domingo, 2 de dezembro de 2007

Capítulo 14 - O Enid na sala circular

Cidade dos Elfos estava com grandes sinais de destruição. Os Griphons haviam feito estragos em quase todos os cantos e as pessoas estavam coagidas no jardim da Rainha Eva e nas três repúblicas. O palanque que fora armado para a palestra estava dividido em três partes e uma delas sobre a copa das árvores mais próximas.

Enquanto saia da floresta, Kal olhava de um lado para o outro a procura de Daimon, Guinevere e Ralph. Sem encontrá-los decidiu por continuar seguindo Tirso até Cacius. Onde ele estaria? Pensou, pois não o vira no momento da palestra e nem quando os Griphons apareceram.

A poucos metros quem surgira fora seu professor de poções que estava tremendo, fosse de frio ou medo, mas estava. Ele segurava a varinha com as duas mãos e acenou com a cabeça ao ver Tirso e os outros se aproximarem.

- Professor Pote! – chamou Tirso – Onde está Cacius?

- Está no jardim da rainha, com os demais. Venham por aqui.

- Esses malditos Griphons fizeram um grande estrago. Diabos! – praguejou Amadeus.

- E os alunos? Estão bem? – perguntou Tirso.

- Devem estar, fugiram feito galinhas d’angola quando as criaturas apareceram. Nem parece que estudam magia. – retorquiu Amadeus mais uma vez.

- Não pode falar isto de todos os alunos, maldição. – falou Tirso piscando para Kal.

Amadeus entendera bem o que Tirso havia dito e resolveu calar-se durante o resto do percurso.

Em frente aos portões, Tirso se aproximou para que se identificar, com seu jeito peculiar, o portão se abriu para que eles se abrigassem junto com a multidão de quase 500 pessoas, abraçadas umas as outras, todos muito apavoradas.

- Kal! – berrou Guinevere assim que o avistou entrando e correu para dar-lhe um forte abraço – Você está bem?

- Estou, obrigado! Ralph e Daimon estão aqui também?

- Sim, estão com os pais do Ralph, ali.

Guinevere apontou para um casal de bruxos altos e intimidadores com os seus uniformes verde escuro, botas e luvas de couro e uma capa marrom. A mãe de Ralph tinha uma pele clara, longos cabelos cacheados que refletiam a pouca luz a sua volta. Os olhos verdes manchados com algumas lágrimas de felicidade por ver o filho. Seu marido, um homem robusto e de expressão amigável afagava as costas do garoto, mas sempre vigilante ao que estava ocorrendo. Foi o primeiro a perceber a entrada de Kal nos jardins do castelo.

- Kal, vou precisar de você um minuto. – falou Tirso – Thalis, poderia nos acompanhar.

- Quem é ele? – cochichou Guine.

- Depois explico.– respondeu Kal – Tenho que ir.

Tirso, Amadeus, Kal e Thalis seguiram por um estreito corredor até uma sala no segundo andar. Nenhum deles desviou o olhar do caminho, nem mesmo para observar as tapeçarias nas paredes, o carpete floral ou as estatuetas. O único som que se ouvia no corredor era o de passos apressados que eram amortecidos pelo tapete. De todos, Thalis parecia ser o mais assustado com tudo aquilo. Bruxo ou não, ele estava entre pessoas desconhecidas que o levavam para lugares também desconhecidos a todo o momento.

Tirso parou diante uma sala de porta dupla, a porta tinha um formato arredondado para acompanhar o interior da sala que guardava.

Cacius os esperava de pé em uma pequena sala circular no segundo piso da casa de Eva. A rainha estava ao seu lado com as mãos segurando o rosto em expectativa e pavor. E Mardo, o Ministro da Defesa Mágica, estava sentado em uma cadeira tamborilando os dedos no na barriga e olhando para cima apreensivo.

A sala, que devia servir para receber visitas tinha um grande sofá verde e várias tapeçarias penduradas nas paredes e outras tantas estiradas ao chão. Os vitrais retratavam os dias de construção da Cidade dos Elfos, e uma janela mais ao norte tinha uma visão privilegiada da floresta.

- Professor Cacius. – começou Tirso – Kal encontrou este garoto perdido na floresta. Estava sendo atacado pelos Griphons quando apareceu.

Todos encararam Thalis com profunda curiosidade. Amadeus escaneava o garoto com o nariz torcido com certa repugnância e muito desprezo.

- Professor, acho que devemos apagar a memória do garoto e devolvê-lo aos pais. – sugeriu o professor de maldições.

- Este menino não tem pais agora, professor Wosky. – respondeu Cacius tristemente – Esta tarde Kricolas cometeu dois outros terríveis assassinatos. Não imagino como um garoto humano pode sobreviver a ele e chegado até aqui, mas, este conseguiu.

- Ele é um bruxo, professor! – falou Kal de forma que todos na sala pudessem ouvi-lo.

- Tolice... – bufou Amadeus de onde estava e virando o rosto para a parede.

- Ele usou a minha varinha para conjurar o Pelínculo. – continuou Kal.

- Não fantasie, Foster! – disse novamente Amadeus virando-se para os dois garotos – Professor Cacius, o senhor sabe tão bem quanto eu que este menino é apenas um humano de sorte.

- Sobreviver ao ataque de um vampiro assassino não me parece apenas sorte.

- O professor Tirso tem toda razão. – continuou Cacius – Talvez fosse sorte ele ter escapado conseguindo pular uma janela, mas esfumaçar a uma distância de quilômetros não é algo que um humano poderia fazer nem mesmo com toda a sorte do mundo.

- O senhor está dizendo que este garoto esfumaçou? – espantou-se Eva – Nem mesmo os nossos garotos conseguem fazer isso... – Eva olhou para Kal e ele sentiu-se diminuído.

- Professor, devemos ser sensatos. Humanos não podem esfumaçar...

- Professor Wosky. – pronunciou-se Mardo pela primeira vez – Meus guardas interrogaram as testemunhas do ataque antes de desmemoriá-las e todas disseram que depois de matar os pais, Kricolas se aproximou deste garoto erguendo-o pelo pescoço e no segundo seguinte ele virou fumaça, apenas uma nuvem de fumaça. Kricolas urrou feito um urso e então desapareceu sem deixar pistas.

- Kricolas deve tê-lo mandado para morrer na floresta! – insistiu Wosky.

Thalis sentara-se na poltrona e encarava as pessoas a sua frente, para ele desconhecidos, como se fosse uma rápida partida de tênis, olhando de um lado para o outro da sala.

- Muito bem. Por que não perguntamos como ele foi parar na floresta. – sugeriu Amadeus ainda incrédulo.

Cacius consentiu com a cabeça e lançou um olhar inquisidor a Thalis e como se o bruxo tivesse dito por pensamento alguma coisa o garoto começou a relatar.

- Depois que aquele monstro matou os meus pais, – disse ele e as lágrimas desceram ajudadas pelo soluço que o fazia tremer – ele partiu para cima de mim e realmente me agarrou pelo pescoço.

- Acalme-se e continue. – disse Tirso apoiando Thalis.

- Eu senti como se meu corpo entrasse em chamas, e aí estava em uma floresta... Andei por toda a tarde procurando ajuda. Ouvi barulhos e corri para ver se eram pessoas, foi quando aquelas criaturas me encurralaram e ele me salvou.

Kal sentiu-se corar.

- Realmente foi uma grande sorte este jovem bruxo ser encontrado pelo senhor Foster. – falou Cacius com um sorriso estampado.

- Professor Cacius... o senhor acredita mesmo que...

- Não é questão de acreditar, professor Amadeus. – cortou Tirso – Você acabou de ouvir ele dizendo que ouviu barulhos, barulhos vindos da Cidade dos Elfos.

Kal ainda não entendia a relação das coisas.

- Os encantamentos que protegem a cidade bloqueiam os sons produzidos, de forma que eles não possam ser ouvidos por humanos. – explicou Cacius.

- Sim sabemos, mas... como teremos certeza? – indagou a Rainha Eva.

- Revelarbus. – disse Tirso – Se Thalis for de fato um bruxo ele tem um Enid.

Kal enfiou a mão no bolso e retirou a própria varinha entregando-a a Thalis.

- Tome. Não precisa se intimidar. Apenas aponte a varinha para frente e diga: Revelarbus. – ensinou Kal – Da mesma forma que você fez na floresta.

Timidamente, Thalis se levantou e segurou a varinha. Empunhou-a firmemente apontando direto para o centro da sala, Mardo levantara-se de sua poltrona para visualizar melhor o que estava para acontecer e Amadeus descruzara os braços. Cacius gesticulou algo com os dedos e Thalis gritou:

- Revelarbus!

Uma forte e densa fumaça prateada varreu a sala até o centro provocando um pequeno estalo. Depois de reunida em um único ponto, a fumaça tornou-se menos densa e começou a subir revelando uma pequena figura masculina.

Todos se espantaram muito, até mesmo Cacius permitiu-se soltar um som de espanto ao ver um segundo Thalis naquela sala. Era como se o garoto estivesse de frente a um espelho. A fumaça revelara o mesmo corpo magro e comprido, os cabelos escuros, olhos castanhos, pele clara e macilenta.

Amadeus olhava para aquela imagem com asco e nojo, principalmente porque havia perdido a disputa que travara. Thalis não só era um bruxo, como também possuía um Enid próprio.

- Isto é espantoso... – falou Cacius muito curioso.

- É fantástico... – continuou Tirso.

Eva olhava muito espantada e deixara-se cair no sofá ao lado de onde Kal olhava o Enid brilhar, boquiaberto. Mardo retornou à poltrona incrédulo.

- Tome. – disse Thalis devolvendo a varinha a Kal.

- Lócus Amenus! – Tirso fez a ilusão desaparecer – O que faremos professor, Cacius?

- O que sempre fazemos. Vamos ensinar um jovem bruxo a fazer magia.

- O que? Ele não pode! Não no meio do ano! – retrucou Amadeus muito impaciente. – É errado!

- Errado é não ensinarmos magia a este garoto! – falou Tirso com azedume.

- Ele é um garoto humano! Filho de humanos!

- Ele é um autentico bruxo! E tem Enid próprio! Em alguns anos ele será grandioso. Wosky, seu amaldiçoado, você sabe bem que aqueles que nascem com Enid próprio tornam-se mais fortes porque a magia é gerada, e não herdada.

- Acalmem-se professores, acalmem-se. Avalon nunca fez distinção entre bruxos e humanos. Ela sempre esteve a disposição dos que quisessem estudar magia. Então, cabe a Thalis decidir.

Mais uma vez todos o encararam com apreensão, ele olhava de um lado para o outro tentando fugir dos olhares nervosos. Kal tinha a impressão de que Thalis devia estar se sentindo um animal enjaulado.

Alguns minutos que pareceram a eternidade passaram sem que qualquer um dissesse alguma coisa. Thalis ergueu a cabeça ainda indeciso, olhou para o rosto sereno de Cacius e então para uma aflita Eva. A cabeça de Thalis deveria estar rodando com tudo o que acontecera, a morte dos pais por um monstro assassino, ficar perdido em uma floresta e ser atacado novamente, ser salvo por um garoto desconhecido que o chamou de bruxo e então encontrar com todas aquelas pessoas em um jardim da casa de uma tal rainha elfa em uma cidade que mais lhe parecia um parque temático.

Virando-se para o outro lado viu Amadeus com uma cara amarrada e ranzinza. Mardo esperava sua resposta de cabeça baixa. Fosse para aonde fosse, estava mais do que claro que o professor não o queria por perto. Ainda assim, havia Tirso que até agora parecia estar sempre lhe defendendo e zelando pelo seu bem estar. Tirso abaixou-se na altura dos olhos de Thalis e disse:

- Escute, você não deve conhecer ninguém aqui. Mas saiba que estamos prontos para te ajudar. Avalon é uma escola, onde crianças com dons mágicos, como os que você possui, estudam para aperfeiçoá-los e aprendem a utilizá-los com responsabilidade. Eu estarei sempre lá, e vou te ajudar.

- Meu querido. – começou a falar Eva do lugar onde estava – Minha casa estará aberta para você. Não se preocupe com pouca coisa, você tem uma grande decisão a tomar agora. Ela mudará sua vida a partir deste momento.

- Seja qual foi a sua decisão, eu apoiarei. – falou então Kal pondo uma das mãos no ombro de Thalis.

Ouvir aquelas palavras produziu um efeito mágico nele, muito mais do que tirar coelho de uma cartola, derrotar criaturas estranhas em uma floresta ou conjurar uma imagem de si mesmo com uma varinha. A partir daquele momento, Thalis sabia que qualquer passo que ele desse não estaria desacompanhado. Três pessoas acreditavam nele e o apoiavam. Sendo um deles seu melhor amigo. Não é todo dia que dois garotos de treze anos derrotam monstros sozinhos em uma floresta. E quando se faz isto, é impossível não se gerar uma forte amizade.

- Professor Cacius, eu quero ir para Avalon. – falou Thalis de modo conclusivo.

- Mas isso... – quis retrucar Amadeus, mas não teve espaço.

- Não, não professor Wosky, como havia lhe dito, Avalon está à disposição de qualquer jovem bruxo que queira aprender. Thalis quer estudar em Avalon e ele irá ainda este ano!

- Professor Cacius, ele está despreparado. Não tem o nível de conhecimento dos nossos alunos.

- Ele pode não ter a prática, mas tem fibra para isso. Tenho certeza que aprender o conteúdo de um semestre em um mês não significa nada para um jovem bruxo que foi capaz de esfumaçar de maneira tão brilhante.

Não havia mais o que ser dito. Thalis aceitara a proposta de estudar em Avalon e Cacius dera a última palavra. Indiscutível.

Na manhã do dia seguinte todos ainda estavam muito agitados com o desastre que fora a palestra do tão famoso senhor Weny. No café, na Suor de Sapo, Guinevere e Daimon colocaram Kal e Ralph a par do que havia acontecido depois que eles saíram. Daimon repetiu todo o discurso de Nicolas como se fosse um gravador e Guinevere cortou-o contando logo a parte final.

- Nicolas disse que veio para Cidade dos Elfos procurar pelo Livro de Merlin!

Kal e Ralph suspiraram fundo e algumas pessoas que estavam no lugar os observaram por entre seus copos de refresco.

- Ele vai procurar mesmo? – perguntou Kal discretamente para que não fossem ouvidos.

- Sim, ele disse que sim. E foi aí que os Griphons surgiram. Todo mundo começou a correr e assim terminou a palestra. E vocês foram aonde? – quis saber Guine.

- Fomos até a velha loja. E quando toquei na maçaneta, eu vi Nicolas conversando com uma pessoa.

- Hum, foi uma visão? – perguntou Daimon.

- É, foi. – confirmou Kal – Ele parecia estar tramando. Acreditem em mim, foi ele quem trouxe os Griphons.

- Não diga asnices. A troco de quê ele estragaria a própria palestra. – retrucou Daimon.

- Eu também não entendo, mas tudo coincide... – insistiu.

- Tudo bem Kal, vamos esquecer isso um pouco. E o garoto que você ajudou. Quem é? – perguntou Guine.

Kal contou aos três sobre Thalis, quem era, como havia parado na floresta e o que acontecera na sala circular da Rainha Eva. Daimon levou a mão à boca sem acreditar. Guinevere deu um leve salto da cadeira mas logo se recompôs.

- Ele vai estudar conosco? – perguntou ela.

- Acredito que sim. Enquanto ficarmos de férias ele vai estudar muito com Tirso e os outros professores para nos acompanhar. – informou Kal.

- E onde ele está agora? – perguntou Ralph.

- Ele está na casa da rainha. Vai ficar lá agora nas férias. – respondeu Kal.

- E então, Ralph, conversou como seus pais? – perguntou Guinevere para mudar de assunto.

- Sim conversei com eles, pouco, mas deu para conversar. Eles partiram ontem à noite mesmo. Ficaram contentes por eu poder ficar na casa de vocês, porque eles não vão tirar férias ainda, ainda. Disseram que têm muito serviço a ser feito e que ainda têm que investigar esta invasão de Griphons.

- É claro... Pessoal, olhem! – Daimon olhava pela janela de onde se via inúmeras carruagens voadoras, todos em alta velocidade e aterrissando nas ruas da cidade,

Todos os pais de alunos vieram buscar seus filhos. A invasão de Griphons na Cidade dos Elfos parecia ter repercutido muito rápido. Os pais estavam aterrorizados e temiam pela segurança dos filhos, o melhor a ser feito era tirá-los imediatamente dali.

Um homem usando um chapéu pontudo e uma capa de viagem entrou na Suor de Sapo apressado. Era Adonis. Assim que avistou os quatro garotos chamou-os para a saída.

- Vocês estão bem? – perguntou ele conferindo se não estavam com machucados.

- Sim, nós estamos bem. Cacius nos protegeu o tempo todo. – disse Daimon.

- Professor Cacius, rapazinho. Agora vamos depressa, sua mãe está muito exaltada. Ralph, você vai ser bem vindo na nossa casa.

- Obrigado, senhor Foster.

- Hoje pela manhã aluguei esta carruagem e enfeiticei estas dez vassouras para que a puxassem. Não vamos demorar a voltar para casa. Passei na república e as malas de vocês já estão na guardadas. Só precisamos partir.

Os cinco seguiram até a carruagem estacionada em frente a Suor de Sapo e um pouco antes de subir na carruagem, Kal foi avistado por Rômulo que o chamou.

- Hei, Foster! –Rômulo estava ao lado de Marcos Herdam e Antonio Furtado. Os três estavam um bocado sérios.

- Algum problema Rômulo? – perguntou Kal.

- Não, é solução. – respondeu ele – Algumas pessoas não gostaram da sua atitude de punir um aluno da forma com que você fez com Rick Wosky. Lembra?

- Esse, algumas pessoas é Amadeus. – questionou Kal.

- Não interessa. Só o que precisa saber é que você não faz mais parte do Conselho Estudantil. – disse Rômulo com frieza na voz.

- E por acaso Amadeus ameaçou vocês caso não me expusessem? Ele ameaçou fechar o conselho, foi?

- Entregue-me seu distintivo ou...

- Ou vai arrancar à força? Tome esta porcaria! – gritou Kal jogando o objeto em Rômulo – Eu não preciso disto para parecer legal!

- É bom que não precise mesmo, Foster, porque não o terá mais! – disse ele e saiu.

- Algum problema, meu filho? – perguntou Adonis a Kal assim que este retornou – Parece abatido.

- Tudo bem pai, não há problema não. Aquele Conselho estava se tornando um estorvo...

- Então vamos, suba.

Kal entrou na carruagem que estava flutuando a trinta centímetros do chão, ele foi seguido de perto por Guinevere, Daimon e Ralph. Por último entrou Adonis que primeiro foi encantar as dez vassouras que estavam firmemente amarradas a carruagem de madeira.

Assim como a Vestuário, a loja de roupas onde eles haviam comprado os uniformes, a carruagem parecia bem desproporcional ao que se via por fora. Se do lado externo ela não media mais de dois metros, por dentro ela tinha o dobro de comprimento. Com duas poltronas largas, uma de frente para a outra e no fundo um tipo de porta malas, espaçoso o suficiente para carregar as quatro malas de roupas de Kal, Daimon, Guine e Ralph.

A primeira parte do trajeto foi feita em silêncio completo. Era tão constrangedor que eles evitavam se olhar. Ninguém parecia muito a fim de falar e ficaram o tempo todo olhando pela janela, para o chão, ou brincando com os dedos para fingir-se indiferente a situação.

- Nada de fadas Grullanas desta vez... – disse Ralph rompendo o gelo.

- Júlio me contou o episódio. Vocês foram valentes. – Adonis entrara no assunto e agora a nuvem de constrangimento parecia estar se dissipando.

- É... – falou Kal e o assunto foi encerrado.

Kal ainda estava revendo em sua cabeça a figura cínica de Rômulo pedindo pelo seu distintivo de Guardião Mirim. Não que importasse fazer ou não fazer parte do Conselho, mas a maneira como fora dispensado não era das melhores.

Depois de remoer tudo aquilo, Kal pensou em Thalis, ele perdera os pais fatalmente e fora para em um lugar cheio de desconhecidos. Mesmo ele sendo de fato um bruxo, não devia estar acostumado a ver elfos, fadas, gnomos, curupiras, saci e tudo o mais de criaturas mágicas.

Era um mundo completamente novo, cheio de mistérios e ainda teria que aprender praticamente tudo que os outros alunos primeiranistas sabem sobre magia no curto espaço de um mês. Mas alguma coisa dizia a Kal que era possível. Isto o tranqüilizava. De qualquer modo, ele não gostaria de se colocar no lugar do amigo. Perder um pai ou mãe já parecia muito doloroso. Mas perder os dois de forma tão trágica era infinitamente pior. Sabia disto porque ocorrera o mesmo com Guinevere, e mesmo que não parecesse, ela sentia-se triste todos os dias ao ver Kal e Daimon beijar Adonis e Amanda.

- Como passa o Thomas, tio Adonis? – perguntou Guinevere sem muito interesse.

- Mal, muito mal. Ainda está em coma.

- Eu devo me sentir culpada por isso? – perguntou Guine.

- Oh, claro que não querida. – Guinevere foi quem usou o Formanômago em Thomas para que ele voltasse ao seu estado normal, desfazendo a transformação, mas desde então ele tem permanecido no Hospital Nautilus. Um coma que já durava cinco meses.

- E quem é que cuida dele? – perguntou Kal.

- Elvira. Lembram-se dela? Ela fica com ele o dia todo e a médica é a doutora Samantha.

- A desvairada? – perguntou Daimon.

- A Conhecem? – indagou Adonis.

- É outra história pai... – falou Kal rompendo o assunto.

- Thomas é o vampiro pai de Kricolas não é? – quis saber Ralph.

- Sim, é sim. – respondeu Adonis.

- Acha que este coma pode ter algo a ver com o filho, senhor Foster? – continuou Ralph.

- Talvez Kricolas esteja induzindo o pai ao coma para ele não se meter nos seus assuntos. – disse Daimon.

- Huhuhu... O que é isto? O clube da conspiração? – brincou Adonis.

- É porque você ainda não ouviu a do Kal. – retorquiu Daimon.

- E qual então meu filho?

- Kal acha que o senhor Nicolas teve alguma coisa a ver com o incidente de ontem à noite. – fofocou Daimon.

- Que absurdo, Kalevi. De onde tirou isto?

- Bem, pai, você sabe, o professor Cacius deve ter contado que posso ver o passado.

- Sim, claro ele contou sim. É realmente fascinante isso, mas continue.

- Pois é... ontem à noite Ralph e eu estávamos entediados com a palestra e fomos para uma velha loja abandonada, onde às vezes ficamos papeamos. Quando eu toquei a maçaneta, vi Nicolas conversando com uma pessoa e ele disse que aquela noite seria inesquecível.

- Ora Kal... inesquecível poder ser qualquer coisa... – falou Adonis com um sorrisinho maliciosos no rosto.

- De qualquer forma, papai, por que Nicolas se daria ao trabalho de ir a uma velha loja dizer que aquela noite seria inesquecível? Então está na cara que ele não queria ser visto.

- Meu filho, há certas coisas que não podem ser explicadas. Além do que, foi uma visão, não poderia provar nada. Seria a sua palavra contra a dele. Melhor esquecer isso. Olhem! Chegamos!

Eles estavam sobrevoando o Bosque de Vinho quando Adonis anunciou que haviam chegado. Kal olhou pela janela e vislumbrou Vila da Cachoeira, há cinco meses ele partira e ela estava exatamente igual como havia deixado. As mesmas casas, as mesmas pessoas, enfim, nada mudara.

- Pai. – chamou Kal quando Adonis descia o degrau da carruagem atrás de Daimon, Guine e Ralph. – O que faria se pudesse ver tudo?

- Aprenderia a fechar os olhos. – disse prontamente e saiu.

Um comentário:

André L. disse...

Mais um excelente capítulo (cara, eu devo encher muito o saco, comentando em cada capítulo... :P), e parece que o seu estoque de personagens surpreendentes ainda não acabou. E o estoque de amigos de Kal só aumentou... :PP

Aguardando ansiosamente o próximo cap.!