quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O dia em que ele se foi

Ela estava impaciente àquele dia. Já fizera seis semanas desde que se mudara para aquela terra distante. Distante das batalhas sangrentas que eram travadas na lendária ilha de Hi Brazil. Queria poder estar lá, como queria...

Sentia que a pequena cabana improvisada que construíra no dia de sua chegada era um cômodo cárcere, porém, a verdade que doía em seu peito é a de que seu coração, pulsante e raivoso, era a pior de todas as celas.

Após os quatro primeiros dias, ela percebeu que seus prantos já não mais seriam atendidos, que não haveria quem enxugasse suas lágrimas e que a colocasse no colo para ampará-la. Decidiu estocar cada lágrima que ainda lhe restava para quando fosse feliz. Mesmo que isso lhe parecesse uma idéia muito vaga.

Na terceira semana, decidiu que seria seguro sair para olhar o sol e à noite, a lua. Sentir o vento tocar a cútis seca, sem brilho e envelhecida pela preocupação. Rugas se formavam naquele rosto jovem que não havia muito, irradiava extrema beleza. Os cabelos longos e enegrecidos caídos nas costas, agora pareciam chumaços de palha amontoados na cabeça. As roupas sempre tão limpas e cheirosas tinham um aspecto rústico após dias de solidão.

Não parecia haver magia que consertasse todos aqueles problemas, aquelas deformações. Não enquanto estivesse enclausurada. Não enquanto fosse prisioneira do seus sentimentos. Da sua culpa.

Quinze para meia-noite, avisava o pequeno relógio de madeira pendurado à parede. Ela começava a se misturar aos lençóis da própria cama, apalpando um travesseiro extra que substituía alguém ausente.

CLAC!

O coração dela pulsou forte ao ouvir aquele som familiar. De um só salto pôs-se de pé, a varinha em riste. Só uma pessoa sabia exatamente onde ela estava, e por mais que seu coração pedisse por esperanças, ela já as perdera ao longo das últimas seis semanas. Não teria motivos para ele ir até ela. Teria?

- Está aí? – perguntou uma voz masculina, do lado de fora, que a fez tremer encima dos joelhos.

- O q-q-que f-faz a-a-aqui? – perguntou ela, a voz falhando pela falta de uso.

- Aconteceu alguma? Parece assustada. Deixe-me entrar.

Reagiu por impulso, como se aquele “Deixe-me entrar” fosse, de fato, uma ordem.

Vaidosa, ela ainda tentou ajeitar os cabelos ressecados com algum feitiço conhecido, mas a emoção a impedira de fazer um bom trabalho.

- Não é porque está foragida que precisa se aparentar tão mal. – disse o homem sardonicamente.

Sem outra reação, ela jogou-se para cima do amado e tocou suas costas com um longo abraço, querendo dar mais valor aqueles segundos de amor do que as seis semanas de esquecimento.

- Senti sua falta. – disse ela, finalmente.

- É claro que eu senti também. – comentou ele, sua voz sincera, porém comedida – Como vocês passaram esses últimos dias?

Ela não queria falar dela mesma. Tivera tempo o suficiente para saber que a dor que sentira não era digna de lembrança ou comentários. Queria notícias.

- Por onde vocês estiveram? Não recebi uma notícia se quer.

- Estivemos lutando, claro. – respondeu ele, ainda curioso, analisando a mulher a sua frente – Desde a sua partida, as pessoas têm resistido mais.

- É verdade? – inquiriu, enquanto puxava cadeiras para os dois se sentarem próximos à mesa.

- Por certo. Eles entenderam de que lado você está e agora estão resistindo.

- Mas isso me custou a liberdade. – lamentou.

- Fiz bem em te mandar para cá. Não seria seguro você permanecer por lá. Não depois de ter abatido Aleixo e Mordento. Dizem que os dois eram os mais fiéis e antigos seguidores dele.

- Eu juro que não queria matá-los... juro. Mas não poderia permitir que ele se aproximasse de mim, não agora. – falou ela encarando, resignada, o pequeno quarto aonde dormia.

- Gostaria de poder estar presente. – lamentou o homem, encarando os próprios pés.

- Você tem o seu outro, não tem? Faça dele alguém feliz.

- Não diga essas coisas, por favor... – pediu o homem, levantando-se.

Ela sentiu que uma lágrima lhe escaparia, lembrou-se de sua promessa e a segurou com todas as forças.

- Você acha que ele ainda virá atrás de mim? – desviou o assunto.

- Já o teria feito se realmente quisesse. – tranqüilizou-a – Ele anda muito ocupado chefiando seu exército de criaturas mágicas.

- Ainda usam aquelas criaturas?

Por algum motivo ele soube exatamente do que ela falava.

- Sim. Pegaram Alicia Schimidel na semana passada. Todos lamentamos a morte dela.

- Não gosto daqueles olhos azuis perfurando a minha alma... eles realmente paralisam.

Ele deu mais algumas voltas pela pequena sala improvisada analisando o ambiente. Sacou a varinha e saiu realizando feitiços para consertar objetos quebrados e conjurar novos.

- Sua proteção tem servido bem. Ninguém pareceu tentar perfurá-la.

Ele sorriu vaidosamente.

- Enquanto eu viver, você estará segura aqui. E quando eu morrer... – fez uma pequena pausa – não haverá motivos para se esconder.

Quer fosse por gratidão, pena ou desespero comedido, ela sorriu.

- Posso dar uma olhada nela antes de ir?

- Claro... – respondeu a mulher, guiando-o para o pequeno quarto.

Logo ao lado da cama onde a pouco a mulher estivera deitada, estava um pequeno berço torto de madeira, coberto por um véu negro.

- Não tem me dado o menor trabalho. – disse ela erguendo o véu e revelando uma pequena criança com pouco mais de um ano de idade, dormindo em sono profundo, distante dos acontecimentos.

- Sinto tanto por não estar presente... – lamentou ele, com uma sinceridade marcante.

- Cuide do seu outro filho. Garner. Não foi esse o nome que o deram?

- Sim. – respondeu – Garner Foster, é o nome dele.

- Antes de ir... – disse ela se aproximando de uma cômoda e retirando de lá um objeto – Quero que leve isso.

- O que é?

Ela se aproximou do amado e colou nele um pequeno colar.

- Para lhe trazer sorte nas batalhas. – após isso deu-lhe um curto beijo.

- Eu te amo, Morgana.

- Também te amo, Foster.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desenho do Castelo de Avalon


Não sei quanto a curiosidade de vocês, mas resolvi postar um desenho muuuiiittooo antigo do castelo de Avalon que eu fiz. Dei uma pintada básica no photoshop só para ilustrar, mas é mais ou menos essa a idéia da escola de Kal Foster.


Abraços

sábado, 21 de junho de 2008

Lista de Feitiços do primeiro livro

Edjipto – feitiço de limpeza.

Sendart – dobra um pedaço de papel em formato de avião e o envia para alguém.

Pedrusco – conjura uma pedra.

Scringer Secret Schoupan – versão poderosa do Opandor.

Bolhasradiant – cria bolhas de luz.

Guives – interrompe o Bolhasradiant e espoca as bolhas que já saíram.

Levitoriano – faz objetos flutuarem.

Concertûnia – repara objetos.

Lonvy (maldição das fadas) – deixa a pessoa sem senso de direção.

Fículous (maldição das fadas) – impede que a fada minta quando está sozinha.

Planta Exander – faz a planta adormecer.

Lumier – ilumina a planta.

Farfalha – atira estilhaços no inimigo.

Escaparta – dispara um filete azul.

Amstãnder – um raio elétrico.

Mórfinus – faz a pessoa dormir.

Opandor – abre trancas.

Eixo – fecha trancas.

Efesto – fogo

Inflamiun – fogo 2

Sedructos – maldição da morte

Morgora Nãltis – feitiço da morte

Dracóvia – oposto ao Lumier.

Horbário Obedientis – invoca a Herviana.

Obéverno – feitiço de transformação.

Griamen – revitalizar.

Cefalotúrgia – transforma cabeças em balões.

Corparo – revitalizar.

Réplica – repele ataque.

Dunkel – maldição da transfiguração.

Linglesingle – maldição da voz cantarolante.

Fétida – fumaça marrom fedorenta.

Revelarbus – invoca o Enid.

Lócus Amenus – cancela qualquer feitiço.

Pelínculo – feitiço sinalizador.

Morgáide – feitiço do clima.

Ediagrom – contra-feitiço do clima.

Aprumus – feitiço usado por Kal e CIA durante “O desafio do Amaldiçoado”.

Perpétuo – Feitiço que gera uma grande força com a destruição do Enid

domingo, 4 de maio de 2008

Capítulo 2 - A casa Foster

Araçá era um pequeno bairro residencial de Anomatí, uma cidade no interior do sul do Brasil. No interior do bairro, a Rua Guaçuí se estendia de uma pequena praça com brinquedos até um sobrado que tinha em seu quintal uma lagoa de águas esverdeadas. As casas tinham formas e tamanhos variados, algumas com apenas o andar térreo e outras que chegavam até o terceiro andar. Todos os dias de manhã, os moradores da levantavam-se bem cedo, abriam suas portas e janelas, colocavam seus carros modernos para fora, levantando uma massa cinzenta de fumaça que empestava toda a rua. Depois de feito este ritual diário, eles enfurnavam-se em ternos ou vestidos longos, enfiavam-se nos carros e saiam para o trabalho no centro da cidade.

Em quase todas as casas esta era a rotina. Mas não na casa número vinte e dois.

Os moradores da Rua Guaçuí ainda tentavam se acostumar com o estilo de vida dos novos vizinhos. As três crianças raramente saiam do quintal da casa que era cercado com um muro alto e bem gradeado. A mãe delas não trocava palavras com os vizinhos, eles nem ao menos sabiam exatamente o seu nome e porque haviam se mudado para aquele bairro tão isolado.

No dia da mudança, alguns deles se ofereceram para ajudar a carregar umas caixas pesadas, já que seria impossível três crianças e uma mulher levantá-las sozinhas, mesmo assim, relutante, a mulher agradeceu e dispensou toda a ajuda.

- Mal educada. – disseram eles.

Após um dia inteiro de entra e sai de caixas, a nova família trancou a porta da frente e fechou as cortinas dos dois andares da casa, que não era tão grande, mas suficiente para abrigar as quatro pessoas. O jardim havia sido decorado com pequenos anões, que segundo souberam os vizinhos, haviam sido um presente de uma amiga da região do Amazonas, e algumas margaridas e tulipas que estranhamente os moradores da casa queixavam-se porque elas não estavam se movendo. Sem dúvida alguma era a família mais esquisita que já residira em Araçá.

Talvez, a única casa que pudesse se igualar aos vizinhos do número vinte e dois fosse a da velha senhora que residia no número dezessete. Enquanto todos os moradores de Rua Guaçuí expunham-se em público para conversar, a senhora de cabelos brancos e de pele flácida, fazia de sua casa sua grande fortaleza anti-social.

No segundo dia da mudança, os Almeida, moradores do número vinte e um, levaram um bolo de boas vindas aos novos vizinhos, um menino de cabelos e olhos castanhos colocou o rosto para fora do portão, estendeu um dos braços para receber o presente, agradeceu rapidamente e em seguida trancou o portão sem nem mais uma palavra.

- Que gente esquisita. – disseram.

No terceiro fim de semana desde a chegada da família ao bairro, eles receberam sua primeira visita. Um velho senhor de olhos bem azuis, com a cabeça quase careca, porém com algumas tranças desalinhadas que lhe batiam abaixo dos ombros e uma barba quase tão longa que seria possível amarra-la ao cinto que segurava sua calça marrom lama.

- Bom dia. – cumprimentava ele aos moradores que lhe encaravam curiosos.

Certamente se poderia haver tipo mais esquisito de pessoa que os moradores do número vinte e dois, com toda certeza seria este estranho senhor.

- Bom... bom dia... – responderam alguns somente por educação.

O velhote seguiu rua acima até chegar ao portão, então chamou pela dona da casa.

- Sra. Foster!

Como se estivesse esperando pela visita, a mulher, imediatamente, colocou o rosto na janela e disse:

- Oh, bom dia Prof. Cacius. Queira entrar, por favor.

A trava elétrica do portão estalou e este imediatamente se abriu para receber o visitante. O homem sorriu e deu bom dia para os anões de jardins enquanto caminhava em direção à pequena varanda de entrada. No meio do caminho, Cacius foi surpreendido por um gato de pelo laranja e estranhamente o homem respondeu.

- Bom dia, Fred.

Os moradores olharam-se curiosos e então sacudiram a cabeça e foram para seus lares certos de que já haviam visto de tudo.

Alexia Almeida pegou sua vassoura de piaçava e saiu sacudindo até a porta de entrada de sua casa para espantar os pombos que se alimentavam de migalhas de pão caídas pela calçada.

- Malditas aves! Malditas aves! – resmungou.

- Esta rua está parecendo um zoológico! – resmungou junto seu marido.

Era verdade. Após a mudança da família Foster, a Rua Guaçuí recebeu um considerável contingente de animais que passaram a perturbar toda a vizinhança. Eram pombos em todas as calçadas, cachorros latindo e uivando, gatos que andavam pelos telhados à noite e ratos que percorriam todas as casas, atravessando cozinhas e salas a qualquer hora do dia como se nada os incomodasse.

Os únicos simpatizantes da família Foster eram, ironicamente, seus vizinhos mais distantes, os Chiabai. O casal Mara e Alexandre e sua filha de treze anos, Sara, haviam indicado aos Foster onde era a sua nova casa assim que chegaram ao bairro. Naquele mesmo dia, Amanda havia feito um convite para que, num sábado, eles fossem almoçar em sua recém inaugurada casa. Passaram-se dois finais de semana e os Chiabai ainda não tinham se apresentado para o tal almoço, mas, ao que parecia, os próprios Foster também haviam esquecido, ou não se importado.

Ao término do primeiro mês, os vizinhos começaram a reclamar que as lâmpadas dos postes não duravam mais do que uma noite sem queimarem. E a companhia de luz passou a ter que trocá-las quase que diariamente. Certa vez, um vigia foi contratado para descobrir quem estava queimando as lâmpadas, ele passou a noite inteira perambulando pela rua para apanhar o vândalo, mas ao invés disto, surpreendeu-se ao ver que a casa dos Foster parecia abrigar uma boate. Luzes coloridas piscavam por todos os cômodos da casa e barulhos estranhos como chicotadas e tambores ruíam pelo jardim. O vigia estava estático olhando aquela cena, pensou em tocar a campainha e perguntar se estava tudo bem por lá.

No momento em que se decidiu por fazer isso, as luzes da rua começaram a piscar freneticamente atraindo a atenção do homem que deixou os braços caírem sobre as pernas e a boca abriu-se quase que automaticamente. Foi um piscar incessante até que finalmente todas as luzes se apagaram de uma só vez, deixando a Rua Guaçuí completamente mergulhada em sombras.

Na manhã seguinte, mais uma vez, a companhia de luz e energia veio fazer a troca das lâmpadas, no momento em que o velho homem de tranças atravessava a rua, a pé, para visitar mais uma vez a família Foster.

- Bom dia, senhor. – cumprimentou Alexia Almeida que já se acostumara com a figura do visitante.

- Bom dia, senhora. – disse gentilmente – Sabe me dizer se a sra. Foster está em casa hoje?

- Com certeza sim. – respondeu a mulher – Ninguém sai daquela casa, senhor.

- Eles sofreram muito nestes últimos meses...

- Como assim? – perguntou a mulher debruçando-se sobre o seu muro.

- Outra hora, talvez. – falou ele sorrindo.

- Tenha um bom dia.

- Igualmente.

Cacius atravessou a rua em direção ao número vinte dois que, para sua surpresa, encontrou o portão destrancado.

- Estou entrando. – anunciou – Bom dia! – disse para os anões, como era de costume fazer.

- Oh, estávamos esperando pelo senhor, Prof. Cacius. – disse Amanda, que surgira em uma das janelas da frente – Fiz uns bolinhos.

- Fico grato. E os meninos? Como estão?

- Superando, eu diria. Kalevi sentiu mais com a perda, mas acho que ele consegue.

- Tenho certeza. Tenho certeza. Você tem filhos muito corajosos.

Amanda permitiu-se um pequeno sorriso de orgulho, mas ainda assim não parecia muito contente.

- Professor, o que está acontecendo no mundo... no mundo...

- No mundo mágico? – completou Cacius olhando em volta – Acho que ninguém pode nos ouvir aí dentro.

- Certo. – concordou ela acompanhando o professor até a entrada da casa através da pequena varanda – Mas o que está havendo lá? Os guardas sumiram. Não há mais pombos, gatos, cachorros ou ratos. Ninguém está vigiando a rua. Estou com medo.

- Não há com o que se preocupar. – falou Cacius já fora do alcance de ouvidos curiosos – Bem, eu posso oferecer proteção em quanto eles não voltam.

- Mas por que eles foram embora então? O Governo desistiu de nos proteger?

- Não exatamente sra. Foster...

- Mamãe quem est...

- Olá, Kal. Há quanto tempo. – saudou Cacius.

- Olá, professor. – cumprimentou secamente – Desculpe, agora tenho que ir.

O garoto saiu pela porta da frente correndo em direção à rua, sua mãe em seus calcanhares.

- Não vá longe, Kalevi Foster!

- Deixe-o. Tenho certeza de que estará seguro...

Esta foi a última frase de Cacius que Kal pôde ouvir. O garoto vazou pelo portão de entrada e desceu a rua em direção à praça, sem destino exato. A companhia de luz ainda estava fazendo o serviço de troca das lâmpadas e alguns moradores estavam acompanhando o trabalho dos operários e conversando.

Kal passou por eles sem ao menos notá-los, mas eles repararam bem o menino. Era a primeira vez que um dos Foster colocava os pés fora de casa, e este parecia estar afoito para fazer isto, porque correu loucamente como se tivesse ganhado a liberdade de uma prisão. Kal Foster estava com um jeans desbotado e uma camisa de manga cumprida um pouco mais larga do que deveria ser. Aparentemente sua mãe havia se distraído na compra e escolhera uma um número maior.

- Você ouviu a sua mãe! Não vá muito longe! – disse Alexia quase que correndo atrás dele como uma dama de companhia que fora largada para trás.

- Não use a varinha, não use a varinha... – falou entre os dentes de modo que ninguém pudesse ouvi-lo.

Kal não estava se acostumando muito bem ao novo estilo de vida que lhe fora imposto. Não usar a varinha durante o dia, não poder brincar de duelo com Daimon e Guinevere, enfim, não fazer nada para chamar a atenção dos outros moradores. Nestas horas, Kal sentia saudades dos resmungos e implicâncias dos moradores de Vila da Cachoeira, pelo menos, lá, ele poderia agir de maneira natural.

Em Avalon, a escola de magia que Kal estudara no ano anterior, ele havia aprendido diversos feitiços, os quais planejava colocar em prática assim que retornasse para casa. Mas isto agora parecia impraticável. Sua nova casa estava cercada de guardas de Warren muito bem disfarçados de animais e sua mãe não abria uma brecha para diversão. Mas naquela manhã, Kal Foster havia planejado tudo muito bem. Assim que ouvisse Cacius chegar em sua casa para conversar com Amanda, ele passaria pelos dois em disparada e sairia, finalmente, do número vinte e dois.

A praça no final da rua não tinha muito mais que alguns canteiros de flores, algumas gramíneas e um pequeno playground com escorregador e balanço. O lugar estava deserto àquela hora do dia, ao que parecia, não havia muitas crianças na Rua Guaçuí e os adultos que não estavam trabalhando estavam observando o interessante trocar de lâmpadas.

Kal aproximou-se de um dos balanços e sentou-se. Ficou a olhar para a praça à procura de algo móvel com que pudesse se distrair, mas não encontrou nem mesmo uma formiga. Mas para sua surpresa ele ouviu atrás de si uma voz feminina e aveludada que desconcertou seus pensamentos.

- Olá.

Kal virou-se para examinar quem seria e contemplou aquele rosto de pele clara e cabelos bem enegrecidos e alisados, lábios rosados, nariz fino e olhos verde vivo. Ele sentiu que conhecia a garota, mas em sua mente ela o lembrava uma garota por quem se apaixonara em Avalon, Emanuela Goldemberg, no entanto Emanuela era loira e tinha os olhos bem azuis.

- Olá... – respondeu ele timidamente.

- Posso me sentar? – perguntou ela segurando um balanço ao lado de Kal.

- Claro.

- O que está fazendo aqui?

Ele olhou para as pessoas da companhia de luz, deu uma pequena risada e voltou à garota.

- Não acho um passatempo divertido assistir a troca de lâmpadas. – comentou.

A garota deu sorrisinho e então disse.

- Qual o seu nome?

- Kalevi Foster. – a garota eriçou as sobrancelhas, talvez assustada com a espontaneidade que ele demonstrara ao dizer o nome por completo – E o seu? – perguntou tentando se redimir.

- Sara. Sara Chiabai, já que você gosta assim.

Agora era a vez de Kal levantar às sobrancelhas incomodado com alguma coisa.

- Vocês nos mostraram nossa casa assim que chegamos na rua, não foi?

- Exatamente. Mas só não entendemos como não sabiam onde era a própria casa. Quero dizer... as pessoas olham as casas antes de comprá-las, não é?

- É que... é que... foi uma herança.

- Ah... e vocês moravam onde?

- Morávamos no Centro-Oeste do país.

- Goiás, Mato Grosso...?

- Pode ser... – disse Kal sem saber na verdade qual era o estado em que morava. Os bruxos não ligavam muito para a geografia dos humanos não mágicos.

Sara permaneceu curiosa, mas decidiu não perguntar mais nada sobre a antiga casa de Kal.

- Você mora aqui há muito tempo? – perguntou.

- Sim. Meus pais trabalham no centro da cidade e eu estudo no colégio do bairro. A propósito, você vai se matricular aonde?

- Hã... é...

- Ainda não decidiram?

- Acho que vou permanecer na minha antiga escola.

- Na Região Centro-Oeste?

- Não. Ela fica no Amazonas. No meio da... – Kal ponderou sobre o que ia dizer, estava se expondo demais, por um triz ele não dissera que sua escola ficava no meio da Floresta Amazônica, sobre uma nuvem, acima de uma cidade cheia de elfos, fadas e outras criaturas mágicas – No meio da capital.

- Oh sim... – disse ela achando que Kal tinha algum tipo de problema – Você tem irmãos não tem?

- Sim. Na verdade apenas o Daimon é meu irmão. Guinevere mora com a gente desde que os pais dela morreram, já faz um bom tempo isto.

- Vocês não gostam muito de se expor, não é?

- Aconteceram muitas coisas...

- Que coisas?

- Coisas difíceis de explicar... perdas, na verdade.

- Desculpe. – falou ela percebendo que estava entrando em um assunto delicado.

- Ainda estamos superando...

Sara permaneceu em silêncio, seu estoque de perguntas pareceu ter acabado após descobrir que os Foster estavam passando por um problema familiar um pouco mais grave do que as pessoas da rua comentavam.

- Coisas estranhas têm acontecido, não é? – disse ele.

- Defina estranho.

- Lâmpadas queimando, animais por toda à parte... a rua é sempre tão animada? – fingiu.

- Na verdade. – falou ela, pausadamente – Essas coisas começaram a acontecer depois que vocês se mudaram.

- Sério? – perguntou ele quase que convencido de que não sabia de nada a respeito.

- É o que as pessoas comentam.

- Incluindo você e seus pais?

- Não. Não nos intrometemos na vida das pessoas. Mas existem algumas pessoas por aqui que gostam de se preocupar com os outros. Bom dia, dona Alexia! – cumprimentou à mulher que disfarçadamente varria a calçada da esquina da rua – A frente já foi varrida hoje senhora!

- O que ela está fazendo ali? Aquela não é a sua casa? – perguntou Kal.

- Exatamente. Dona Alexia tem o péssimo hábito de ouvir a conversa alheia.

- Acho que entendo. – falou ele.

Neste momento Kal observou que Cacius saia de sua casa e começava a caminhar pela rua. Ele não sabia ao certo como o diretor chegava à Anomatí.

Talvez ele esfumace em um beco ou banheiro público. Pensou.

Kal observou Cacius descer a rua, pensou que talvez o professor iria até ele assim que passasse pela praça e imediatamente Kal planejou continuar a conversa com Sara para que pudesse disfarçar e fingir que não o notara. Kal Foster não estava com raiva ou rancor de Cacius. Os dois deram-se muito bem no ano anterior, na verdade. Cacius agira mais como um bom amigo do que como um professor, em Avalon, ele aconselhou e apoiou o garoto em situações difíceis e após a morte de seu pai, Adonis Foster, Cacius contara a Kal alguns segredos sobre Kricolas e o Livro de Merlin. Tornara-o seu confidente. Mesmo assim ele ainda sentia-se magoado porque Cacius aparecera minutos depois de Kricolas ter matado Adonis. Ele imaginava que se o professor tivesse aparecido mais cedo, talvez, os Foster ainda estivessem juntos em Vila da Cachoeira e não tivessem que se esconder tanto das forças malignas do meio-vampiro.

- Desculpe-me por eu estar fazendo outra pergunta, não quero que pense que sou como a Alexia. Mas quem é aquele senhor que vai até a sua casa todos os fins de semana?

- Um amigo da família. – respondeu Kal sorrindo.

- Ele parece ser uma boa pessoa. Parece ser um senhor calmo.

- Às vezes até demais. – falou Kal lembrando-se do ar sereno que Cacius mantinha em todas as ocasiões, por mais sérias e desesperadoras que sejam.

- Olhe, ele está conversando com os moradores.

Kal olhou para Cacius de imediato. Sara estava correta. O bruxo mais respeitado do Brasil, e provavelmente o melhor, estava parado diante um poste de luz a observar o serviço dos operários, como faziam os demais ao redor. Kal percebeu que se quisesse evitar Cacius aquela era a melhor hora de voltar para casa. Passaria despercebido pelo professor, que aparentava estar muito distraído e interessado pela curiosa técnica de se trocar lâmpadas de poste.

- Desculpe, Sara. – falou Kal olhando fixamente para a garota – Tenho que ir para casa.

- Tudo bem. – respondeu satisfeita – Vejo você depois?

- Ah... ah claro. – falou ele embaralhado – Você e seus pais ainda nos devem uma visita.

- Apareceremos em breve. – falou ela sem muita confiança no que dizia.

- Por que não vão jantar lá hoje? – sugeriu Kal sem nem ao menos pensar. Ele só percebera o que disse depois de as palavras já terem escapulido de sua língua.

- Sua mãe sabe deste convite? – perguntou ela.

- Oh, claro. Claro que sim. Na verdade eu vim justamente fazer o convite a vocês, mas vi que não tinha ninguém em casa e resolvi esperar aqui. – mentiu. Percebendo estar ficando bom em fazer isto.

- Tudo bem então. Vou dizer aos meus pais assim que eles chegarem do almoço.

- Se quiser... Pode levar alguém que seja especial para você também... – falou ele investigando.

- Oh, acho que... acho que não tenho ninguém em especial...

- Ok. Vejo você mais tarde então. É... então é isso. Até mais.

Kal virou o rosto antes mesmo que começasse a ficar vermelho, tinha certeza de que ela o acharia um idiota se isto acontecesse. Ele quis correr, mas também achou que os garotos não correm quando se despedem de uma garota. Ainda mais uma garota por quem se está desenvolvendo uma amizade.

Amizade, decididamente é isto. Disse Kal mentalmente.

Ele seguiu caminho com passos apertados, em certos momentos achou que iria tropeçar, mas, finalmente, conseguiu sair da praça e passar por Cacius, que estava tão entretido com o processo de troca das lâmpadas que nem ao menos o notou, ou pelo menos fingiu não ter notado.

Em casa, Amanda estava na cozinha sendo ajudada por Guinevere a fazer o almoço, uma das duas, Kal não distinguiu qual – a voz delas eram muito parecidas –, queixou-se de que não usar magia atrasava muito o serviço. Daimon estava na sala tentando ligar a televisão, que por vezes dera problema, assim como todos os eletrodomésticos da casa. Em sua primeira visita aos Foster, Cacius dissera que eles sofreriam com um problema chamado de radioestesia, que era causado quando há muita magia em determinado ambiente, tudo que utiliza energia elétrica sofre forte interferência mágica e entra em curto circuito. Este era o motivo real para as lâmpadas dos postes estarem queimando todas as noites. A magia irradiada pela casa deles gerava uma forte interferência nos postes que piscavam até que finalmente queimassem. Cacius explicou os eletrodomésticos funcionavam como copos de água cheios até a borda. E que utilizar magia perto destes objetos seria o equivalente a colocar mais água no copo. Quando ele transborda significa que o aparelho entrou em curto.

A nova casa dos Foster não era nem um pouco parecida com a mansão em que estavam acostumados a morar, onde Kal nasceu, literalmente dizendo, e onde passou sua turbulenta infância. Ao entrar na sala pela varanda da frente, chegava-se à sala, virando para a esquerda estavam a cozinha e copa, de onde Amanda e Guinevere estavam, e atravessando a sala passando ao lado da escada para o segundo andar estava um confortável banheiro. No segundo andar havia três quartos e um corredor. A casa era pintada de branca e o piso de alvenaria da mesma cor, que Amanda fazia questão de manter sempre limpo, mesmo que nunca ninguém o sujasse, ela insistia em limpá-lo, talvez para passar o tempo.

- Mamãe, temos visita para o jantar. – disse Kal enquanto subia as escadas para o segundo andar.

- Como assim? – perguntou ela vindo com um pano de prato enxugando as mãos.

Kal olhou para os lados, Daimon levantara-se do sofá e parou para fixar o olhar em Kal, assim como Guinevere fez em seguida.

- Os Chiabai, lembra?

- Kalevi, você deveria ter me consultado primeiro. Não sei se podemos recebê-los agora...

- Eu acho uma ótima idéia. – disse Cacius que acabara de abrir a porta.

- Professor... o senhor tem... certeza?

- Sim, por que não sra. Foster?

- Não sei, talvez não seja prudente... acho que não nos acostumamos muito bem com a situação...

- Pois eu acho que vocês já estão bem acostumados. – opinou.

- As lâmpadas da casa vivem piscando por causa da radioestesia, se ainda fosse de dia... não sei se vai ser uma boa idéia...

- Não se preocupe. Vamos dar um ótimo jantar.

- Obrigada, professor.

- O senhor está se convidando? – perguntou Kal indiscretamente.

- Kalevi Foster, não seja indelicado.

- Não faz mal Amanda. Não faz mal. Nós realmente não explicamos aos garotos a situação.

- Certo, professor. Meninos, venham até a cozinha aqui comigo.

- Amanda, se me permite, poderia eu mesmo dizer isto ao Kal?

Ela deu de ombros e então seguiu para a cozinha com Daimon e Guinevere. Cacius acompanhou com o olhar os três até que finalmente haviam desaparecido de sua vista, então se voltou a Kal.

- É algo difícil de se resumir. É muito mais significante do que podemos imaginar.

- Desculpe, mas eu vou subir.

- Eu lhe acompanho. – insistiu o professor.

Kal terminou de subir os degraus até o segundo andar e seguiu caminho pelo pequeno corredor até o seu quarto, no fundo estava curioso para saber o que Cacius queria dizer-lhe. Sentia vontade de abraçá-lo e chorar a morte de seu pai, contudo ainda assim queria culpá-lo por tudo aquilo estar acontecendo. Queria dizer que ele deveria ter detido Kricolas assim que chegou na Cidade dos Elfos disfarçado de Nicolas Weny, que deveria ter protegido melhor o Livro de Merlin, que deveria ter encontrado a Página Perdia antes de Kricolas e que deveria ter feito tantas outras coisas para impedir que Adonis morresse.

- Não adianta me culpar, Kal. – falou Cacius e Kal percebeu que o professor estava lendo seus pensamentos, porque os grandes bruxos têm habilidades para fazer isto.

- É costume seu espiar o que as pessoas estão pensando? – perguntou ele deitando em sua cama e passou a jogar uma bolinha de tênis para cima.

- Não preciso ler seus pensamentos para saber que você está me condenando aí dentro. – retrucou o professor com sutileza – Eu gostava tanto de Adonis quanto você, Kal.

- Mas não sente tanto a falta dele como eu. – disse, parando de brincar com a bola e olhando para o professor com um olhar cortante e gélido, cheio de rancor.

- Você ainda tem sua mãe, seu irmão, seus amigos. Várias pessoas já passaram pelo que você está passando agora. E todas elas cometeram o mesmo erro que você está cometendo. Culpar alguém inocente.

Kal sentou-se em sua cama e ele olhou para fora, viu o reflexo do lago em toda a sua serenidade. Se existisse algo mais calmo, com certeza este era Cacius.

- As pessoas que sofrem perdas graves procuram uma válvula de escape para que possam drenar todo o seu rancor. E acho que infelizmente eu sou a sua válvula.

Kal desviava do olhar do professor fingindo estar intrigado com algo em cima do guarda roupas de quatro portas a sua frente.

- Isto não vai adiantar. – insistiu o professor.

O garoto mantinha-se concentrado na difícil tarefa de ignorá-lo. Cacius não era o tipo de pessoa que abria a boca a todo instante e quando fazia isto, merecia toda a atenção possível.

- Me culpar não trará seu pai de volta, Kal.

- E o que trará? – perguntou ele virando-se para frente da cama de Daimon onde o professor estava parado, de pé.

- Não há como... sinto muito...

- Sempre há uma maneira.

- Bem que eu queria, Kal. Não só por Adonis. Esta semana Kricolas matou outro amigo.

Kal olhou curioso para o professor, não ouvira nada sobre o assunto. Geralmente os guardas de Warren que os protegiam informavam-lhes o que estava acontecendo pelo país, alguns deles conseguiam edições do Folha Mágica, o jornal mais popular entre os bruxos, mas talvez esta nova morte estivesse relacionada com o fato dos guardas terem subitamente desaparecido da Rua Guaçuí.

- O que houve, afinal? – perguntou Kal olhando fixamente para Cacius.

- Algo trágico aconteceu com Mardo.

- Kricolas matou o Ministro da Defesa e Segurança Mágica? – espantou-se o garoto.

- Não sei se matar é exatamente a palavra, talvez com mais calma eu pudesse lhe usar outro verbo, – Cacius tinha uma voz pesada quase como se ela estivesse sendo empurrada garganta acima – mas sim, Mardo está morto.

- Por que ele fez isto?

- Não saberia responder a esta pergunta. Há mais coisas na mente de Kricolas do que poderíamos entender.

- Professor. – chamou Kal e Cacius sentiu-se aliviado ao perceber que a raiva do garoto estava se esvaindo – No ano passado eu perguntei ao senhor quanto tempo Kricolas demoraria em traduzir todo o Livro de Merlin.

- E eu lhe disse que era impossível fazer esta previsão.

Kal assentiu.

- Continuo tendo a mesma opinião, se quer saber.

- O senhor já leu o livro? – perguntou Kal, com interesse.

- Algumas partes. A complexidade do livro não é verdadeira.

- Como assim?

- Isto depende de quem o lê.

- Quer dizer que...

- Quero dizer que o Livro de Merlin arma um labirinto para aquele que não têm boas intenções. Isto acontece com a maioria dos objetos criados por magia do bem.

Kal achou este detalhe de magia do bem algo bobo, mas no fundo agradecia por ela existir e ser precavida o suficiente para que os segredos mágicos mais poderosos do mundo não caiam em mãos erradas.

- Isto impedirá Kricolas?

- Esta é outra previsão impossível. Para um bruxo comum, o fato de a magia do bem estar contida no livro é o suficiente para que ele não entenda nem mesmo o significado da existência do referido objeto. Contudo, tratando-se de Kricolas, bem, ele é o bruxo mais velho do mundo, certamente, e tem muita experiência. É como eu já havia lhe dito, nós não sabemos quais os limites de seu conhecimento. Encontrar o Livro de Merlin sozinho foi uma verdadeira prova de sabedoria. A magia que protegia o livro também era magia do bem, e ele conseguiu burlá-la.

- Entendo... então os guardas de Warren foram prestar uma última homenagem ao seu ministro? É isso?

- Não teria explicado melhor. – falou Cacius simploriamente.

- Professor Cacius, tia Amanda pediu para chamá-lo para almoçar. – disse Guinevere ao colocar a cabeça para dentro do quarto.

- Oh, sim, minha querida. Creio que eu e Kal já tenhamos conversado bastante.

Quando Cacius preparava-se para sumir no corredor ele foi interrompido pelo som da voz de Kal.

- Professor, desculpe-me e... obrigado também.

Cacius sorriu para o garoto e deu uma piscadela com um de seus brilhantes olhos azuis, como se dissesse “sem ressentimentos”.

- Senti pena do ministro... – comentou Guinevere sentando-se na cama de Daimon.

- Eu também. É sempre uma pena. – falou Kal.

Guinevere era uma garota muito bonita e que se assemelhava muito à Amanda em alguns aspectos, mas a mãe de Kal tinha os cabelos negros e olhos azuis, enquanto Guinevere tinha os cabelos castanhos e olhos esverdeados, porém o jeito, a maneira de falar e a meiguice eram idênticas. Ela fora morar com os Foster quando ainda tinha seis anos, logo após a perda dos pais, que também haviam sido mortos por Kricolas em sua fuga de Warren.

- É doloroso, não é? – indagou a garota – Perder uma pessoa tão importante.

- Sim... – disse ele sabendo que Guinevere referia-se a Adonis agora.

- Eu perdi meus pais, e agora o tio Adonis...

- Pelo mesmo assassino.

- Ele vai pagar.

- Isso eu te garanto. Ele vai pagar sim.

Durante o almoço eles retornaram o assunto sobre o jantar com os Chiabai. Cacius convencera Amanda de que aquela era uma boa oportunidade para eles se entrosarem com a nova vizinhança, e que seria importante para ela fazer algumas amizades, de forma que tivesse com quem conversar quando Kal, Daimon e Guinevere retornassem à Avalon.

Já convencida, Amanda pediu algumas sugestões de pratos para impressionar os Chiabai com uma boa comida, Kal, Daimon e Guinevere sugeriram pizza, haviam viciado desde que comeram uma de presunto no dia da mudança, mas Amanda não achou que seria muito prudente. No final do almoço ela já estava muito empolgada com os visitantes, e ordenou que os meninos arrumassem a casa enquanto ela e Guinevere se viravam na cozinha para preparar o jantar.

Cacius despediu-se de Amanda, Kal, Daimon e Guinevere logo após o almoço dizendo que deveria se encontrar com alguns outros bruxos do governo, porém antes disso providenciaria um outro grupo de guardas para protegê-los, já que não poderia fazer este serviço por muito tempo. Amanda perguntou se ele estaria para o jantar, mas ele não foi muito preciso em sua resposta, ainda assim os quatro ficaram esperançosos de que o professor pudesse voltar a tempo para ajudá-los com a recepção.

Aquela seria a primeira visita não mágica que a família Foster receberia e eles não estavam muito certos de como agir, do que preparar ou dos assuntos que deveriam ser desenvolvidos durante a noite. Cacius sugeriu então que um deles fosse a uma banca de revistas próxima e comprasse alguns exemplares para que eles pudessem conhecer melhor o universo não mágico. Amanda apenas levantou o dedo num estalo e apenas disse:

- Ótima idéia.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Imagem de divulgação

sábado, 22 de março de 2008

O Castelo de Avalon

Construído por Merlin, com alguma ajuda de Foster e outros bruxos da época, o castelo foi edificado em cima das nuvens de Cidade dos Elfos no momento em que a magia passou a ser mal vista pelos humanos não-mágicos.

Assim, Avalon passou a ser um lugar onde os bruxos poderiam praticar suas feitiçarias sem medo de retaliações.

Avalon é um nome comum na história de Merlin. Ele construiu várias outras, como a britânica, onde, supostamente, hoje é Glastonbury.

Várias histórias cercam Merlin, como o seu suposto envolvimento amoroso com Viviane, porém nenhuma delas é confirmada e provada pela história.

Alguns ambientes do castelo:

Primeiro andar – Sala de Clerigologia; Sala de Poções

Segundo andar – Sala de Feitiços (Roberta Skinger)

Terceiro andar – Salão de Katzin; Sala de Geomagia; Sala de Maldições; Sala de Feitiços (Tirso); Sala de Biomagia;

Quarto andar – Sala de Línguas; Enfermaria; Sala de Artefatos Mágicos

Quinto andar – Sala de aula de História; Salão de Tadewi; Diretoria

Sexto andar – Sala do Conselho Estudantil; Sala de Adivinhação

Torre do Sino – ponto mais alto da escola

quarta-feira, 12 de março de 2008

O passado de Amanda Foster

Amanda Jude Foster, nasceu na cidade de Aracruz – ES, em 1968, onde passou os doze primeiros anos da sua vida morando com os pais em uma área afastada da sede. De família humilde, Amanda estudou em casa e aprendeu noções básicas de magia com seus pais e a irmã mais velha, Lilith.

Aos treze anos, Amanda mudou-se para Cidade dos Elfos com uma bolsa de estudos para a Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon. Lá ela se formou em 1985, quando foi trabalhar na sede do Governo como Auxiliar Da Inquisição de Criaturas Mágicas, no nordeste do país. Durante um trabalho, conheceu o jovem Adonis Foster, com quem se casou anos mais tarde, dando origem a dois descendentes, o que jamais acontecera na família Foster.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Capítulo 1 - Kal Foster e o Mestre das Sombras

Para Mardo Runifer, o ministro da Defesa e Segurança Mágica, aquele dia fora o mais cansativo do mês de janeiro. Após as comemorações de natal e ano novo, todo o país parecera explodir em conflitos. Incidentes mágicos aconteciam por toda parte e o governo teve que dobrar o número de funcionários para inspecionar as cidades mágicas que a cada novo dia preocupavam-se menos em manter-se em segredo. Há mais de mil anos bruxos e não mágicos deixaram de viver juntos, os bruxos refugiaram-se em suas florestas, erguendo pequenas cidades protegidas por encantos de forma que nenhum humano não mágico pudesse descobrir sua existência.

Após a nova fuga de Kricolas, semanas antes, na Cidade dos Elfos, e o sepultamento de Adonis Foster, bruxos de todo o Brasil passaram a migrar para os países vizinhos em busca de proteção e apoio. Um número cada vez maior de pessoas anunciava ter visto carruagens voadoras e pessoas montadas em vassouras atravessando cidades inteiras. O Ministério do Segredo Mágico, responsável por manter secreta a existência de criaturas mágicas no Brasil, tentou contornar a situação enviando bruxos disfarçados de ufólogos. Eles se infiltravam na população destas cidades e espalhavam boatos sobre disco voadores e alienígenas. Em pouco tempo a situação foi controlada e as pessoas se convenceram de que não estavam vendo nada de mais, as carruagens voadoras na verdade eram “apenas aviões de teste”, pois era mais simples aceitar essa idéia que a de seres de outro mundo.

Com os humanos sob controle, o Governo, através do Ministério da Defesa e Segurança Mágica, alegou que ninguém corria riscos de permanecer no país e que não havia motivos para que as pessoas abandonassem suas casas. A fim de aliviar ainda mais as tensões, Mardo Runifer anunciou pelo jornal Folha Mágica, o maior tablóide mágico do país, que dois terços da Guarda Armada de Warren, soldados da maior penitenciária para bruxos e criaturas mágicas do país, estava fazendo rondas periódicas em busca de Kricolas e seus aliados, Elvira Lugunster e sua filha Tâmisa, que no ano anterior haviam contribuído para que o meio-vampiro roubasse o Livro de Merlin, o maior livro de magia do mundo e que fora escrito pelo próprio mago Merlin há quase mil anos.

Agora, o ministro Mardo chegava ao seu escritório exausto e louco para sentar-se em sua larga poltrona de espumas. A sede do Governo Mágico estava localizada entre os estados do nordeste do Brasil, onde nenhum humano seria capaz de chegar sem recorrer à magia. Escondido pela vegetação agreste e pela terra seca nordestina, o prédio de dois andares e de formato circular abrigava todas as repartições públicas e abrigava algumas salas particulares que eram alugadas para alguns empresários.

Mardo esfumaçara no corredor do segundo andar onde ficava sua sala, as luzes estavam apagadas, mesmo já sendo noite, e aparentemente todo o prédio estava vazio. Esfumaçar é a maneira mais prática de se deslocar de um lugar a outro para os bruxos, um tipo de teletransporte. Mardo arrastou sua pasta de couro embaixo do braço suado por causa do paletó marrom que trajava. A cabeça redonda e quase toda afetada pela calvície, suava a ponto de respingar no tapete vermelho estendido. Os últimos dias não haviam sido gentis com o ministro. “Muita pressão. Muita pressão”. Repetia ele.

Quando já se aproximava de seu destino viu que uma das salas no final do corredor à esquerda estava iluminada e decidiu ir até lá para espiar. Raramente alguém ficava no prédio depois das oito, mesmo em situações tão críticas. A única vez que isto acontecera fora há poucas semanas, no primeiro dia de trabalho do jovem Bernardo Mecflex, ou Escritor da Terra, como também era chamado.

- Quem diabos está naquela sala? – indagou-se Mardo quase enfurecido.

Não havia sons vindo de parte alguma e o corredor estava escuro quase que por completo, sua única fonte de luz era a da misteriosa sala.

- Algum funcionário irresponsável deve ter esquecido a lâmpada acesa. Estes incompetentes que me mandam. – bufou furioso – Nunca chegarão a lugar algum na vida, que desperdício de oxigênio, essa gente.

Em certo ponto a luz da sala se apagou e então Mardo soube que alguém estava ali ainda. Só não tinha idéia de quem poderia ser. Tateou no escuro enquanto procurava por sua varinha no bolso do paletó para iluminar o lugar. Sentiu-a entre os dedos, mas no momento em que ia sacar a varinha, deixou-a cair no chão. Bufando, abaixou-se para apanhá-la, assim que ergueu o gordo corpo para cima ele esbarrou em algum outro corpo fazendo-o desabar no chão num só baque.

Demonstrando uma agilidade tremenda, o ministro empunhou a varinha para frente, pronto para disparar o primeiro feitiço.

- Escap...

- Sou eu, ministro! – disse a pessoa que esbarrou em Mardo – Bolhasradiant!

Uma imagem quase espectral se conjurou na frente do ministro da Defesa e Segurança Mágica sob a fraca luz que incidia a sua frente.

- Dorian? – disse Mardo ajudando o outro a se erguer – Que raios de coisa está fazendo aqui uma hora desta?

- Ah, me desculpe, senhor. Estava terminando de ler os relatórios do Bernardo. Ele tem feito alguns progressos com os experimentos. O relatório diz que ele está próximo de um resultado satisfatório. – respondeu o bruxo que agora se mostrava mais visível.

- Não podia deixar isto para amanhã? – indagou.

- Estamos passando por um período de crise, senhor. Seria prudente terminarmos logo este serviço em especial. Acalmaria os ânimos das pessoas.

- Não estamos em um período de crise, Dorian, por mil chifres de unicórnios! Lembre-se disto, se quisermos que as pessoas acreditem que o país ainda é um lugar seguro para se viver devemos começar nos convencendo de que o é. Entendeu?

- Sim, senhor. – respondeu prontamente.

- Agora vá para casa. Descanse, pois amanhã será outro longo dia de trabalho.

- Tudo bem então, senhor. Tenha uma boa noite de sono.

- Se eu for dormir, você quer dizer. Sinto saudades quando meu maior problema eram duendes rebeldes e bruxos gatunos...

- Não se preocupe tanto, senhor, vivemos em um país seguro, lembra-se?

- Este é o espírito, Dorian, este é o espírito... até mais.

Dorian Gulemarc seguiu corredor afora carregando seus pouco mais de sessenta quilos e aparência esquelética, os cabelos totalmente desalinhados e um rosto exausto, onde as olheiras praticamente escondiam os olhos castanhos e o nariz parecia dobrar de tamanho a cada dia ganhando todo o espaço de onde deveria haver uma boca, que raramente se fechava.

Mardo retornou para seu caminho, ainda mais louco para sentar-se em sua poltrona de espumas, ficara ansioso por isto o dia inteiro. A mesa de sua secretária estava vazia, se não apenas por um copo de café. Todos os dias, antes de ir embora, ela preparava um pouco da bebida e depositava em sua mesa para que o ministro tivesse o que beber em sua ausência.

- Obrigado mais uma vez, Tifany. – agradeceu Mardo apanhando o copo após perceber que ele fora devidamente enfeitiçado para não esfriar.

O ministro despejou sua bolsa de couro na mesa largou o corpo em sua poltrona de espuma soltando um largo “ah” de satisfação. Bebericou seu café e começou a ler os bilhetes em sua mesa.

- Reunião com o presidente no sábado... ler relatórios de Bernardo Mecflex... enviar tropa de apoio aos guardas no sul do país... e ora ora. – disse o ministro parando de supetão e inclinando-se para frente – Um recado de Cacius! O que este velho caduco quer comigo?

Cacius, o diretor da maior escola de magia do Brasil, Avalon, de longe era um velho caduco. Ostentava o reconhecimento de maior autoridade em magia da América do Sul, acumulava prêmios de Honra ao Mérito reconhecidos internacionalmente e era um dos bruxos mais influentes no meio mágico, nos dias atuais. Raramente ele entrava em contato com pessoas senão de seu corpo docente, Cacius tinha a incrível habilidade de resolver seus próprios problemas sozinho. Coisa que muita gente não conseguia mais. Era isto que intrigava Mardo Runifer, o porquê do recado. Nele, Cacius solicitava que o ministro comparecesse ao seu escritório em Avalon para uma reunião imediata. O diretor não ocupava um cargo público, desinteressou-se pelo assunto após a primeira decepção, sua única prioridade era o bem estar dos humanos, bruxos, ou não, e demais criaturas mágicas.

- Quanta petulância! Eu sou o ministro e ele exige que eu vá vê-lo! – resmungou Mardo – Que se dane este velhote! Tenho muito mais com o que me preocupar. Na certa ele quer me mostrar aquele quadro esquisito em sua sala, francamente...

O quadro a que o ministro se referia era uma pintura a óleo de Merlin sob a sombra de uma macieira. Cacius dizia que aquele quadro era uma espécie de termômetro de perigo e que nos últimos dias tem alertado que o mundo está à beira de um colapso. Cacius insistia que o fato de Merlin estar olhando para os lados a todo o momento tem íntima relação com a liberdade de Kricolas e o fato dele ter adquirido o Livro de Merlin.

Em sua última conversa com o diretor da escola, Mardo havia deixado claro que não permitiria que Cacius se pronunciasse diante a população sobre o assunto. Relutante, Cacius foi obrigado a concordar, pois caso contrário teria sua escola fechada. E esta era a última coisa que ele queria.

- Estou te avisando, Mardo. É um grande engano. E você será o primeiro a pagar pelos seus erros... me escute, por favor – insistia o diretor – Não pode esconder a verdade destas pessoas. Não tem o direito... elas precisam saber a dimensão do perigo.

Segundos depois, sem nem mesmo dizer uma única palavra, Mardo saíra do escritório de Cacius.

Voltando ao presente, ele refutou o bilhete jogando-o em uma lixeira e passou a analisar os demais. Após uma breve olhada, segurou seu copo de café quente mais uma vez e reclinou na poltrona balançando-se de um lado ao outro.

Ele girava a poltrona até sua estante de livros, que acumulava volumes de diversos assuntos, ele rodava novamente e tinha uma visão privilegiada de toda a sua sala, com piso de madeira e tapete marrom, paredes também de madeira quase que completamente tapado por estantes, montes de caixas e papéis, sua mesa não era uma das mais arrumadas, havia vários relatórios por cima dela, penas, tinteiros, agenda e folhas de pergaminho em branco com o selo do governo. No teto pendia um lustre de vidro com uma das lâmpadas queimadas, era difícil mantê-las funcionando com tanta magia circulando pelo lugar.

Do lado oposto a sua estante estava uma janela que ia do chão ao teto, as cortinas estavam abertas e a fraca luz da lua iluminava o ambiente. Mardo continuou com sua brincadeira na poltrona por longos minutos até quase cair no sono. Lembrou-se de outros incidentes mágicos que haviam ocorrido nos últimos dias no mundo dos humanos, a maioria deles envolvia a aparição de uma estranha criatura grande, forte, enrugada e com par de asas de morcego. Kricolas.

O meio-vampiro estava de fato dando uma tremenda dor de cabeça ao ministro e todo o seu pessoal. Ele aparecia e desaparecia dos lugares como um fantasma. Nunca deixava pistas e jamais cometia erros. Suas ações eram sempre precisas e no tempo certo.

Há três dias ele aparecera no sudeste do país e atacara três homens que saiam de um bar. Com essas três vítimas o vampiro contabilizava vinte mortes desde Adonis Foster. Os corpos foram encontrados por uma senhora de meia idade na manhã seguinte. Ambos estavam com mordidas no pescoço. Na cidade o caso foi registrado pela polícia e apelidado de “O vampiro suga álcool”, devido ao estado de embriagues dos homens.

Stack.

Mardo levantou assustado com o que ouvira. O estalo pareceu ser dentro de sua própria sala. Parou por um instante. Analisou e apurou os ouvidos, mas não ouviu mais nada. Decidiu então perguntar.

- Dorian? É você? Já disse que pode ir para casa, homem. Vá descansar!

A voz ecoou pela sala, mas não houve resposta. Mardo decidiu que aquilo era apenas sua imaginação. Estou cansado. É só isso. Apenas cansaço.

Ele tocou o pé no chão para dar um impulso à cadeira para que pudesse voltar a se balançar de um lado para o outro novamente.

Girou o corpo para a estante. Depois para a janela. Estante. Janela. Estante... e quando pela quarta ou quinta vez que se virava para a janela sentiu cada pelo de seu corpo eriçar ao ver a fantasmagórica sombra formada a sua frente. O coração de Mardo quase saltou pela boca ao ver aquela figura horrenda dentro de sua própria sala.

- Feliz em me ver? – indagou Kricolas.

- O... o... que... fa...

- O que faço aqui? É isto que quer perguntar, seu gordo medroso? – Mardo continuava estático e Kricolas sorria mostrando seus dentes amarelos e desalinhados – Eu pensei em deixar hora marcada, mas achei que sua secretária não encontraria lugar na agenda para mim.

- O que... o que... o que você fez com ela seu maldito! – grunhiu Mardo tomando coragem.

- O que fiz com ela é passado, meu amigo. Deveria estar mais preocupado com o que vou fazer a você.

- Oras seu!

- Quanta valentia. Quem diria que por trás de tanta banha existe um espírito valente. – debochou Kricolas.

- Estou melhor do que você.

- Quero ver daqui a mil anos. – falou Kricolas irônico – É uma pena que não vá chegar nem aos cem.

- O que você quer de mim?

- Que sua equipe pare de me atrapalhar. Francamente! Eles estão por toda parte!

- Oras cale-se!

Kricolas avançou em direção de Mardo, agilmente, e dobrou seus dedos sobre a garganta do ministro dizendo:

- Não me dê ordens!

Mardo segurou o braço que Kricolas usava para sufocá-lo e então sentindo a respiração falhar balançou a cabeça assentindo que entendera bem o recado.

- Muito bom. Melhor que comecemos a nos entender cedo. – disse Kricolas soltando-o – Diga-me, onde está a família Foster!

- Não sei do que está falando. – desvencilhou Mardo.

- Não brinque comigo! Eu sei que o seu maldito governo tirou os Foster de Vila da Cachoeira!

- Realmente não sei do que você está falando...

- Mardo, seu inútil! Minha paciência está estourando. Quer me dizer onde-estão-os-malditos-Foster?

- E para quê? Já não arruinou o suficiente aquela família? Você já matou Adonis Foster! O que ainda quer? Matar três crianças e uma mulher? – indagou o ministro cheio de coragem.

- Bela atitude. Digna de elogios. Já que estamos nos entendendo tão bem, vou lhe contar o meu interesse neles.

- Vá para o inferno!

- Não me dê ordens! – berrou Kricolas mais alto do que um humano normal poderia gritar, uma voz gutural e cheia de ódio paralisou cada célula do ministro – Eu visitei o inferno em Warren, e não pretendo voltar para lá.

- Em pouco tempo você vai desejar estar lá.

- Por favor, ministro, tenha senso do ridículo. Em pouco tempo mestre Donnovan estará de volta! E eu governarei ao lado dele. Talvez eu use esta mesma sala quando estivermos no poder.

Mardo se contorcia na poltrona espiando por cima da mesa até a porta, torcendo para que ela se abrisse e que pelo menos dez guardas de Warren entrassem disparando feitiços para todos os lados e prendessem Kricolas definitivamente.

- Não seremos incomodados por guardas hoje ministro. – falou Kricolas como se tivesse lido a mente de Mardo – Certifiquei-me de que o prédio está vazio.

- Você sempre pensa em tudo, não é?

- Modestamente? Sim. – riu-se sardonicamente – Fazemos de tudo para sobreviver neste mundo, ministro.

- Cretino.

- Elogios não pouparão sua vida.

- E então? Qual o plano com os Foster? – perguntou Mardo para distrair Kricolas enquanto ele alcançava sua varinha no bolso do paletó.

- Achei que não estivesse interessado. – respondeu Kricolas dando as costas para o ministro.

- Ora, se vou morrer. Quero morrer sabendo alguma coisa.

- Isto foi quase filosófico.

- Vai me dizer?

Mardo ergueu a varinha com dificuldade, suas mãos tremiam e suavam muito. No momento em que preparava para dar o golpe certeiro em Kricolas, este virou-se mais rápido do que uma bala e fez com que a varinha de Mardo saltasse de sua mão e ficasse grudada no teto.

- Pensou que poderia me enganar?

- Parecia uma boa saída.

- Gosto do seu humor. – falou Kricolas após uma breve risada.

- Esta é a parte que você me convence a passar para o seu lado e ajudar você no seu plano maluco de ressurreição de Donnovan?

- Isto nunca foi uma opção, ministro.

- Bem, você recrutou a criada de seu pai e a filha e pelo que soube tentou persuadir o jovem Kalevi Foster a te seguir.

- Anda muito bem informado para alguém do governo.

- Por que o interesse em Kalevi?

- Kal para os íntimos.

- Você matou o pai dele!

- É minha maneira de começar uma amizade.

- Você é repugnante.

- Obrigado. – piscou – Muito bem então. Já que pretendo matá-lo, não há mal você saber o que planejo.

- Sou todo ouvidos. – confortou-se Mardo, ainda imaginando, esperançosamente, que mil guardas fossem entrar ali a qualquer minuto.

- O pequeno Foster tem o Enid de mestre Donnovan. E pretendo fazer com que este Enid domine todo o corpo e a mente de Kal.

Enid é a parte mágica de um bruxo, um tipo de alma que se recebe ao nascer. Crianças bruxas não choram ao nascer porque recebem um Enid. No entanto, há treze anos, quando Kal Foster nasceu, ele chorou feito um bebê humano qualquer e somente seis anos depois ele misteriosamente recebeu seu Enid. Naquele momento ninguém imaginou como aquilo poderia ser possível, mas no ano anterior, Kricolas contara ao próprio Kal como ele adquirira o Enid de Donnovan.

- Você é um porco imundo mesmo, Kricolas!

- Obrigado. Obrigado. Não é todos os dias que encontramos pessoas tão agradáveis como você.

- Você não passa de um covarde! Precisa do seu grande mestre para fazer com que as pessoas te obedeçam, não é? Você não é tão bom assim.

- Não se trata de covardia! – Kricolas bateu firme sua mão direita na mesa, o suficientemente forte para parti-la em alguns pedaços – E sim de lealdade!

- Quase mil anos já se passaram Kricolas... não há como trazê-lo de volta. Kal Foster não se renderá ao Enid de Donnovan.

- Eu sempre penso em tudo. Lembra-se?

- O que quer dizer?

- Se o pequeno Foster não quiser cooperar terei que fazer da maneira mais difícil.

- Retirar o Enid dele?

- C'est la vie. Kricolas dá, Kricolas tira.

- Você sabe bem que para fazer isto ele precisa estar...

- Morto. Isto mesmo. Vejo que não faltou a nenhuma aula na escola, ministro.

- Não vai ser tão fácil arrancar a vida de um aluno de Cacius, ainda mais sendo ele um Foster.

- Oras cale-se. Cacius não é problema para me preocupar. Já tirei o Livro de Merlin dele. O que pode fazer?

- Não duvide daquele velho.

- Quem te vê falando deste jeito pensaria que você é muito fiel a ele.

- Se cheguei aonde cheguei foi porque Cacius me apoiou.

- E parece que você não soube retribuir muito bem tantos favores.

Mardo calou-se ao olhar na lixeira o bilhete amassado.

- Termine logo com isto. Vamos!

- Disse para não me dar ordens. – falou Kricolas agarrando Mardo pela garganta mais uma vez – Será o seu fim!

Mardo examinou sua sala por um último segundo sabendo que aquela seria sua última visão. Ele passara tantos anos entre aquelas quatro paredes que aquele lugar havia se tornado seu segundo lar, sua maior fortaleza. Ele não era casado, tão pouco tinha filhos, e às vezes ele passava semanas ali. Seja lá para onde estivesse indo, sentiria saudade da sala número 219 da sede do Governo Mágico.

- Alguma última palavra? – indagou Kricolas.

Fazendo um esforço enorme, Mardo cuspiu no rosto do vampiro e disse:

- Vida longa a Kal Foster!

- Veremos. Boa noite ministro.

Como nunca antes, Mardo gritou, era pura dor e agonia, para sua sorte aquilo não durara mais do que cinco segundos. A sala foi impregnada por um forte odor de carne e sangue e Kricolas parecia sentir-se imensamente satisfeito.

- Você foi um tolo em não me contar a localização dos Foster. Bem, há outras pessoas com quem posso me informar. Os Scheiffer, por exemplo...

Enquanto olhava pela última vez o que fizera a Mardo, Kricolas ouviu passos vagarosos vindos do corredor do lado de fora da sala. Ele espiou por entre a porta e viu um vulto se aproximando cada vez mais rápido. Imediatamente, Kricolas se pôs em posição de ataque e assim que o vulto ficou a um metro da entrada da sala, ele abriu a porta e agarrou-o pelo pescoço.

- Não, por favor! – disse o homem – Estive procurando o senhor.

- Todos estão!

- Tenho um interesse em especial, senhor, meu nome é Dorian.

- Me dê um bom motivo para não fazer o mesmo que fiz com Mardo.

Dorian Gulemarc olhou horrorizado para o que deveria ser o corpo do Ministro da Defesa e Segurança Mágica, então voltou-se até o meio vampiro a sua frente e disse:

- Eu sei onde estão os Foster.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Brasão dos Foster


O Brasão da Família Foster é uma marca muito importante dentro do universo mágico brasileiro. Conhecida pela maioria dos bruxos, ele traz o “F” em destaque com alguns traços finos que refletem toda a excentricidade dos magos.

Desenvolvido pelo ferreiro Lucas Luciano Nicolage, no século XI, após um jovem descendente direto de Foster ter salvo sua família do ataque de criaturas mágicas, o brasão foi, inicialmente, pintado em bandeiras que eram penduradas nas janelas das casas de cada bruxo, pois acreditava-se que ele trazia proteção aos seus moradores. Nicolage era um artista talentoso da época e morreu pelos fins do século XII, aos 137 anos. Nicolage carregou o brasão dos Foster em seus trajes por toda a sua vida, e em seu túmulo, pediu que o cravassem com um feitiço antidesgaste.

O brasão foi aceito pelos Foster, que passaram a esculpi-lo em todas as suas obras, como no portão de ferro em Vila da Cachoeira.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Capítulo 18 - O primeiro túmulo

Kal não entendia o que significava aquele sorriso no rosto de Kricolas. Ele acabara de queimar as páginas do livro mais poderoso do mundo. Graças a Kal, o Livro de Merlin jamais serviria aos propósitos maléficos do meio-vampiro. No entanto, Kricolas ria deliberadamente, gargalhava uma vitória. Mas seria a vitória um punhado de cinzas e uma planta chamuscada? Certamente, ele ficou doido perdendo o Livro de Merlin no último instante. Pensou Kal.

- Já era, Kricolas! – berrou ele – Seu conto de fadas chegou ao fim! Não é meia-noite, mas a carruagem virou abóbora!

- Não sabia que os Foster tinham tanto senso de humor. – disse ele revelando uma voz rouca e arrepiante, quase que forçada – Mas certas coisas nunca mudam. Novecentos e noventa e oito anos se passaram e os Foster continuam intrometidos. É claro que você sabe o que aconteceu ao último que se meteu no meu caminho.

- Derrotou seu mestre e todo o seu exército! – respondeu Kal desafiadoramente. Estava sendo demasiado corajoso em enfrentá-lo, mas não estava sendo nada esperto.

- Acho que não lhe contaram a parte em que eu o matei. – disse – Não foi difícil, ele não tinha mais poder mágico. Idiota! Destruiu um poderoso Enid pelos humanos que perseguiam seu povo. Logo depois que mestre Donnovan me transportou para outro lugar eu consegui retornar, mas aquele Foster imundo já havia utilizado o maldito Perpétuo. Sobrou apenas o seu corpo medíocre caído no chão.

- E você covardemente o matou. E depois de muitos anos preso resolveu fugir. Por quê? – Kal não sabia ao certo o que deveria fazer, mas achou que enrolar Kricolas até que Cacius chegasse era uma boa idéia.

- Warren não estava incluída nos meus planos de aposentadoria. Além do mais, pequeno Foster, um pouco de ação rejuvenesce o meu espírito.

- E sair matando pessoas inocentes é ação? – perguntou Kal rispidamente – Eu chamo de covardia!

- Por favor, não me ofenda! Eu mato para ter poder! Sacrifício humano. Muito útil.

- O quê? – perguntou atônito.

- A vida humana vale muito para mim, pequeno Foster. É uma grande fonte de poder. Com minhas primeiras sete vítimas realizei um belíssimo ritual de invocação para o Enid do meu mestre, que estava vagando perdido, mas Cacius e algumas dúzias de bruxos intrometidos impediram que ele pudesse se apossar de um recém-nascido. Isso não foi nada legal da parte dele. Não, não foi. Quando percebi o que haviam feito... ah, pequeno Foster, fiquei furioso. Jurei matar todos eles! Mas então, eu soube do que ficou conhecido como o milagre Foster. Meu milagre. Senti a energia do mestre Donnovan viva em você. Da mesma forma que estou sentindo agora!

- Eu não sou Donnovan! – berrou Kal.

- Não. É claro que não é. Mestre Donnovan é parte de você. Posso sentir a fúria e o ódio! Venha comigo pequeno Foster. Vou ajudar-lhe a despertar todo o poder do mestre. – disse Kricolas erguendo uma das mãos.

- Não se aproxime! – advertiu Kal – Não estou sozinho!

- Eu sei que não. – Kricolas sorriu maliciosamente e fazendo um simples gesto com as mãos fez com que Guine, Ralph, Daimon e Thalis fossem arremessados até o lugar em que Kal estava de pé.

- Deixe-os fora disso! – gritou.

- Mas foi você quem os envolveu... – falou debochadamente – Olhem, é o jovem Thalis.

Thalis o encarou com fúria nos olhos. Kricolas havia assassinado seus pais aparentemente sem motivo. Eles eram humanos, totalmente sem poderes, nunca haviam interferido nos seus planos. Ele não tinha motivos para atacá-los.

- Por que fez aquilo? – perguntou Thalis raivosamente – O que eles tinham a ver?

- Ora! O que dizer? Eu precisava de mais vítimas para outro ritual. Então pensei em visitar uma velha amiga.

- Ve-ve-lha a-a-mi-ga? – balbuciou Thalis permitindo-se que lágrimas cortassem o seu rosto.

- Você tem sorte por eu estar de muito bom humor hoje, garoto. Escute. Sua mãe era bruxa! Filha de dois grandes Guardiões de Warren. Na minha fuga, há alguns anos, eles se meteram no meu caminho e pagaram com a vida por isso. Com a morte dos pais, sua mãe quebrou a própria varinha e desvinculou-se do mundo mágico para viver uma vida humana medíocre.

- Cale a boca! Cale a boca! Não fale dela! – berrou Thalis.

- Foi divertido vê-los morrer. Principalmente seu pai, que morreu sem ao menos entender o que estava acontecendo. É uma pena que você tenha conseguido escapar tão facilmente. Teve muita sorte, sabia? Poucos bruxos menores de idade esfumaçam tão bem.

- Eu disse para se calar! Escaparta!

Nem mesmo se Thalis concentrasse toda sua fúria no feitiço ele produziria qualquer efeito em Kricolas. O meio-vampiro permaneceu inalterado, mas Thalis havia se deixado cair pelas emoções e desatou a chorar.

- Não se preocupe, meu jovem. Posso te mandar para seus pais agora mesmo. – falou.

- Nunca! Não haverá mais mortes! – grunhiu Kal – Ninguém vai morrer à toa!

- Ninguém morre de graça, pequeno Foster. A morte dos pais do seu amigo foi necessária para que eu pudesse encontrar isto! – Kricolas ergueu uma folha de pergaminho encardido. – Sabe o que é?

- Uma página do Livro de Merlin. – arriscou Daimon.

- Exatamente! – falou Kricolas encarando o garoto – E na minha opinião a melhor. Há uma lenda britânica que diz que Merlin e Foster criaram um feitiço destrutivo. O feitiço da morte, que diferente do Sedructos ele mata, mas não amaldiçoa. Merlin achou que seria perigoso e resolveu tirá-lo do livro queimando-o logo em seguida. Precisei de muita pesquisa e duas mortes para recuperá-la. Mas valeu a pena.

- Será a sua única página Kricolas!

- Não tenha tanta certeza disso, pequeno Foster.

Kricolas retomara seu sorriso malicioso e penetrante. Ele os encarava com leve desprezo. Não se importava em ter cinco garotos do primeiro ano na sua cola, afinal, o que poderiam fazer sozinhos?

O meio-vampiro agachou-se e enfiou uma de suas mãos no amontoado de cinzas que havia se tornado a pequena macieira que Kricolas plantara e que Kal, deliberadamente, ateara fogo. A cena estava seguindo-se quase como em câmera lenta. Kricolas puxava o seu braço de volta, quando o ergueu com mais firmeza revelando um objeto retangular.

- O Livro de Merlin! – falou com entonação.

O livro de capa vermelha com detalhes dourados passaria despercebido dentro de uma biblioteca. Nada nele chamava a atenção, nenhum efeito brilhante ou de alguma forma, magicamente encantado.

- Finalmente meu! – continuou Kricolas em frenesi.

Ele abriu o livro à procura da parte em que a página fora arrancada. Quando localizou, ele ergueu o pergaminho que encontrou na Cidade dos Elfos e o devolveu ao lugar original. Num raio de luz ofuscante o livro se restaurou.

- Completo. E é meu...

- Mas como? – perguntou-se Kal – Eu o queimei...

- Você apenas me ajudou, pequeno Foster. Deixe-me esclarecer. Existem quatro elementos fundamentais na magia, e Merlin os conhecia muito bem. Outro ponto importante é a maçã, a transmissora do conhecimento. Esta macieira – disse apontando para a árvore mais antiga do pomar – foi plantada pelo próprio Merlin, e o grande segredo do bruxo estava escondido dentro das sementes do fruto dela. O ar as carregou. Caíram na terra. Foram irrigadas pela água. Geraram a vida e você, Kal Foster, usou o fogo, o elemento que faltava para que o Livro de Merlin pudesse ser meu!

- E o que vai fazer agora? Dominar o mundo... – perguntou Guine pomposamente.

- O mundo é grande demais, garota! Não vou dominá-lo, mas meu mestre irá.

Kricolas repetiu o gesto de mão que usou contra Guine, Ralph, Daimon e Thalis, fazendo Kal aproximar-se tanto dele que era possível sentir a respiração do vampiro.

- Vamos embora, pequeno Foster. Vou lhe ensinar o que precisa saber para dominar a raça humana.

- Nunca!

- Largue ele! – berrou Ralph correndo até os dois.

Kricolas o fez voar cinco metros até bater em uma árvore.

- Farfalha! – berrou Kal com a varinha apontada para o rosto de Kricolas.

O meio-vampiro recebeu os golpes e caiu pesadamente no chão gritando de tanta dor.

- Corra, Kal! – gritou Guinevere e Kal atendeu-a prontamente, mas Kricolas também foi rápido e o agarrou pela perna direita derrubando-o.

- Escaparta! – o feixe de luz azul liberado por Kal atingiu o queixo ensangüentado de Kricolas, mesmo assim ele não cedeu e continuou prendendo a perna do garoto.

- Você vem comigo! – berrou enfurecido.

- Amstãnder! – o raio amarelado atingiu Kricolas com tamanha violência que ele subitamente largou Kal e o Livro de Merlin foi arremessado contra a macieira logo atrás– Não toque no meu filho!

- Pai... – disse Kal entre dentes.

Adonis correu até ele e ergueu-o, apanhando o livro logo em seguida.

- Você está bem? – perguntou ao filho.

- Sim, mas devemos correr.

- Não tão cedo! – Kricolas estava novamente de pé, suas feridas auto-cicatrizando, ele ergueu a mão direita articulando os dedos e conjurou uma varinha de cor avermelhada. Em seguida disse:

- Todos queriam saber o que o renomado Sr. Nicolas Weny havia descoberto com a Página perdida! Pois sim, nela realmente estava o feitiço mortífero criado por Merlin e seu discípulo! Aqueles malditos escreveram o livro em várias línguas e repleto de códigos! Não têm idéia do que passei para traduzir isto. Morgora Nãltis!

Um ruído longo e tenebroso atravessou o pomar varrendo-o de trevas. Um único ponto de luz amarela cresceu na direção de Kal e Adonis. Este jogou o filho no chão e recebeu todo o impacto. Sem mais barulhos, Adonis bateu no chão com estrépito.

Kal congelou aquela cena em seu pensamento. Não podia ser verdade. Adonis Foster caíra derrotado, talvez muito mais do que isto. Talvez Kal nunca mais veria seu pai levantar-se. Ele esperou. Esperou que Adonis eliminasse qualquer pensamento negativo da mente de Kal fazendo um simples aceno indicando que estava bem e pronto para cair outra vez e levantar-se novamente se fosse preciso para deter Kricolas.

Kal ainda esperava.

Os segundos se estenderam como horas e Kricolas gargalhava vitorioso. Levante! Levante! Repetia Kal em pensamento como se quisesse conversar por telepatia com o pai que permanecia estirado no chão.

Por favor, ajude-nos! Não pode nos deixar agora! Insistia em pensar.

- Pai! – gritou Kal percebendo que nada que pensasse faria seu pai erguer-se.

Seu coração batia acelerado à medida que se aproximava de Adonis que estava com o corpo inerte e pálido, os olhos carregavam um estranho cinza que olhava para o nada. Todo o ar a sua volta cheirava a morte.

- Maldito! – praguejou Kal uivando como um lobo – Papai... acorde... por favor... acorde... Não me deixe, não... acorde por favor... acorde...

Kal sacudia o corpo do pai inutilmente. Ele evitava pensar que Adonis Foster se fora para sempre.

- Quanto clamor, pequeno Foster.

- O que você fez, seu maldito? – gritou Daimon a plenos pulmões – Acorde ele!

- Lamento filho, mas ainda não sei trazer pessoas à vida. Ainda... – terminou Kricolas.

- Seu desgraçado! Eu vou te matar! – Kal ergueu-se e caminhou a passos largos até Kricolas com uma mescla de fúria e ódio nos olhos.

- Sua arrogância começa a me incomodar, pequeno Foster! Há vários modos de trazer meu mestre de volta ao poder. Saiba que você é completamente descartável! Vou enviá-lo até o seu querido papai.

- Kal, não! – gritou Guinevere do outro lado prevendo o que estava para acontecer.

- Morgora Nãltis!

O lampejo amarelo floresceu entre as árvores e disparou em direção a Kal, acertando-o no lado esquerdo do peito desequilibrando-o. Do mesmo modo que acontecera com Adonis, Kal bateu no solo semelhando o barulho de um tambor.

- Kal! – Thalis correu o máximo que pode até chegar ao amigo.

- Menos um Foster... – disse Kricolas secamente – Agora o último deles.

Kricolas ergueu Daimon no ar de modo que não pudesse escapar da mira. Mais duas palavras e a família que se intrometera no caminho de Donnovan estaria extinta. Salvo Cristina Foster Lê Fay.

- Morgora...

No instante final do feitiço, Kricolas foi golpeado no rosto por algo que parecia um chicote. Seja lá o que tivesse acontecido fê-lo largar Daimon e abaixar a varinha.

- Mas... – espantou-se o meio-vampiro ao ver Kal imponentemente de pé depois de ter recebido o mesmo feitiço que matou Adonis de forma instantânea – Como?

- Você acertou isto. – disse Kal abrindo a mão esquerda e revelando uma pedra negra em formato oval – Eu ganhei esta ametista de Cacius e o seu feitiço foi absorvido por ela.

- Quanta petulância. Você tem muita sorte, pequeno Foster. Pedras mágicas, como a sua ametista, sugam energia negativa do meio. Excelente escudo. – resmungou.

- Horbário Obedientis! – invocou Kal o feitiço que aprendera em Relações com a Natureza - Herviana, quebre a varinha! – dizendo isso uma estranha raiz rasgou a terra aos pés de Kricolas e roubou-lhe a varinha que ele segurava e partiu-a ao meio.

- O que é... – Kricolas estava demasiado confuso agora. Kal Foster havia sobrevivido ao feitiço mais mortal existente e controlava uma planta que quebrara sua varinha.

- Dê os cumprimentos à minha Herviana gornóide, Sr. Weny. – falou Kal num tom de voz alterado – Vai pagar pelo que fez ao meu pai!

- Hoje não! – Kricolas recolheu o Livro de Merlin e de suas costas surgiu um par de asas parecidas com as de um morcego, mas as dele tinham alguns cortes e ferimentos expostos.

Num único bater de asas, Kricolas decolou dez metros até que Kal desse outra ordem a sua planta.

- Agarre-o! – mostrando total agilidade e força, a Herviana segurou Kricolas pelo pé direito impedindo-o de continuar seu vôo.

- Prof. Cacius! – exclamou Guinevere aliviada ao vê-lo surgir entre as árvores do pomar.

- Já que não foi ao meu escritório fazer uma visita formal, resolvi procurá-lo. É uma pena que seja em tais circunstâncias... – Cacius olhou para o corpo de Adonis estendido ao chão e sua expressão fechou-se em amargura – Por que não desce até aqui?

Cacius ergueu a própria varinha e apontou para Kricolas e como se o controlasse fez com que aterrissasse.

- Há quanto tempo, Kricolas...

- Meu único visitante em Warren...

- Senti a sua falta. Mas vejo que continua cometendo os mesmos erros. Matar Adonis Foster foi o mesmo que assinar sua sentença de morte.

- Já estou morto, Cacius. Por acaso esqueceu que sou um vampiro?

- Meio-vampiro. Ainda tenho esperanças de que aí dentro bate um coração humano.

- Nunca! – berrou.

- Professor! Ele está com o Livro de Merlin! – gritou Thalis de onde estava.

- Foi um belo disfarce este de Nicolas Weny. Enganou quase todo mundo.

- Menos a você. – disse o meio-vampiro.

- Precisa muito mais do que maquiagem para enganar esta velha cabeça. – falou Cacius batendo no cocoruto.

- Mas esta velha cabeça não conseguiu encontrar o Livro de Merlin, não é? – riu Kricolas debochadamente.

- Não teria tanta certeza se fosse você. – de onde estava Cacius fez com que o livro se abrisse na última página – Está vendo? São todos os donos do livro. Os que um dia viveram com o Enid de Merlin.

De longe, Kal pode observar a página que Kricolas estava encarando. Nela havia vários nomes escritos em uma lista na qual o nome de Cacius posicionava-se em último.

- Eu e muitos outros protegemos este livro de pessoas como você.

- Mas você é o único que está vivo.

- Sim, por certo. Tenho que admitir também Kricolas que você foi extremamente hábil para encontrar o livro e recuperar a Página perdida.

- Uma das poucas coisas que não foi capaz de fazer, não estou certo? – perguntou Kricolas e Cacius assentiu – Qualquer coisa que envolva sacrifícios te impossibilita de agir, não é?

- Que tal colocarmos isso a prova? – uma voz bem familiar chegou aos ouvidos de Kal. Virando-se ele reconheceu Elvira.

Ela dobrara seus dedos sob a garganta de Guinevere e mantinha-a fortemente presa. A menina tinha a vida nas mãos da mulher.

- Solte o mestre Kricolas que eu solto a garota! – vociferou.

- Isso explica muita coisa... – falou Cacius pensativo.

- Deixe-o fugir com o livro e ninguém mais sai ferido! – disse Elvira apertando mais firme a garganta de Guinevere – E então Cacius? Vai ser o livro ou a garota? Nem tente fazer algo contra mim! Ela não é a única que está como refém!

- Eu sei perfeitamente que você também fez a Srª Foster de refém. – disse Cacius lendo os pensamentos da bruxa.

- Mamãe! – exclamou Kal desesperado – O que você fez com ela?

- Ainda não fiz nada, mas se Cacius não libertar o meu mestre, só restarão você e seu irmãozinho vivos.

- Professor... – disse Kal suplicante.

- Nunca sacrificaria alguém, por qualquer motivo que seja.

- Solte-a! – gritaram Ralph e Thalis.

- Kricolas, – disse Cacius – assim que te libertar, você estará no controle. Você já matou Adonis e tem o livro. Não precisa fazer mal a mais ninguém. Há duas opções: ficar, duelar comigo e correr o risco de voltar a Warren, ou fugir e seguir seu plano. Aliás, você tem uma terceira opção.

Todos ficaram atônitos como o que Cacius estava dizendo. Uma das principais características do diretor de Avalon era manter a tranqüilidade nos momentos mais críticos, como no dia em que Jonathan aparentemente tentou se jogar da Torre do Sino. Mas desta vez, Cacius estava muito além do seu estado normal de serenidade. Ele oferecera a Kricolas uma oportunidade de fuga e estava prestes a dar-lhe outra alternativa. O meio-vampiro parecia ligeiramente interessado e penetrou nos olhos de Cacius procurando a resposta.

- Você pode largar tudo isso e viver tranqüilamente em meu castelo. – terminou Cacius, o que fez Kricolas gargalhar abertamente.

- E ensinar magia aos seus alunos também está nos planos? Qual é o seu problema Cacius? Isso nunca foi uma opção. Parece-me pior até mesmo do que Warren. – disse Kricolas mudando de alegria a impaciência – Solte-me e tudo acaba bem.

- Depende de qual lado você está. – comentou Cacius.

- Não vou deixar este assassino fugir assim! – berrou Kal.

- Não pode fazer nada, pequeno Foster! Eu venci!

- Depressa velho! Solte-o! – berrou Elvira ainda apertando o pescoço de Guinevere.

Cacius assentiu com a cabeça e recuou alguns passos.

- Está livre Kricolas.

Nem bem Cacius terminou de falar e o meio-vampiro soltou um alto rugido e esfumaçou carregando o Livro de Merlin e a certeza de que havia vencido a primeira batalha. Elvira empurrou Guinevere e esfumaçou logo atrás.

- Você está bem? – perguntou Ralph a Guinevere.

Tossindo fortemente e puxando mais ar do que talvez seus pulmões pudessem suportar, ela confirmou estar bem.

Kal e Daimon estavam abraçados e chorando muito ao lado do corpo de Adonis. Nenhum dos dois olhava diretamente para o pai caído ao chão para que suas mentes não aceitassem o que havia acontecido.

- Por quê... – balbuciava Kal deprimido.

- Precisamos levá-lo, Kal. – disse Cacius se aproximando.

- Ele não podia fugir... – gritou Kal com Cacius.

- Nem Amanda e Guinevere podiam morrer. – respondeu serenamente, compreendendo a confusão de idéias que pela qual estava passando o garoto a sua frente.

Guinevere também chorava ao lado de Ralph a quem estava abraçada. Thalis se aproximou de Kal e o ergueu pelos ombros.

- Vamos. – disse ele.

Cacius fez com que o corpo de Adonis levitasse em posição horizontal e caminhou lentamente. Os cinco garotos seguiram o professor pela estrada que levava até Cidade dos Elfos. Kal, Guine e Daimon aos soluços, estavam sendo praticamente arrastados por Ralph e Thalis. Ao longe, Amanda esperava-os aflita. Estava com as mãos tapando a boca para tentar conter o choro. De onde estava, Amanda não via o corpo de seu marido que levitava logo atrás de Cacius. Ela desatou a correr na direção dos filhos assim que os avistou.

- Graças a Deus! Adonis foi até vocês assim que... Ah! – gritou Amanda desesperada recuando alguns passos – Adonis! – gritou novamente aproximando-se do marido que agora estava novamente no chão.

- Lamento, Srª. Foster. – disse Cacius em uma voz pesada e pondo a mão no ombro da mulher que desatou a chorar – Não pude fazer nada.

- Não! Adonis... – disse soluçando entre lágrimas – Por quê? Por quê? Adonis, por favor...

Kal, Daimon e Guinevere abraçaram Amanda em consolo, mas não sabiam como fazê-lo, pois também não continham as lágrimas. A única coisa que podiam fazer era ficar ali ao lado do corpo de Adonis tentando entender aquela situação. Assimilando que nunca mais veriam um sorriso de seu marido e pai. Compreendendo que agora estavam sozinhos, não havia mais aquela figura otimista e carinhosa de sempre, que sabia dizer as palavras exatas em todos os momentos. Imaginando que se Adonis estivesse vivo ele saberia o que fazer em momentos como aquele. Porque ele era assim. Muito mais do que um esposo, muito mais do que um pai. Adonis Foster era um pilar para os quatro, sem ele, não saberiam por onde recomeçar.

Em pouco tempo a cidade amontoou-se no local, professores, alunos e os habitantes prestaram apoio à família Foster. Até mesmo a natureza pareceu sofrer com a perda, pois o céu da Cidade dos Elfos cobriu-se em luto com nuvens negras de chuva, que logo molharam a multidão misturando-se às lágrimas de bruxos, elfos, fadas e todo o resto de criaturas mágicas que se podia imaginar.

Cacius aproximou-se de Kal e colocando a mão no ombro do garoto disse:

- Você merece saber tudo. Provou isso hoje.

Kal esfregou um dos braços nos olhos para que pudesse enxergar o professor com mais nitidez e percebeu que ele abandonara seu ar de serenidade. Mas ele não pôde distinguir se aquela gota em seu rosto era uma lágrima ou simplesmente chuva.

Ele o seguiu por entre as pessoas imaginando o que Cacius considerava digno de Kal saber. Suspeitou que deveria ser algo sobre o seu Enid. Mesmo tendo ouvido do próprio Kricolas que Donnovan vivia em seu corpo, Kal não podia acreditar que não fora apenas uma grande coincidência. A cidade parecia estar morta, a chuva fazia um barulho típico sobre os telhados e sobre as copas das árvores na floresta. Não havia pássaros cantando, nem mesmo um vento soprando de dentro da floresta. Era como se todo ser vivo ao redor estivesse prestando uma última homenagem a Adonis Foster.

Cacius guiou Kal até os portões do castelo da Rainha dos Elfos e juntos atravessaram o jardim enfeitado com estátuas de gnomos, curiosamente todos estavam segurando os chapéus cônicos e de rosto erguido para o céu com uma expressão tristonha.

Os dois atravessaram o salão de entrada e seguiram pelos corredores e escadas até a sala circular em que Thalis revelara seu Enid. Cacius encarou Kal nos olhos e franzindo o cenho disse as primeiras frases:

- Isto foi apenas o começo, Kalevi. Kricolas tem o Livro de Merlin e você supostamente sabe o que ele está prestes a fazer.

- Ressuscitar Donnovan. – respondeu secamente.

- Sim, mas dizer ressuscitar, faz parecer que qualquer um pode voltar da morte.

- Meu pai, por exemplo. – disse com peso na voz.

- Diremos que Kricolas quer dar um corpo a Donnovan. – falou Cacius disfarçando o ressentimento de Kal – Ele já tentou fazer isto há sete anos. Quando trouxe ao nosso mundo o Enid de seu mestre.

- Mas vocês o impediram que possuísse um recém-renascido.

- Não contávamos que o Enid de Donnovan se apossasse do seu corpo.

- Ele não conseguiu se apossar de mim! – retorquiu Kal.

Cacius lançou-lhe, imediatamente, um olhar contraditório e prosseguiu.

- Restou a Kricolas roubar o Livro de Merlin para conseguir o Enid de volta.

- Por que ele simplesmente não me matou?

- E por acaso ele tentou fazer algo de diferente hoje? – indagou Cacius.

Kal apalpou o lado esquerdo do peito e sentiu a ametista contra sua pele. Sem o presente de Cacius, certamente, Kal estaria morto.

- Acredito que Kricolas fará o possível para manter você vivo, Kal. Ele não sabe ao certo o que pode acontecer ao Enid se você morrer. Talvez seu Enid se perca e... Bem, é difícil prever qualquer coisa. – finalizou.

- Ele disse que sou descartável... – respondeu Kal.

- No calor da batalha as pessoas dizem muitas coisas. Mesmo meio-vampiros milenares.

- E o que acontece se Donnovan voltar?

Após um longo silêncio Cacius disse:

- Ainda não tive coragem de pensar nisso. Mas afirmo que será desastroso.

- Como Kricolas encontrou o livro?

- Há uns três anos, um bruxo chamado Nicolas Weny se popularizou com uma grande descoberta na Inglaterra. A partir daquele momento ele ganharia fama e influência com novas descobertas. Kricolas se disfarçou muito bem criando este personagem. O feitiço Glamory pode ser realizado em qualquer lugar, basta um espelho e algumas poucas velas. Era assim que Kricolas transformava-se em Nicolas Weny e usando de sua recém adquirida influência, aproximou-se de estudiosos do assunto e foi montando o quebra-cabeça. Kricolas também teve acesso à minha sala este ano e roubou alguns de meus livros.

- O que o senhor quer dizer com isso? – perguntou Kal deixando de soluçar.

- Na manhã em que Jonathan ameaçou se jogar da torre. – respondeu – Ele estava sob efeito de algum encanto.

- Kricolas fez aquilo com ele?

- Indiretamente sim. Como você bem sabe, Tâmisa foi uma Representante de Avalon este ano. Ela abriu os portões da escola naquela manhã e permitiu que Kricolas entrasse. Enquanto uma terceira pessoa conduzia Jonathan até o alto da torre.

- Elvira.

- Não. Uma Outra pessoa. Eu estive com Elvira aquela manhã no Hospital Nautilus.

- Tem idéia de quem possa ser este terceiro aliado? Lembro-me que era uma voz feminina que induziu Jonathan a se jogar.

- É uma pista. – comentou Cacius.

- E a Página perdida? Por que o senhor não a pegou antes de Kricolas? Foi nela que ele conheceu o feitiço que ma...

- Eu sabia da existência desta página. – cortou Cacius antes mesmo que Kal pudesse terminar a frase - Mas não poderia recuperá-la sem que houvesse um sacrifício...

- Acho que entendo. De qualquer forma. Houve um sacrifício... – disse ele querendo chorar.

- Alguns professores procuraram pela Página perdida, por isso o professor Amadeus manteve-se tão ocupado. Ele passou o ano arrumando outra maneira de recuperá-la. O professor Tirso também contribuiu com a busca. Ele comentou como você duelou bem contra Rick Wosky. Infelizmente, ele teve que passar alguns dias se recuperando da maldição Dunkel que recebeu enquanto estava na forma de macaco. Mesmo com tanta ajuda, eu não poderia ter a Página perdida. Quanto ao Livro de Merlin, Kricolas contava com a poderosa ajuda de Elvira, o que para mim era algo inesperado.

- Poderosa ajuda? – espantou-se Kal lembrando-se da medíocre figura esquelética da mulher.

- Elvira tinha acesso ilimitado à biblioteca de Thomas, que certamente faz a de Alexandria parecer obsoleta. Com tanta informação e habilidade prática, os dois formaram uma dupla muito poderosa.

- E Thomas? – perguntou Kal confuso.

- Foi envenenado durante todo o ano. Induzido ao coma, ele permaneceria inativo. Assim, Kricolas e Elvira podiam agir deliberadamente.

- Thomas foi envenenado? – perguntou Kal incrédulo.

- A poção Mekeivan, um verdadeiro veneno para um vampiro. No começo do ano, pedi que Cristina Foster fosse até o Hospital Nautilus tentar reanima-lo, mas como não sabíamos o que o estava deixando inconsciente, nenhum dos esforços da professora valeram a pena.

- E onde Elvira conseguiu tanta poção?

- Em Avalon! – Kal arregalou os olhos já inchados de tanto chorar e Cacius prosseguiu – Tâmisa, a filha de Elvira, surrupiou nosso estoque de poção e ingredientes para que sua mãe continuasse dopando Thomas.

- E por que Elvira e Tâmisa apoiaram Kricolas? – perguntou Kal sentindo que seus neurônios estavam recebendo informações demais para aquele momento.

- Quando uma nova força surge, as pessoas procuram se aliar a um dos lados em busca de proteção. Elvira e Tâmisa já fizeram sua escolha. – explicou Cacius – Temo que outras pessoas vão passar para o mesmo lado quando souberem que Kricolas tem o Livro de Merlin.

Kal parou por um breve instante digerindo aquelas informações. O plano de Kricolas havia sido meticulosamente desenhado e provara-se infalível. Talvez até mais do que isso. Superara as expectativas, afinal ele não só havia conseguido pegar o Livro de Merlin por completo, mas como também eliminado um Foster, o que certamente iria chocar ainda mais a comunidade mágica.

- Professor, quanto tempo o senhor acha que Kricolas vai demorar para trazer Donnovan de volta, agora que tem o livro?

- É um tempo difícil de se calcular, Kal, não sei até onde Kricolas sabe sobre ele. Pode demorar um século, ou apenas um dia. Merlin e Foster escreveram o livro utilizando de várias línguas, algumas que já não se tem mais registro, adicionaram códigos e alguns métodos subliminares. Tudo dependerá da habilidade de Kricolas agora.

- Vamos torcer para que ele demore então. – disse de cabeça baixa.

- Bem, acho que chega por hoje. Você se mostrou muito corajoso, Kal. Você quis mudar algo em sua vida e acho que conseguiu. Acredito que a partir de hoje as pessoas não vão mais vê-lo simplesmente como um Foster, ou o Milagre Foster, a partir de hoje você é Kal, Kal Foster.

- Obrigado, professor. – o garoto desenhou um leve sorriso em seu rosto, os olhos ainda inchados, mas também carregados de uma esperança estranha que dominava todo o seu corpo tranqüilizando-o.

Ainda na Cidade dos Elfos, várias carruagens subiram ao céu, velozmente, arrastando um clima de depressão e melancolia. A Guarda Armada de Warren liderou as carruagens rumo ao cemitério dos bruxos que ficava em algum ponto não muito escondido no mundo humano, no litoral do nordeste brasileiro. Quando as primeiras cidades mágicas foram fundadas no país, nenhuma delas entusiasmou-se com o fato de ter um cemitério em seu tão pequeno território. O Governo Mágico determinou então que fosse erguido o Cemitério Nacional para Bruxos.

O cemitério não possui poderosos encantamentos de proteção contra os humanos, pois em si o lugar já é um repelente natural. A vasta área murada tem bem ao centro um farol onde mora o guardião do cemitério, que provoca aflição e medo aos curiosos com sua desfigurada aparência. O homem de uns sessenta anos era recoberto por cicatrizes e manco da perna direita, cheirava a peixe podre, tinha alguns fios de cabelo jogados sobre o rosto e mantinha a barba mal feita.

A parte interna do cemitério era bem modesta, a exceção de alguns esplendorosos túmulos de marfim. Havia uma pequena estrada de pedras brancas que interligava os portões de entrada ao farol, no centro do cemitério. Desta primeira estrada principal, partiam várias outras interligando os túmulos de pedra. Alguns traziam apenas um simples vaso de flores, outros eram bem ornamentados com coroas de flores em cores variadas e velas flutuantes acesas com a chama eterna. Algumas árvores estavam espalhadas pelo cemitério, àquela hora da tarde permitia que o cemitério fosse iluminado fracamente pelo alaranjado sol poente, dando ao cemitério um aspecto pacífico.

O mausoléu da Família Foster era o primeiro do lado esquerdo do farol. No cemitério cada túmulo correspondia a uma família de bruxos. Gerações e gerações estavam ali presentes, prontas para receber mais um de seus descendentes que tristemente se despediu do mundo vivo. Adonis Foster tinha agora seu epitáfio.

Enquanto o caixão de seu pai era carregado, Kal manteve-se o mais distante possível. Não entrou no mausoléu junto com os outros tantos presentes, amigos, alguns poucos parentes de sua mãe, representantes do governo acompanhando Mardo, habitantes da Cidade dos Elfos, como a Rainha Eva e alguns guardas de Warren, incluindo o senhor e senhora Scheiffer.

No momento em que o orador retirou do paletó preto um pedaço de pergaminho para iniciar a despedida, Kal deu uma última olhada em sua mãe que estava abraçada à sua irmã Lilith e recuou para o mais longe que pudesse alcançar.

Kal não queria ver o túmulo do pai tão cedo. Sabia que assim que o visse tudo se tornaria real, e ele não queria encarar aquela realidade.

O pequeno Foster, como foi chamado por Kricolas, caminhou por entre os túmulos e procurou seguir caminho olhando fixamente para o chão afim de não guardar qualquer imagem do cemitério. Kal estava vestido com um paletó preto sem gravata, os sapatos estavam tão lustrosos que refletiam as lápides por todos os lados. Resolveu seguir de olhos fechados, mas a todo o momento em sua cabeça surgiam imagens de seu pai caindo no chão do pomar e ele ouvia mais atentamente as gargalhadas do assassino de seu pai.

Percebendo que nada do que fizesse, sair do mausoléu, abaixar a cabeça ou fechar os olhos faria esquecer que seu pai estava morto, Kal correu o máximo que pode para alcançar os portões brancos que davam acesso à praia. No momento em que ele saiu e sentiu a brisa fria do mar tocar seu rosto, permitiu-se soltar uma última lágrima naquele dia. Pois guardaria todas as outras para os momentos de felicidade que passaria com sua família.

Daimon e Guinevere também resolveram largar a cerimônia de lado e seguiram os passos de Kal até a praia, onde estava sentado e olhando fixamente para o mar.

Um minuto mais tarde, Thalis e Ralph também se sentaram na areia para fazer companhia aos amigos. Nenhum deles disse uma palavra, nem mesmo quando o farol se acendeu sinalizando que a cerimônia havia finalizado. A luz do farol, acredita-se, ilumina o espírito do bruxo a um lugar belo onde pudesse descansar eternamente.

Um profundo, e também estranho, sentimento de felicidade invadiu o corpo de Kal por completo. Era como uma forte onda de esperança. Esperança de que talvez um dia uma luz pudesse ser acesa para celebrar a vida.