor sacudiu a varinha e a porta foi subitamente trancada.

A ampulheta pendurada no teto, que parecia ser um padrão de todas as salas de aula, já deixava cair os primeiros grãos de areia. Tirso posicionou-se de forma que pudesse ser visto e ouvido por todos os alunos e começou um pequeno discurso sobre sua matéria.

– A arte de feitiços não requer grandes habilidades de seus praticantes, é claro que a prática leva a perfeição. – destacou o professor – Eu creio que boa parte de vocês já tenha uma boa noção de feitiços simples, mas sempre existe aquele que talvez tenha maior dificuldade. Quanto a isto não se preocupem. Estarei sempre aqui para qualquer dúvida. OK? – todos assentiram – Hoje vocês irão aprender o feitiço Opandor. Alguém me diz o que ele faz.

- Abre portas. – responderam todos.

- Puxa! – espantou-se o professor – Muito bem, mas complementando. O Opandor abre qualquer tranca, seja de portas, baús, janelas, enfim, qualquer coisa. – o professor aproximou-se de um armário velho de madeira apontou a varinha e conjurou o feitiço – Opandor! – a porta se abriu e revelou pequenas caixinhas de madeira – Venham, peguem uma. – os alunos levantaram-se e, rapidamente, cada qual pegou uma caixa voltando em seguida para suas mesas - Muito bom. Larguem a varinha em cima da mesa e repitam comigo, Opandor!

- Opandor! – repetiram.

- Isso mesmo. Pronunciem mais o an. Opaaaaannnndor!

- Opandor! – obedeceram prontamente.

- Ótimo! Agora, tarefa simples. Abram as caixas. – orientou o professor.

- Opandor! – disse Kal com a varinha apontada para sua caixa.

Uma luz saiu da fechadura e a caixinha foi aberta com um clic.

- É isto mesmo, pessoal! – parabenizou o professor vendo que todos haviam conseguido – Esse foi o nível mais fácil. Quero que vocês abram este baú agora. – Tirso apontou para um grande baú de madeira envelhecida ao canto da sala – Quem se prontifica?

Eduardo Gardner, um garoto negro e bem alto para a idade, se aproximou do baú e ergueu a varinha confiante.

- Opandor!

A fechadura foi iluminada, mas não aberta.

- Viram? Quero que todos tentem. Formem uma fila. – comandou Tirso.

- Opandor!

- Opandor!

- Opandor!

Todos tentaram, mas nenhum aluno foi capaz de abrir o baú. Por vezes eles se juntavam e diziam o feitiço todos ao mesmo tempo, porém a tranca mantinha-se firme.

- Continuem tentando! Tentem! Tentem! – estimulou o professor.

Os últimos grãos da ampulheta já estavam acabando e ninguém conseguiu vencer o desafio.

Quando Tirso anunciou o fim da aula alguns alunos protestaram.

- Pesquisem, porque eu quero este baú aberto na próxima aula. Até mais alunos! A aula de Geomagia é no segundo andar. Tenham uma boa aula! – despediu-se.

Os alunos do primeiro ano de Tadewi saíram empolgados da primeira aula de feitiços. Mesmo que passar uma hora abrindo trancas não pareça a coisa mais empolgante a ser feita, Tirso lançara um desafio. Um desafio que todos estavam dispostos a vencer. Afinal, vencer o que parece impossível tem sempre um sabor melhor.

Passando pelo terceiro andar, Kal reparou que as poltronas onde encontraram os membros do Conselho não estavam mais lá. Desceram mais alguns lances de escada e finalmente chegaram ao segundo andar, alguns minutos adiantados para a aula com a professora Zélia Bússola, uma mulher de cabelos curtos e ruivos, e um nariz tão protuberante quanto uma batata. Ela usava uma calça cor de barro acompanhada por um blazer de mesma cor e estampada com bandeiras de alguns paises.

- Geomagia não é exatamente mágico. – começou – No decorrer do ano vamos explicar efeitos causados por magia. Por exemplo, como um castelo pode existir em cima de uma nuvem e como os humanos ainda não descobriram a existência de bruxos e criaturas mágicas, como dragões, no globo terrestre.

- Boa pergunta. Como? – perguntou uma aluna.

- Qual o seu nome querida? – indagou a professora.

- Camila Cerda. – respondeu.

- Muito bem, vou explicar Avalon primeiro. A escola foi construída por dois grandes bruxos, em um período de grande conflito entre o nosso mundo e o mundo humano. Merlin e Foster, tinham planos de construir o castelo em um lugar acessível a todos, mas os acontecimentos da época os obrigaram a erguer a escola onde apenas os bruxos e os humanos interessados poderiam chegar. A nuvem é sustentada por um feitiço de levitação permanente e incrivelmente poderoso e também impossível de ser desfeito.

Imaginando que um dia os humanos também voariam, o engenhoso Merlin criou os portões de Avalon. As nuvens laterais escondem o castelo e ainda impedem qualquer coisa ou pessoa de entrar e sair dos terrenos sem autorização. Qualquer um que tentar passar pelos portões, terá a impressão de que apenas atravessou uma nuvem comum. Entenderam? – perguntou a professora finalizando a explicação – Magia avançada é difícil de ser explicada e compreendida. Não precisamos entrar em grandes detalhes. Agora vamos comentar sobre lugares como a Cidade dos Elfos. Ela também é protegida com magia antiga...

A professora Zélia continuou a explicação dizendo que a Cidade dos Elfos também estava protegida por feitiços anti-humanos. Quando eles se aproximavam dos terrenos da cidade, tinham ilusões com animais selvagens e fugiam com medo. Criaturas mágicas protegiam determinadas regiões assustando os aventureiros, tais criaturas enganavam e os confundiam com pistas e pegadas falsas, o que era especialidade do Curupira, criatura que tem os pés virados para as costas.

Ainda explicou que, o Governo Mágico enviava bruxos disfarçados para o mundo dos humanos com a finalidade de espalhar estórias trágicas de pessoas curiosas e de criaturas que habitam florestas e lugares fechados. Tudo isto para manter os humanos afastados ao máximo da população mágica.

A aula seguiu-se neste ritmo até que finalmente a professora anunciou seu fim e pediu aos alunos que na próxima trouxessem o livro “Onde Estamos”, porque ela iria começar com a verdadeira matéria de Geomagia.

- Por Merlin que aula demorada! – reclamou Kal.

- Não exagera. A professora Zélia é muito atenciosa. – falou Guine.

- Deixe de lado, acabaram as aulas de hoje e eu quero descansar. – falou Ralph.

- Descansar? Só se não tivéssemos tarefa de feitiços. Esqueceu que temos um baú para abrir? – comentou Guine.

- Com certeza alguém vai abri-lo antes de nós. – sibilou Kal.

- E então? Cadê o Kal Foster interessado pela matéria, cheio de vontade de estudar? – ironizou Guinevere.

- Morreu depois de três aulas e subidas e descidas pelo castelo. – respondeu de imediato – Mas está bem, vamos procurar a “chave do baú”.

A maioria dos alunos já estava descendo pelos balões até a Cidade dos Elfos. Todos visivelmente cansados, carregando seus materiais com certa relutância. Kal, Ralph e Guine entraram em um balão acompanhados por Daimon e seu novo amigo e colega de quarto, Jonathan, um menino moreno de cabelos bem escuros e ondulados e olhos tão pretos quanto besouros. A descida de balão até Cidade dos Elfos era praticamente o único momento em que os irmãos passavam juntos.

Cidade dos Elfos estava com o fluxo de pessoas agitadas, a maioria era estudantes aproveitando o final de tarde com os amigos fanfarreando pelas ruas e contando como fora seu dia. Os pequenos bares e lanchonetes da cidade estavam lotados, a alegria parecia se propagar rapidamente como se fosse uma doença altamente contagiosa.

Depois de despedirem-se de Daimon e Jonathan, os outros três seguiram caminho passando por um bar onde na porta estava Rômulo, que logo se adiantou para cumprimentar Kal, que se assustou enormemente quando seu braço atravessou o corpo do presidente do Conselho Estudantil. Era como se o ele, Rômulo, fosse um fantasma.

- O q-que...? – gaguejou Kal incerto.

- Assustado, Foster? – debochou Rômulo que havia acabado de surgir de outra direção.

- Como você fez...? – perguntou Kal ainda sem entender olhando para os dois Rômulos a sua frente.

- Foi apenas uma ilusão. É como eu já te disse. Os membros do conselho têm privilégios – falou – Nem todos os livros estão na biblioteca... – sussurrou no ouvido de Kal, fez desaparecer sua imagem projetada, em seguida entrou no bar.

- O que foi aquilo? – perguntou Guinevere.

- Eu não sei direito, parecia uma projeção dele mesmo. – tentou explicar Kal sem palavras para definir ao certo.

- É como se fossem gêmeos. – completou Guinevere.

- Só se um estivesse morto. – cochichou Ralph.

Os três seguiram até a República de Tadewi loucos por um bom descanso. Kal seguiu o caminho pensando na proposta que recebera, como membro do Conselho Estudantil ele poderia ter acesso a qualquer livro de feitiços. A palavra livro despertou nele uma vontade já esquecida, a de ler “Aquele segredos”, o livro que vira na Livros & Boatos. Era uma pena que não houvesse outros iguais. Outra lembrança remoeu-lhe a cabeça instintivamente, a da fúria que aquele homem de capa amarela, o qual Daimon mostrara a seção de feitiços, ao saber que “Aqueles segredos” fora vendido.

- No que está pensando? – perguntou Guinevere despertando Kal.

- Ah! Nada, nada importante. – respondeu percebendo que já estavam em frente às duas estátuas.

- Precisam de senha! – disse um garoto alto e de cabelos desarrumados o qual reconheceram como sendo Diogo, um dos Representantes de Tadewi.

- E qual é mesmo? – perguntou Kal.

- Clavícula! – disse ele encostando a ponta da própria varinha nas das estátuas.

A cascata de areia brilhante fez surgir a estreita passagem que ligava o lado de fora ao salão semicircular.

Àquela hora, o salão estava vazio porque a maioria dos alunos lotava os pubs da Cidade dos Elfos. Apenas alguns poucos estavam dispostos em mesas estudando ou lendo revistas e ao extremo, próximo a lareira, estava espremido um pequeno grupo de garotos e garotas ao redor de um baú semelhante ao da aula de feitiços.

- De quem é este baú? – perguntou Kal a Pedro Andrade.

- O professor Tirso deixou o baú aqui para tentarmos abri-lo. – respondeu.

- Parece que ninguém conseguiu. Não é verdade? – observou Kal.

- Hum.

- Eu vou me arrumar. – disse virando-se para Guine e Ralph.

Kal subiu solitariamente até o dormitório, os dois amigos permaneceram no salão com os outros alunos tentando de todas as formas abrir o tal baú. Antes de perder o salão de vista, Kal assistiu a Ralph incendiar o objeto, que se auto-apagou.

Chegando ao dormitório, vazio, Kal se aproximou de sua cama sentou-se por um instante e contemplou a vista pela janela. Ao longe era possível ver a floresta, árvores balançavam com o vento constante e algumas aves procuravam abrigo nelas fugindo da chuva que começara a cair. Entretido com aquela visão Kal nem se dera conta do tempo que já decorrera desde que entrara no dormitório. Antenou-se novamente quando um origami em forma de pássaro surgiu na janela e ficou batendo as asas, como se esperasse ser recolhido. Imediatamente, Kal abriu a janela e deixou que a ave entrasse. Ela baixou suavemente e pousou na mão direita do garoto, desdobrando-se sem cerimônias.

Prezado Foster,

O Conselho Estudantil conta com sua aceitação para o cargo de Guardião-mirin dos terrenos de Avalon.

Aumentamos o seu prazo para a decisão. Esperamos uma resposta até amanhã às 11 horas.

Ass.: O Presidente, Rômulo.

- Que gentis. Aumentaram meu prazo em quatro horas! – exclamou.

Aquela noite pareceu não existir. Kal tomou banho e desceu ao refeitório de Tadewi para jantar. Quando retornou ao salão da república, observou as tentativas de Ralph e Guinevere de abrir o baú. Após isto, Kal subiu as escadas do dormitório e deitou-se em sua cama. A partir de então não viu mais nada.

Com o raiar do sol todos os alunos de Tadewi pareciam animados com o segundo dia de aula. Uma noite de sono bem dormida foi o suficiente para recarregar os ânimos dos estudantes.

No café da manhã, no salão de Tadewi, os três serviram-se de pão e suco de laranja. Nenhum outro aluno estava mais na república.

Após a refeição, Ralph foi o primeiro a reparar que no cantinho da sala, próximo a mesa de estudo havia um pequeno cartaz afixado na parede.

- Hei, Guine, Kal! Nossas aulas, vejam.

Aulas do 1º Ano

7:00 – História

8:00 – Feitiços

9:00 – Relações com a Natureza

10:00 – Relações com a Natureza

11:00 – Almoço

13:00 – Feitiços

14:00 – Geomagia

15:00 – Geomagia

16:00 – Maldiçoes

- O que? Duas aulas de Geomagia! – questionou Kal aborrecido com o horário.

- E são seguidas. – completou Ralph caindo no mesmo desânimo.

- Está bem gente. Vamos para escola. – sugeriu Guinevere.

Saíram apressadamente da república e mais rápido ainda correram até os terrenos baixos para embarcarem nos balões. Surpreenderam-se imensamente ao ver que sobrara apenas um único balão. Todos os alunos já haviam subido. Nem mesmo Luís, que geralmente ia no último balão estava mais ali.

- Sabia que vocês estavam aqui ainda.

Daimon acabara de surgir no portão. Estava afoito.

- O que está acontecendo, Daimon? Você sabe? – perguntou Kal.

- É o Jonathan. Ele endoidou! – respondeu o garoto – Quando acordei ele não estava mais no dormitório. Perguntei a todo mundo e ninguém soube responder, Luís não veio buscar os alunos então todo mundo subiu por conta própria. Uma colega minha mandou um bilhete dizendo que Jonathan subiu na Torre do Sino e que está ameaçando se jogar lá de cima.

- Por quê? – perguntou Guinevere.

- Eu disse, ele está doido. – repetiu Daimon girando o dedo indicador na têmpora direita.

Kal olhou de esguelha para o balão ali parado e perguntou:

- Alguém sabe usar aquela coisa?

Os quatro subiram e cortaram as cordas que prendiam o balão. Torcendo para que ele tivesse um tipo de piloto automático e que os levasse direto ao castelo.

- Não deve ser difícil. – arriscou-se em dizer Ralph – Todo mundo subiu, não subiu?

Aparentemente os palpites deles estavam certos. Não precisava ser esperto para usar um balão de Avalon. Bastava embarcar, cortar as cordas e se segurar para não ser derrubado por uma rajada de vento forte.

O próximo obstáculo agora seriam os portões da escola. Se as nuvens estivessem fechadas eles ficariam perdidos até que alguém notasse a falta deles. Afinal quanto tempo levaria?

Outro golpe de sorte. Os portões estavam abertos e os quatro saltaram do balão caminhando rápido até a multidão de alunos em volta da Torre do Sino, uma torre de pouco mais de seis andares. Jonathan, assim como havia dito Daimon, estava no alto da torre de pé no parapeito. Bastava um pequeno empurrão para que ele ficasse como um ovo mexido.

- Ele vai cair! – gritavam os alunos.

- Acalmem-se! Acalmem-se! – pediam os professores.

No meio de toda aquela gritaria, Kal fixou bem seu olhar no rosto quase indistinguível de Jonathan, mesmo de tão longe se percebia que ele estava mórbido e pouco ativo, certamente essas não eram as feições que uma pessoa carrega quando está disposta a se jogar de uma altura de quase sete andares.

Por um instante Kal pareceu ter visto uma sombra atrás do sino, seu primeiro pensamento foi o de analisar quem estava a sua volta, mas rapidamente percebeu que seria impossível sentir falta de alguém naquela multidão. Como se eu conhecesse cada pessoa aqui. Idéia estúpida. Repugnou-se Kal.

Mas outra lâmpada se acendeu em sua cabeça com uma idéia que não parecia tão estúpida quanto a anterior.

- Captus! – um som agudo foi precedido do barulho de vozes locais.

Kal então direcionou sua audição para a Torre do Sino e pode ouvir uma voz, que certamente não pertencia a Jonathan. Era uma voz feminina.

- Pule... – disse a voz persuadindo o garoto – todos estão esperando! Vamos Jonathan, pule... – a voz insistente e má conselheira continuava a sussurrar para Jonathan, quando o garoto pareceu voltar a si sacudindo a cabeça a voz gritou um “pule” ainda mais alto e a mente fraca do garoto cedeu jogando-se da torre.

Demasiadamente assustado, Kal largou a varinha, abaixou-se para pegá-la e quando ergueu a cabeça viu que Jonathan estava em queda livre.

- Não! – gritaram os alunos.

Enquanto Jonathan caia, todos os professores se entreolhavam nervosos, em seguida olhavam para Cacius, que tranqüilamente bebericava uma xícara de café. Ele mostrava-se indiferente ao que estava acontecendo e levemente ergueu o dedo indicador quando Jonathan já estava a menos de cinco metros do chão. O garoto foi freado até que suavemente pousou adormecido na grama.

Uma mulher, de meia idade e cabelos loiros, aproximou-se do garoto. Segundo os outros alunos aquela era a Srª. Simon, enfermeira de Avalon. Ela trajava um vestido branco e um avental anil com o símbolo da escola bordado no lado esquerdo.

- Srª. Simon, leve Jonathan para a enfermaria. Imediatamente. – ordenou Cacius, que largou sua xícara de café e abandonara totalmente a tranqüilidade.

Kal olhou novamente para a torre, mas não viu a misteriosa dona da voz. Chamou Guinevere e Ralph, Daimon havia acompanhado Jonathan até a enfermaria. Os três entraram no castelo e começaram a subir pelas escadas que levavam direto ao ponto mais alto da torre, de onde Jonathan se jogara, e supostamente estivera uma mulher. Kal ainda sustentava a hipótese de que realmente havia alguém lá em cima com Jonathan. Eles encontrariam esse alguém de qualquer modo.

- Eu ouvi! Ouvi uma mulher persuadir Jonathan lá em cima! Jonathan foi enfeitiçado. Tenho certeza! – disse Kal enquanto subiam pulando três degraus por vez.

- Como você pode ter ouvido? Mal dava para enxergar. – questionou Ralph.

- Existe um feitiço de superaudição. Captus. – respondeu Guine.

- Está bem. Supondo que você tenha escutado qualquer coisa. – prosseguiu Ralph – O que exatamente aconteceu lá em cima?

- Quem esteve lá com Jonathan o enfeitiçou. Queria que ele caísse. Resta saber por quê.

- Acho que não vamos encontrar esta pessoa. – desanimou Guinevere – A torre tem saída para todos os andares do castelo.

- Como você sabe disto? – indagou Ralph.

- Tem um mapa enorme de toda a escola no salão principal de Tadewi. – respondeu ela gesticulando com as mãos.

- Vamos continuar. – disse Kal não dando a mínima para o que Guinevere havia dito.

Subiram mais dois andares, a respiração já estava ofegante e quando chegaram ao quarto andar esbarraram com Cacius, Tirso e o pai de Rick Wosky.

- O que vocês fazem aqui? – perguntou o diretor.

- Estamos... subindo... – disse Kal levemente nervoso – e o senhor?

- Acredito que isto não seja da sua conta, Foster. – respondeu o pai de Rick com azedume.

- Olá garotos. – cumprimentou Tirso.

- Não há motivo para permanecerem aqui. – insistiu Wosky.

- Acalme-se, Amadeus. Algumas perguntas devem ser respondidas antes. – falou Cacius – por exemplo, por que vocês três decidiram subir pela torre, ao invés de irem pelas escadas do castelo?

Esta era uma pergunta a qual não poderia ser respondida sem dizer a verdade a Cacius. Kal parou por um instante avaliando suas opções, não eram muitas, e as mentiras que atravessaram sua cabeça num segundo não pareciam tão convincentes.

- As escadas estavam lotadas. – disse Guinevere rapidamente.

- Qual é a primeira aula de vocês? – perguntou Amadeus Wosky.

- Eles teriam aula comigo. – respondeu Cacius – lamento, mas ninguém terá a primeira aula de hoje. Preparem-se para o próximo horário.

- Pode deixá-los por minha conta professor. – falou Tirso – vou deixá-los em minha sala.

O diretor de Avalon concordou com a sugestão do professor de feitiços e fez sinal para que descessem.

- Amadeus e eu continuaremos. – finalizou Cacius dando uma piscadela para Tirso e seguindo escada a cima.

Tirso conduziu Kal, Ralph e Guinevere até sua sala no terceiro andar. Nos primeiros lances de escada, Tirso agia indiferente ao acontecimento, mas quando alcançaram o interior do Castelo o professor parou por um instante, abaixou-se na altura dos três e olhou fixamente nos olhos castanhos de Kal.

- O que vocês sabem? – perguntou.

- Nada, nós já dissemos. – mentiu Kal.

- Quem lhes ensinou o Captus? – indagou novamente arrancando um suspiro dos três.

Como ele sabe? Pensou Kal.

- Aprendemos sozinhos, quero dizer, vimos dois bruxos usando o feitiço. – entregou Kal sabendo que o que estava dizendo era mais uma confirmação do que uma confissão.

- Isso parece bom. Interessante. Venham comigo, depressa. – ordenou Tirso conduzindo-os até sua sala.

- É bom saber que vocês estão interessados em aprender coisas novas. E então. O que ouviram?

- Na verdade, apenas eu ouvi. – disse Kal.

- E o que exatamente você ouviu, Kalevi?

- Lá em cima tinha uma segunda pessoa, não sei quem, apenas sei que era uma mulher e que ela induziu Jonathan a pular.

- Induziu? – duvidou Tirso.

- Era como se Jonathan estivesse hipnotizado. A mulher mandava ele pular e...

- Agradeço, Kal. Fiquem aqui, vou comunicar Cacius. – falou Tirso.

- Professor, desculpe por ter mentido, não queria alarmar ninguém. – disse Kal corando.

- Entendo. – Tirso olhou para a ampulheta pendurada no teto e continuou – Ainda falta muito tempo para a segunda aula e posso falar com Cacius depois. Querem aprender algo novo?

Instintivamente os três acenaram que sim.

- Vamos nos aprofundar no feitiço Captus. Como vocês sabem o Captus lhe dá uma superaudição. Só que, às vezes, esta superaudição não é eficaz devido a outro feitiço, Áptus. O feitiço Áptus bloqueia por completo a superaudição. Entenderam? – a explicação de Tirso impressionou a Kal, a súbita mudança de atitude do professor o havia deixado confuso – Guinevere, acompanhe-me.

Tirso conduziu a garota até um canto da sala, de maneira que Kal e Ralph não poderiam ouvir uma conversa entre o professor e a aluna.

- Guinevere e eu ficaremos conversando. Tentem nos ouvir! – gritou o professor.

E assim se fez. Kal pôs a varinha na atura do ouvido e fez o feitiço. O gesto que em seguida foi imitado por Ralph, pareceu ter surtido efeito. Os dois puderam ouvir tudo que era dito por Guinevere e Tirso. O professor agitou a varinha no ar e fez o contra-feitiço.

- Áptus!

Um zunido irritante cortou o ar até o ouvido dos dois e de repente, silêncio. Apenas o vácuo sonoro formado dentro das paredes frias da sala de feitiços.

- Viram, ou melhor, ouviram? – indagou o professor de volta – O Áptus, bloqueia a conversa. Várias salas do castelo estão protegidas por ele. No entanto, ele não tem muita utilidade em uma conversa social. Quem estiver de butuca, vai perceber que a pessoa não quer ser ouvida, entendem? Não dá para disfarçar. Para isto, existe um outro feitiço. Anstran. Este camufla uma conversa, ou seja, eu posso dizer pau e você entender perfeitamente pedra.

Kal, Guine e Ralph escutaram Tirso em absoluto silêncio e sem fazer qualquer pergunta.

- Parece meio abstrato, não é? Vamos novamente, Guinevere. – chamou o professor.

Kal e Ralph também se prepararam.

- Captus! – disseram os dois.

Tirso e Guine estavam conversando sobre a cerimônia de abertura do dia anterior, ele explicou-a que todos os anos os cinco melhores alunos da escola são escolhidos como Representantes. Os Representantes são os guardiões dos portões. São eles quem os abrem e fecham a cada dia, na subida e descida do castelo. Quando Tirso começou a falar do Conselho Estudantil, Anstran entrou em ação e a conversa passou a ser sobre balas e sorvetes de chocolate e limão. Kal e Ralph entreolharam-se e deram gargalhadas. Tirso observava tudo e vendo a reação dos dois, deu por encerrada a lição.

- Perceberam? Nem tudo é o que parece. Não devemos tirar conclusões precipitadas de tudo o que ouvimos. – disse ele saindo rapidamente da sala à procura de Cacius.

- Agora não sei mais nada. – desanimou Kal – O que eu ouvi lá em cima, não tenho certeza.

- Eu acredito em você Kal. – falou Ralph – porque alguém se jogaria do alto de uma torre? Não faz o menor sentido. Se Jonathan quisesse morrer ele teria entrado na floresta desarmado. É coisa de louco isso.

- Eu não sou louco! – afirmou uma voz vinda da porta.

Era Jonathan, que acabara de entrar na sala ao lado de Daimon.

- Srª. Simon disse que ele podia assistir à aula. – disse Daimon tentando amenizar o clima.

- Eu não estou louco! – reafirmou Jonathan.

- Ninguém aqui acredita que você esteja. – respondeu Guinevere.

- Quem estava com você lá em cima? – perguntou Kal rapidamente.

- Eu não sei. Ontem à noite eu deitei e quando acordei estava na enfermaria, já disse isto ao professor Cacius. – explicou.

- Não se lembra de coisa alguma? – insistiu Kal.

- Já disse que não! – respondeu impaciente.

- Alunos de Tadewi e Angus, por aqui! – gritou a voz do professor Tirso do lado de fora da sala três minutos mais tarde.

Os alunos lotaram a sala de aula em questão de segundos, Tirso entrou e dirigiu-se até sua mesa.

- Bom dia! E que dia... – suspirou – O professor Amadeus teve que se ausentar do castelo agora pouco, então eu vou dar a aula para os dois grupos, Angus e Tadewi.

Tirso olhou a ampulheta no teto, voltou aos alunos e continuou.

- Alguém aqui conseguiu abrir o baú ontem à noite?

Nenhum aluno foi capaz de levantar a mão, Tirso havia deixado um baú em cada República, muitos alunos de Tadewi tentaram abri-lo, mas ninguém foi capaz.

- Pelo menos um de vocês sabe me dizer o motivo pelo qual o baú não pôde ser aberto?

Daimon ergueu a mão com orgulho de si. Percebendo que mais ninguém faria o mesmo, Tirso, então, permitiu que ele respondesse.

- Acontece que o baú está protegido por um feitiço-senha.

- Muito bom, Daimon! – Tirso elogiou – Você saberia me dizer qual é a senha? Ou como faço para descobri-la?

- Não. – respondeu timidamente – Não sei qual é a senha, professor.

- Sem problemas, não existe como se descobrir uma senha mágica. Ou pelo menos é o que muita gente acha...

Kal ouviu Tirso e sabia que ele estava se referindo a algo mais importante do que simplesmente um baú de escola. O primeiro pensamento que veio a sua cabeça foi Kricolas, embora não soubesse muito sobre a prisão de Warren, era lógico achar que as celas eram trancadas com magia, que talvez fosse a mesma do baú da aula de feitiços.

- Ainda assim, meus parabéns, Daimon Foster! – continuou o professor – Mas, o importante não era abrir o baú, mesmo porque ele estava vazio. O que nos interessa agora é vocês aprenderem como se cria o feitiço-senha. – Tirso aproximou-se do baú – Observem. Vou abri-lo. Chapéu púrpura, Opandor! – o baú destrancou-se e Tirso pôde levantar a tampa. – Simples não? Vou fechá-lo agora. Tijolo pesado, Eixo! – o baú trancou-se novamente – Simples também, não é? Srtª. Lingenstain, poderia abri-lo? – convidou o professor.

Guine aproximou-se do objeto e ergueu a varinha em sua direção.

- Tijolo pesado, Opandor! – o baú, mais uma vez, abriu.

- Muito bem! – exclamou Tirso animado – Formem duas filas, vamos praticar!

Os alunos se organizaram em duas filas, Kal e Daimon lideraram-nas. A fila de Kal trancava o baú e a outra tinha que abri-lo. Os alunos ficaram neste abre e fecha de baú até o fim da aula.

Quando o sino badalou e a ampulheta finalmente deixou cair o último grão de areia, o professor Tirso abriu a porta da sala e dispensou os alunos com um aceno.

- Agora é aula de...

- Relações com a Natureza, Kal. – cortou Guinevere.

- O que se faz em Rel...

- Deve ter algo a ver com as plantas que compramos na Cidade dos Elfos. – disse Guine, mais uma vez cortando Kal – Qual planta você comprou?

- Para falar a verdade, acho que fui roubado. – esclareceu Kal – Não vi planta nenhuma naquele vaso. O vendedor me disse que era uma tal de Herviana gornóide, ou qualquer coisa parecida. – concluiu.

Juntamente com os outros alunos, Kal, Ralph e Guine desceram as escadarias do castelo até o saguão de entrada, atravessaram a porta de madeira entalhada e o jardim. Deram a volta no castelo e desceram as escadas do pequeno morro até a horta.

Uma mulher baixa e velha esperava os alunos de Tadewi sobre a sombra da cabana com teto de palha. Usava um chapéu remendado verde escuro e um macacão encardido.

- Por aqui alunos! Aula de Relações com a Natureza! – gritou a mulher.

Os alunos correram até a cabana e se acomodaram em volta de uma mesa retangular no centro.

- Bom dia! Eu sou a professora de Relações com a Natureza, meu nome é Margarida.

De perto a professora parecia mais nova. O rosto sujo de terra escondia rugas e disfarçava os cabelos brancos.

- Naquelas prateleiras, ali no fundo – apontou a professora para os móveis com detalhes de bambu – estão as plantas que vocês compraram. Eu coloquei em novos vasos e as rotulei com seus nomes e a espécie de suas plantas. Peguem-nas.

Os alunos se aproximaram da prateleira e cada qual pegou a sua, em seguida dirigiram-se novamente até a mesa.

- Nesta primeira aula nós vamos apenas discutir as particularidades das plantas escolhidas por vocês. Quem quer começar? – perguntou a professora.

Alguns alunos agitaram a mão no alto e Margarida escolheu Ralph para começar.

- Vejo que você escolheu uma Fantara d’ouro. Boa escolha. Algum motivo em especial? – perguntou a professora.

- Sim. Minha mãe tem uma dessas. Já conheço algumas maneiras de trato. – respondeu Ralph.

- Hum... e você? – Margarida agora se referia a Kal – Algum motivo em especial para sua planta?

- É... uma Herviana gornóide. – respondeu Kal lendo o rótulo.

- Eu sei que é uma Herviana gornóide. Quero saber se existe algum motivo em especial. – insistiu.

- Não há, por quê? – questionou Kal.

- Nada, mas este tipo de planta tem características bem peculiares. – respondeu a professora pausadamente.

Kal então segurou o pequeno vaso perto do rosto e passou a observá-lo. Não viu ou sentiu qualquer coisa. Parecia apenas um vaso cheio de terra. Em determinado momento a professora Margarida prosseguiu com os questionamentos, mas Kal continuou a observar o vaso. Passados alguns minutos naquela posição, ele então sentiu um pequeno movimento dentro do pote e instintivamente soltou, fazendo o vaso cair na mesa partindo-o ao meio.

- O que aconteceu? – gritou a professora – Quer matar sua planta? Isto é uma Herviana gornóide! Não suporta luz.

- O que eu faço? – perguntou Kal sem ação.

- Concerte! – ordenou a professora do outro lado da mesa.

- Como? – Kal ficava cada vez mais desesperado.

- Vaso Consertûnia. – falou a professora – Use o feitiço Consertûnia.

Kal empunhou a varinha e preparou-se, sabia que era apenas dizer o feitiço e o vaso voltaria ao normal e a planta estaria protegida pela terra de qualquer raio de luz que tentasse alcançá-la. Num último momento Kal olhou novamente a terra espalhada na mesa e pensou ter visto alguma parte sua planta. Então ouviu.

- Vaso Consertûnia!

Era Margarida quem havia gritado da extremidade da mesa onde estava uma professora impaciente e mal humorada.

- Francamente, Kalevi Foster! Francamente! – Margarida passou pelo garoto e recolheu o vaso – Esta vai para observação. Coitadinha... que azar que você deu plantinha...

A professora saiu da sombra da cabana sibilando palavras inaudíveis e os alunos começaram a conversar.

- Captus! – disse Kal com a varinha ao ouvido.

“... francamente, esperava mais de Kalevi Foster. Expor esta pobre planta à luz. Perdoe ele plantinha. Perdoe ele. É um insensível...”

- Louca. – resmungou Kal.

- Que foi? – perguntou Guinevere.

- Não foi nada.

- Você vacilou deixando cair o vaso. – disse Ralph aproximando-se.

- Eu sei, eu sei, mas ela se mexeu.

- Quem se mexeu? – indagou Guine.

- A planta. – respondeu.

- Qualquer planta mágica se mexe Kal. – disse Ralph imediatamente.

- Não debaixo da terra. – respondeu com rispidez.

- É, eu também nunca vi. – falou o garoto.

A professora Margarida entrou novamente na cabana e deu continuidade a aula avisando que qualquer outro acidente acarretaria em punição.

A professora explicou sobre os vários usos das plantas, desde a preparação de poções a uma simples receita culinária. Ensinou várias maneiras de como cuidar e torná-las saudáveis.

Margarida aproximou-se de Eduardo e disse a ele que sua planta, uma do tipo Cactûnia, deveria receber água apenas uma vez por mês no período de lua crescente e que durante a fase de lua nova não deveria ficar ao ar livre em momento algum.

Quando a ampulheta deixou cair seu último grão de areia, diferente das ampulhetas do castelo a areia era verde, Margarida liberou os alunos, que retornaram ao castelo ouvindo as badaladas do sino no alto da torre.

- Finalmente Almoço. – comentou Ralph.

- Duas horas de descanso e então mais quatro horas estudando. – continuou Kal.

- Que desânimo. – disse Guine.

- Estou ficando maluco. Ontem duas aulas de Geomagia, hoje mais duas. Se isso for tendência ao resto da semana, eu estou fora. – disse Kal.

Mesmo com as duas aulas de Geomagia o que realmente preocupava Kalevi Foster era a decisão que deveria tomar. Na noite anterior, ele havia recebido um bilhete de Rômulo, algo mais parecido com uma intimação, o presidente do Conselho Estudantil esperaria por uma resposta no horário de almoço, e ele nem ao menos havia pensado no assunto. Seja lá o que estivesse para decidir seria de última hora, deixaria levar-se pelo impulso.

Entraram no saguão e se depararam com um grande número de alunos descendo as escadas e caminhando em direção ao grande salão de Avalon.

As três mesas dispostas paralelamente e contornadas por um belo tapete azul, archotes pendurados nas paredes e lustres flamejantes que pendiam do teto, como se fossem bolas de fogo colorida presas por fios, iluminavam o salão, que começava a escurecer devido ao aumento considerável das nuvens de chuva do lado de fora.

Quando a chuva começou a cair, Kal, Ralph e Guinevere já estavam devidamente acomodados na mesa correspondente a Tadewi. Na mesa dos professores, o diretor de Avalon, Cacius, ergueu uma taça indicando que o almoço deveria começar.

Kal estendeu um garfo até uma bandeja com pernil e quando trouxe a boca percebeu que havia pegado um bilhete. Abriu e leu. O bilhete havia sido enviado por Rômulo, que insistia em saber a decisão do garoto. O presidente do conselho esperaria até o fim do almoço. Kal olhou para Rômulo no lado oposto do salão e o garoto repetiu o gesto de Cacius erguendo uma taça.

- Qual é o problema Kal? – perguntou Guine.

- Nenhum. – respondeu de imediato.

- Parece tenso. – comentou Ralph.

Kal voltou ao seu almoço. Serviu-se de mais carne, um pouco de salada, arroz e feijão. Mesmo enquanto comia não parava de girar em sua cabeça a idéia de aceitar a proposta de Rômulo. Não era uma decisão fácil de ser tomada. De um lado estavam seus melhores amigos e seu irmão. Do outro o grande conhecimento mágico e a posição que Kal ganharia na escola. Se sua resposta fosse positiva ele teria que passar boa parte do seu tempo livre com os alunos de Katzin, membros do conselho, o que implicava passar menos tempo com Ralph, Guine e Daimon. Caso recusasse a oferta continuaria sem conhecer os feitiços e encantos que estavam nos livros da sala de reuniões do Conselho Estudantil.

- Definitivamente, você não está no seu estado normal. – disse Guinevere no fim do almoço.

- Eu estou bem! Juro. – mentiu Kal – É só...

- Meu amigo, Foster. Como vai essa força? – cumprimentou Rômulo.

- Que ridículo... – cochichou Ralph para Guine.

- Estamos esperando. Qual a sua decisão? – perguntou Rômulo.

- Decisão? – indagou Guine.

- Ele foi convidado para ocupar o posto de Guardião.

- Guardião de quê? – questionou Ralph.

- Guardião-mirim dos terrenos de Avalon. – esclareceu Rômulo – Agora vim saber. Aceita ou não, Foster?

- Estava pensando mesmo em aceitar e não nos contou nada? – questionou Guine.

Chegada a hora, Kal não tinha uma resposta definitiva. Ralph e Guine estavam de braços cruzados, um de cada lado, certamente esperando alguma explicação. Rômulo olhava de Kal para a mesa de Katzin entusiasmado. Em seguida os outros membros do Conselho Estudantil aproximaram-se.

Emanuela estava divinamente bela. Quando a garota chegou mais perto e apoiou-se nos fortes ombros de Rômulo, o cérebro de Kal debilmente processou:

- Aceito.

Um comentário:

Gustavo disse...

apartir de uma certa parte começa a repetir todo o capitulo + ou - na metade

Emanuela estava divinamente bela. Quando a garota chegou mais perto e apoiou-se nos fortes ombros de Rômulo, o cérebro de Kal debilmente processou:

- Aceito.

Continuaram subindo pelas escadas do castelo e quando chegaram ao terceiro piso avistaram um grupo de alunos sentados em poltronas grandes e vermelhas largadas pelo corredor. Um deles exclamou algo como, “os porcos de Tadewi”, levantando certa indignação nos três.

- O que você disse? – bravejou Kal.

- Ora, ora, se não é o Foster. – observou um deles.

- O que querem com a gente? – perguntou Kal em tom hostil.

- Uhu... – fizeram como se fossem fantasmas assustando uma pessoa.

- Valente o nosso amigo! Prazer, eu sou Rômulo Martins, presidente do Conselho Estudantil. - disse o garoto estendendo a mão para Kal.

- Kalevi Foster. – disse respondeu ao gesto – Estes são meus amigos, Guine...

comecei a ler ontem de noite e to gostande muito