domingo, 9 de dezembro de 2007

Capítulo 16 - A Página perdida

Rick Wosky sentia-se poderoso. Passou a ser seu hábito chegar atrasado nas aulas e desculpar-se dizendo que estava “prestando serviços à escola”. Uma vez por semana Kal era obrigado a passar duas horas na sala de Amadeus Wosky catalogando livros velhos e passando a limpo folhas de pergaminho tão empoeirados que as traças já haviam abandonado-as.

Nos fins de semana, quando não estava na detenção, Kal, Daimon, Jonathan, Ralph, Guine e Thalis ocupavam uma das poucas mesas vazias da Suor de Sapo e ali perdiam horas em conversas. Em geral, Daimon ou Jonathan levava algum livro e abria num capítulo aleatório e eles começavam suas conversas do assunto que o capítulo tratava. Era uma maneira que os dois desenvolveram para não se sentirem culpados por não estarem estudando.

Em matéria de estudo, quem certamente ganharia o prêmio por esforço era Nicolas Weny. O bruxo passava o dia inteiro andando pela orla da floresta e no pomar de maçã. Que apesar do clima não muito propício, desenvolviam-se muito bem.

No começo de outubro, os habitantes de Cidade dos Elfos começaram a sentir-se incomodados com a presença do ilustre visitante. Vários repórteres internacionais começavam a aparecer na cidade e lotavam os espaços livres com seus refletores de luz e a todo o momento tiravam fotos dos habitantes. O Folha Mágica, principal jornal da comunidade bruxa brasileira, lançou uma matéria de capa que revoltou todos os habitantes da cidade.

Eles aplaudem, mas não sabem o quê

No fim do primeiro semestre deste ano, o Brasil, mais especificamente no pequeno e antigo vilarejo conhecido como Cidade dos Elfos, recebeu a ilustre presença do mundialmente famoso historiador, Nicolas Weny. Nicolas que nasceu no estado de Goiás, teve sua educação ministrada pelo seu já falecido tio avô, Ricardo Silvano, que teve como trabalho mais notável a criação do sobrinho neto.

Nicolas acumula prêmios por onde passa com suas descobertas, a primeira de sua carreira foi a de uma câmara subterrânea em território indiano. Atualmente, Nicolas está em sua missão mais ambiciosa. Encontrar o livro perdido do grande mago Merlin. O livro, ao que se sabe, foi escrito pelo mago para reunir os maiores feitiços do mundo. De forma que eles não se perdessem no tempo devido sua alta complexidade.

O historiador negou-se a dar entrevista antes de obter qualquer resultado. No entanto, os habitantes de Cidade dos Elfos mostraram-se solidários com nossa equipe de reportagem dando detalhes minuciosos de uma pesquisa que ainda não mostrou nada. “Eu tenho certeza de ter visto o senhor Nicolas desenterrar um livro de capa verde atrás do meu estabelecimento. Acredito que com o livro em mãos, ele vai revolucionar o ensino de magia no mundo”, disse Ligio Robert, dono do bar local Suor de Sapo. “Ele sempre anda de um lado para o outro da cidade, parece estar um pouco perdido em sua pesquisa, na minha opinião. Mesmo assim acredito que ele alcançará seu objetivo”, disse uma cidadã Elfa que não quis se identificar.

Também entrevistamos ninguém menos que o todo poderoso diretor da Escola de Magia e Feitiçaria de Avalon, Cacius Henrique, que se pronunciou dizendo que Nicolas Weny parece estar querendo ganhar tempo enquanto não se localiza em sua pesquisa. “Encontrar um livro que ninguém de fato sabe se existe é realmente uma tarefa que exige muita da confiança de uma pessoa, por mais habilidosa que ela seja. O que realmente todos gostariam de saber é o motivo pelo qual Nicolas quer encontrar o livro”, frisou. Uma cidadã, que também não quis se identificar, disse que o propósito de Nicolas estar procurando pelo Livro de Merlin é simples, “O livro é poderoso, e ele quer ter este poder. O que mais seria?”. Esta última afirmação lança ao ar uma incógnita. Os habitantes de Cidade dos Elfos realmente sabem o que está acontecendo em seu próprio território?

O fato é que o vilarejo tornou-se foco da mídia internacional e como o principal alvo dos tablóides não se pronuncia, temos que recorrer a nem sempre confiável voz do povo. Esta gente que faz de tudo para aparecer fornece informações que não são de confiança legítima. Pois eles tiram suas próprias conclusões apenas observando o árduo trabalho do nosso historiador. Nicolas Weny reserva-se ao seu direito de não divulgar seus resultados, por enquanto, mas ao menos deveria manifestar-se para coibir esta gente oportunista que aplaude de pé um resultado inventado por boatos e especulações da própria população.

Nicolas Weny, como disse a reportagem do jornal, não se manifestou, nem mesmo quando os habitantes de Cidade dos Elfos começaram a vê-lo com olhos tortos. Ele nem ao menos parecia perceber que as pessoas estavam ali, olhando para ele enquanto gesticulava no ar com as mãos.

O segundo semestre em Avalon estava ficando cada vez mais difícil para os alunos do primeiro ano. Nas aulas de Relações com a Natureza, Kal tinha chegado ao seu maior grau de dificuldade. Sua Herviana crescera a tal ponto que fora impossível colocá-la em um vaso. A professora Margarida disse-lhe que deveria plantar sua Herviana na Cidade dos Elfos e praticar com ela os exercícios da aula em uma outra hora.

Kal, Thalis e Ralph arrastaram o vaso, que já estava completamente trincado, por todo o jardim de Avalon e o desceu em um dos balões até Cidade dos Elfos, levando-o em seguida para o pomar de maçã, um lugar que certamente Kal poderia fazer os exercícios que a professora mandasse sem ser interrompido. Depois de aberto um buraco de três metros no chão, os três empurraram a planta com vaso e tudo e a soterraram.

Os exercícios de Biomagia também tiveram que passar a ser feitos fora do horário de aula. Kal deu graças por ter sido expulso do Conselho Estudantil, pois se ainda exercesse a função de Guardião-mirim, certamente não teria tempo de fazer todas a suas atividades.

Ele ainda tinha algumas horas de treino de Quizard a cada quinze dias. Em geral, Tirso revisava com os jogadores os nomes de alguns feitiços e eles faziam duplas para duelar. Kal juntava-se à Malvina, uma clériga do grupo. Não era difícil para Kal acertá-la, mas ela sempre dava um jeito de se curar e contra atacava Kal. Isso não era uma grande preocupação para o grupo, afinal, eles tinham Raiam Devine, o quintanista e capitão do grupo. Raiam era um bruxo incrível, conhecia a maioria dos feitiços de defesa e ataque que Tirso ensinara, defendia-se dentro do campo e dava um show à parte na Sala das Diferenças. Lutara duas vezes contra o desafiante de Angus, e vencera facilmente.

Tadewi derrotou a equipe de Katzin por tempo limite nas duas partidas que as equipes se encontraram, ou seja, Raiam chegou à Sala das Diferenças e esperou por dez minutos que o outro desafiante chegasse. Como isso não aconteceu, Tadewi consagrou-se campeã da primeira fase, que consistia em dois jogos contra cada equipe. Na segunda fase, as duas equipes classificadas confrontavam-se em um único duelo. E este estava marcado para o final do ano letivo.

Kal, Ralph, Thalis e Guinevere continuavam a perseguição Nicolas, principalmente após a declaração de Cacius no Folha Mágica, o diretor demonstrara um certo receio quanto as intenções de Nicolas quanto ao livro, e isso os intrigava ainda mais.

Durante o dia, eles faziam pequenas vigilâncias nos momentos de folga observando para onde ele ia ou o que estava estudando. Nicolas parecia ter desenvolvido a teoria de que Merlin talvez tivesse enterrado o livro sobre algum ponto importante da cidade. Ele passou um bocado de tempo na Livros & Boatos olhando plantas de antigas construções, Kal pensou que talvez este seja o motivo para suas reuniões na velha loja próxima a orla da floresta, afinal, a loja faz parte do passado da cidade.

Os três apenas não entendiam o porquê do senhor Weny querer manter-se afastado dos portões de Avalon. Desde que chegara ele não havia se quer insinuado subir na nuvem do castelo. Talvez ele não quisesse uma intervenção de Cacius, afinal, ao que se sabe, o diretor lhe fez diversos convites de visita e deixou o acervo da riquíssima biblioteca de Avalon a disposição do historiador, mas nem mesmo os livros de Cacius eram um atrativo para a celebridade.

Às noites, os garotos revezavam turnos de dois para vigiarem Nicolas, eles se projetavam no astral e o seguiam sem problema. Que costumeiramente saia em expedições à floresta. Weny trajava sempre uma calça, uma camisa de manga longa com sua indispensável gola de rufos. As reuniões com as três misteriosas figuras tornaram-se mais raras, ainda assim Kal fazia suas especulações de que ele estaria tramando algo.

Desde o incidente com os Griphons, Cidade dos Elfos vivia em alerta, criou-se quase que um toque de recolher. Ninguém, a não ser Nicolas Weny, perambulava pelas ruas depois das dez horas da noite. A Suor de Sapo teve que se adaptar ao novo horário que a situação estava exigindo e passou a fechar mais cedo pela falta de cliente. Outros pontos de encontro, como a Colméia das Formigas também perderam a freguesia com a insegurança que a cidade estava passando.

Certa noite de lua cheia, quando Kal e Thalis faziam sua vigilância eles acompanharam Weny por mais de trezentos metros floresta adentro. Ele recolheu algumas ervas e experimentou alguns frutos, sempre cuspindo suas sementes.

Naquela mesma noite, Nicolas parou em uma clareira e retirou do bolso da camisa uma poção de cor azulada. Kal e Thalis entreolharam-se, mas não puderam imaginar do que se tratava. Nicolas fez uma expressão azeda ao dar o último gole, mas nada lhe aconteceu. Então ele conjurou três velas formando assim um triângulo, seguido disto ele conjurou um espelho e o posicionou de forma que refletisse a luz da lua cheia, mas não a das velas. O homem começou a mexer os lábios como se estivesse orando.

Kal imaginou que fosse algum tipo de rito para sua pesquisa. Pelo que eles haviam estudado de astrologia na aula de Relações com a Natureza, a lua está intimamente ligada a descobertas e conhecimento, mas é certo que para cada fase há uma interpretação diferente. E vendo aquela resplendorosa lua dourada no céu, Kal deduziu de que se tratava apenas disto mesmo, ajuda na pesquisa.

Na manhã do dia seguinte, os dois contaram a Ralph e Guine o que Nicolas Weny fez e eles concordaram que era uma tentativa desesperada para conseguir êxito.

- O cara está ficando desesperado! – disse Ralph – Já faz um bom tempo que eles está galgando esta tarefa e ainda não saiu do lugar.

- Talvez Cacius tenha sido correto quando disse que é uma tarefa difícil demais para ser realizada, mesmo por alguém tão preparado. – concordou Thalis.

- Bem, nós vamos continuar de olho nele. – falou Kal – Cacius deve estar fazendo o mesmo. Mas ainda assim devemos ser os primeiros a saber sobre qualquer descoberta que Nicolas Weny faça.

- Concordo. – disse Guine que havia se tornado tão obcecada por esta perseguição quanto Kal, Ralph e Thalis.

Enquanto eles saiam da república ouviram gritos eufóricos vindos do centro da cidade. Os quatro se entreolharam e foram às pressas saber o que estava acontecendo.

Vários alunos aplaudiam e davam risadas animadas por todos os cantos. Os elfos disparavam fogos de artifício para o alto e as fadas faziam cirandinha pelas ruas.

- O que está acontecendo, Pedro? – perguntou Thalis ao colega de quarto.

- Parece que o tal do Nicolas Weny encontrou o Livro de Merlin.

- O quê? – perguntaram com olhares gulosos em cima do garoto.

- Disseram que ele saiu da Livros & Boatos em disparada e começou a conjurar vários feitiços embaixo do relógio da praça. Na hora ninguém entendeu nada, mas todo mundo o viu correndo para a Pousada das Fadas com um pergaminho na mão.

- De onde ele tirou este pergaminho? – perguntou Kal.

- Ele foi conjurado. – respondeu Daimon que vinha acompanhado de Jonathan.

- Eu vi o que aconteceu. – disse Jonathan – O senhor Nicolas disse vários feitiços, até tentei decorar alguns, mas não consegui... Enfim, ele agitou um pouco os braços e quebrou um frasco de poção no chão. Em segundos algumas cinzas começaram a surgir. Foi então que elas agruparam-se e um pedaço de pergaminho apareceu.

- Que pergaminho será este? – questionou-se Guine olhando para os três.

- Um mapa? – sugeriu Ralph.

- Algum documento importante da época de Merlin, talvez. – prossegui Kal.

- A Página perdida do Livro de Merlin. Para ser mais preciso. – falou Cacius aproximando-se dos garotos.

- Professor Cacius! O senhor soube? – indagou Kal olhando para o professor.

- Certamente, Kal, todos agora sabem. Não vai demorar para que metade da imprensa mundial surja na cidade e comece seus interrogatórios.

- O senhor disse que o pergaminho é uma página perdida do Livro de Merlin? - retomou Ralph à fala do diretor.

- Sim. Certamente isto saiu da minha boca.

- E o que tem nesta página? – perguntou Daimon.

- Não sabemos. Pelo menos ainda. Ninguém nunca encontrou a página. A história sabe apenas que Merlin, certo dia desceu do castelo com um livro em mãos, que suponhamos ser o seu famoso livro, e deste ele arrancou uma página queimando-a logo em seguida.

- Nicolas Weny está com um pedaço do livro mais poderoso do mundo! – espantou-se Jonathan.

- O que o senhor acha que ele pode conseguir com esta página, professor? – perguntou Kal.

- Considerando que seja mesmo uma página do Livro de Merlin e que o próprio autor a excluiu de sua obra, imagina-se que o que há na página não seja algo de bom. – respondeu.

- Preciso ver o senhor Tailon Montanha. – disse Cacius.

- O dono da Livros & Boatos? – questionou Daimon.

- Sim. Agora com licença. – falou Cacius seguindo para a livraria.

O olhar dos garotos acompanhou Cacius até ele atravessar o arco da porta. Várias pessoas começaram a esfumaçar em todos os cantos da cidade carregados de pergaminhos e penas, algumas máquinas fotográficas e refletores para adquirir uma melhor iluminação em suas fotos.

- Vamos sair daqui. – disse Kal prevendo o que poderia acontecer se ficassem parados. Certamente seriam requisitados para uma detalhada entrevista sobre a descoberta de Nicolas Weny.

Jonathan e Daimon preferiram se juntar ao fã clube do historiador em frente a Pousada das Fadas ao invés de acompanhar Kal, Guine, Ralph e Thalis até a velha loja.

- Vocês acham que o pergaminho que Nicolas encontrou é mesmo do Livro de Merlin? – perguntou Thalis.

- Se o próprio Cacius acha possível eu vou duvidar do quê? – disse Ralph convencido.

- Ele está um passo à frente de todo mundo agora. – comentou Kal – Só ele sabe o que tem naquele pergaminho.

- E se não for nada demais? For apenas um truque para mostrar que ele está fazendo alguma coisa. – especulou Guine – Talvez seja apenas uma carta ou sei lá...

- Não tenho tanta certeza assim, Guine. – discordou Thalis – Pelo modo como Jonathan contou, parece que Nicolas sabia o que estava fazendo em frente àquele relógio.

- Mas onde ele conseguiu aquela informação? – pensou Ralph – Como ele sabia que fora ali que Merlin queimou a página.

- Isto tudo tem muito segredo envolvido... – falou Thalis chutando uma pedra.

A palavra segredo penetrou no cérebro de Kal fazendo um zunido à medida que vasculhava sua memória. Era como se estivesse processando uma busca, combinando dados recentes e antigos. Passado um milésimo de segundo, ele berrou alto o resultado de sua busca de forma que assustou os amigos.

- “Aqueles segredos”!

- O que têm? – questionou Thalis.

- “Aqueles segredos” é o título de um livro que eu encontrei na Livros & Boatos. – respondeu – No dia em que fomos comprar nossos materiais, eu vi este livro e pensei em levá-lo também, mas vi que o conteúdo era somente para bruxos formados. Então, na mesma hora, uma pessoa encapuzada esteve lá e o comprou.

- E você imagina que esta pessoa possa ser... – tentou falar Guine.

- Nicolas Weny! Ou pelo menos alguém a mando dele. – terminou Kal.

- Ele tem aqueles três amigos encapuzados. – disse Ralph.

- E se fossemos até a pousada. – sugeriu Thalis.

- Entrar no quarto do Nicolas Weny? – perguntou Guine cética.

- Bingo. – disse Kal, seus olhos quase brilhando.

- Não dá para entrar em propriedade particular sem ser convidado no plano astral, e vocês sabem disso. – falou ela.

- E quem falou em plano astral? – indagou Ralph.

- Não posso acreditar no que estou ouvindo... – disse ela batendo as mãos contra o corpo.

- Eu já estou indo. – disse Kal rumando de volta para a pousada.

- Toda a imprensa está tentando entrar lá! Como vocês acham que conseguiríamos? – questionou a garota.

- Não sei, mas vou dar um jeito. – falou Kal decidido.

- Desculpem, mas não vou participar desta loucura! – disse Guinevere mais decidida ainda.

- Tudo bem então. Vamos nós três! – disse Ralph já acompanhando Thalis e Kal.

Guine ficara sozinha na velha loja, e quando resolveu acompanhá-los, já estavam longe demais.

- Garotos... – bufou.

A Pousada das Fadas estava cercada por fãs e repórteres, todos com penas erguidas. Aqueles para conseguir um autógrafo e estes para conseguir a matéria de capa da próxima edição de seus respectivos jornais. A porta de entrada estava bloqueada por cinco elfos e duas fadas, todos dispostos a azarar alguém com a varinha caso tentassem invadir o lugar.

- Como faremos? – perguntou Ralph depois de analisar a situação.

- Não sei. Mas não podemos tentar as janelas. Certamente deve ter pelos menos três cuidando de cada uma. – disse Thalis.

- Não dá! O lugar é uma fortaleza! – prossegui Ralph.

- Nós preci... – Kal interrompera a fala ao perceber que a porta da frente da pousada estava se abrindo e prestes a revelar o historiador mais famoso do mundo.

- Weny! Weny! Weny! - clamou a multidão.

- Acalmem-se! – disse Nicolas finalmente.

- Puxa! Eu já tinha me esquecido como era a voz dele... – falou Ralph.

- Gostaria que todos se dirigissem até a praça central! Lá irei fazer um breve pronunciamento antes de voltar a minha pesquisa. – disse ele e depois esfumaçou. Seguindo o gesto, vários outros bruxos esfumaçaram da frente da pousada e os fãs correram o máximo que podiam para alcançar um lugar mais perto do ídolo.

- É agora! – disse Kal correndo sorrateiramente para dentro da pousada.

O lugar estava completamente vazio. Os funcionários também haviam seguido a multidão de bruxos até a praça. Os três estavam conscientes de que não tinham muito tempo. Por isso precisavam adiantar em sua busca.

Kal atravessou o saguão de entrada, correu para trás do balcão verde da recepção e abriu uma pasta com a lista de todos os hóspedes da pousada, mas surpreendeu-se ao ver que o nome de Nicolas Weny não aparecia em nenhum dos quartos.

- Quantos hóspedes estão com seus nomes aí? – perguntou Ralph com a intenção de tentar quarto por quarto.

- Há mais de cem aqui! – informou Kal.

- Nicolas deve ter preferido usar outro nome... – pressupôs Thalis.

- Alguma idéia? – perguntou Ralph olhando para os dois.

- Nicolas é um historiador... talvez um personagem importante da história. - mentalizou Kal.

- Merlin. – respondeu Ralph de imediato.

- Já chequei. Não é isto.

- Mas Merlin tem um outro nome. – disse Thalis estalando os dedos – Cacius disse em uma de suas primeiras aulas comigo.

Kal voltou a olhar para a folha em suas mãos e deu um largo sorriso.

- Emrys Camelot, quarto 315.

Os três seguiram até a porta de madeira pintada na parede, Kal estendeu a mão e segurou a maçaneta dizendo:

- Quarto 315.

Depois de atravessarem e trancarem a porta, eles chegaram a um pequeno corredor com uma única porta em sua extremidade. Pregado no na parede estava o número 315.

- Scringer Secret Schoupan! – disse Kal e a tranca cedeu com um estalo.

Ao entrarem no quarto um forte odor de alho penetrou as narinas de Kal que foi obrigado a tapar o nariz. Seus olhos logo começaram a lacrimejar deixando uma visão um pouco ofuscada do cômodo, que tinha cada canto de parede escondido por armários carregados de livros e frascos de poções, mal via-se o papel de parede vermelho. Tinha ainda um sofá de três lugares no meio da sala e uma escrivaninha de frente para uma janela. O móvel estava encoberto por folhas, penas e tinteiros. O piso de assoalho rangia levemente enquanto andavam, mas nada que pudesse fazer barulho o suficiente para sinalizar que estavam ali.

- Parece que ele tem uma paranóia com vampiros. – falou Thalis abrindo uma gaveta de criado próxima ao sofá e mostrando aos dois uma estaca de madeira.

- Será que o historiador mais incrível do mundo teme o vampiro mais poderoso do mundo? – perguntou Ralph colocando uma corda de alho em volta do pescoço.

- Talvez ele não saiba, mas alho não funciona contra Kricolas. – falou Thalis.

- Pessoal. Olhem! – chamou Kal aproximando-se da escrivaninha.

- O que é isso? – perguntou Ralph.

- Parece que são anotações... – disse Thalis.

O Livro de Merlin, o artefato mágico mais valioso do mundo, pode ter sido destruído há séculos pelo próprio Merlin. Segundo registros da memória popular dos elfos, o mago queimou uma de suas páginas em praça pública.

Foster ajudou Merlin a escrever o livro, mas após sua morte o objeto permaneceu com o feiticeiro até seu último dia. Especula-se que a família Foster pode estar em posse do livro, mas é apenas uma fraca teoria.

O diretor de Avalon, Cacius Henrique, tem o Enid de Merlin, mas nada sabe sobre a localização do livro. O mesmo aconteceu no passado com os bruxos que um já possuíram o Enid, como o mago francês Jaques Bounervur no século XIV.

- Parece que ele anda pesquisando mesmo. – disse Kal analisando as demais folhas.

- Olhem esta em inglês. – falou Thalis puxando um pergaminho da mesa.

There isn’t anything more powerful than the Merlin’s Book, there isn’t anything more splendid than its power. Nobody can be compared to its possessor. There will be a new vision of what magic. The Merlin’s Book exist and it is somewhere in the Elfos’ City. I saw it and I had the opportunity to contemplate the power that it has put up to the young Foster.

After Merlin’s death, I felt myself free to write my work revealing huge details about the book and its possible location. I haven’t defined the title yet, but I am thinking in Those Secrets.

Monday, March 19th, 1017

- Espere. – disse Thalis segurando o pergaminho – Aqui diz...

Nada há de mais poderoso do que o Livro de Merlin, nada há de mais esplêndido do que o seu poder. Ninguém poderá ser comparado ao seu possuidor. Haverá uma nova visão do que é magia. O Livro de Merlin existe e está em algum lugar na Cidade dos Elfos. Eu o vi e tive a oportunidade de contemplar o poder que ele forneceu ao jovem Foster.

Após a morte de Merlin, senti-me à vontade para escrever minha obra revelando detalhes maiores sobre o livro e sua possível localização. Ainda não defini o título, mas estou pensando em Aqueles segredos.

Segunda-feira, 19 de março de 1017”

- É o diário do autor de “Aqueles segredos”. – disse Kal levando a mão à boca.

- Isso confirma! Nicolas Weny adquiriu o livro. – falou Thalis olhando para um relógio pendurado na parede – Precisamos sair daqui antes que sejamos descobertos.

Kal e Ralph confirmaram com a cabeça e os três saíram do quarto alcançando o lado de fora da pousada em pouquíssimo tempo.

- Garotos! – chamou Guine, que os esperava sentada em uma pedra próximo a pousada e cercada com os materiais de escola dos quatro – Temos aula hoje, sabiam?

- Sim, e já perdemos duas. – respondeu Kal.

- Mas por um bom motivo. – falou Thalis.

Quando entraram no balão para Avalon Guinevere já havia ouvido metade da história e ainda assim não estava acreditando no que lhe era contado. Quando Ralph repetiu as palavras que estavam escritas no diário ela quase caiu para trás.

- O livro que Kal queria comprar! – exclamou.

- Parece que ele chegou antes. – disse o garoto.

- Mas ainda não entendi por que tanta prevenção contra vampiros... – confessou ela – Weny tem poderes suficientes para pelo menos se defender de Kricolas.

- Será? – questionou Ralph – O que ele fez quando os Griphons apareceram na palestra?

- Fugiu. – informou Guine – Mas não acho que tenha sido medo. Acredito que GAW tenha sugerido que fosse melhor.

- Pode ser. Eles podem ter pensado que Nicolas era o alvo dos Griphons e disseram que se afastasse. – disse Ralph.

- Para o castelo depressa! Para o castelo! Acabou a folga! – dizia Luiz Calvo na entrada da escola para todos os alunos – Vamos! Não percam tempo! Uma folha velha não pode distrair a atenção de vocês.

Não era bem uma folha velha que tirava a atenção de Kal. Era o que Nicolas Weny faria com ela. Se realmente fosse uma folha do Livro de Merlin ela carregava um feitiço poderoso. Mesmo se servisse apenas para abrir uma porta, seria o feitiço para abrir portas mais poderoso do mundo.

Nas salas de aula o ritmo de conversa não diminuiu. Até mesmo os professores pareciam um pouco desligados da matéria. Nicolas Weny, em seu discurso na praça da Cidade dos Elfos dissera a todos que divulgaria sua descoberta o mais rápido possível. Todos, obviamente, acreditavam que “o mais rápido possível” fosse o próximo dia. No entanto três dias passaram-se sem qualquer sinal do historiador.

Na semana seguinte o jornal Folha Mágica divulgou uma matéria de apoio ao historiador.

Ele está onde nenhum bruxo esteve

O gabaritado historiador Nicolas Weny, na semana passada encontrou no vilarejo chamado Cidade dos Elfos, um artefato que promete virar ao avesso o mundo mágico. Baseado em lendas e antigos documentos, outros historiadores do mundo todo acreditam que Nicolas Weny pode ter em mãos nada menos do que uma página do fabuloso Livro de Merlin. “Em história conhecemos esta página como Página perdida. Porque mesmo que um dia encontrássemos o Livro de Merlin, os segredos desta página estariam perdidos, afinal ela fora arrancada do livro” disse Amir Cherches, historiador uruguaio que está estudando os modos de vida dos duendes assassinos em Minas Gerais. “Por uma ironia do destino, a Página perdida foi encontrada antes mesmo do Livro de Merlin”, finalizou.

“Conta a lenda que a Página perdida foi arrancada do livro pelo próprio Merlin, que a incinerou logo em seguida. Para nós historiadores isto sempre foi uma incógnita. O que haveria de tão abominável na página que fez Merlin se enfurecer e excluí-la?” questiona Maykel Martins, historiador capixaba. “Acho que se Nicolas perceber o motivo pelo qual Merlin retirou a página de sua obra ele dará um jeito de sumir com ela para que nunca mais seja encontrada”, frisou.

Nicolas Weny, atualmente continua sua pesquisa. A nova descoberta abalou a comunidade mágica, mas não nosso incansável historiador, que mesmo tendo feito o maior resgate histórico do mundo, permanece relutante em ceder aos assédios da imprensa global. Nicolas, que apenas fez um breve pronunciamento no dia vinte um deste mês, disse que todos deveriam ficar atentos para o resultado final de seu trabalho. Disse ainda que não descansará enquanto não devolver ao mundo mágico seu maior patrimônio, o mais poderoso tipo de magia.

Fica o nosso apoio e a nossa esperança, de que este historiador, que no início de sua carreira foi chamado de Come traças, torne-se herói mundial. Mesmo que pareça piegas, a verdade precisa ser dita, Nicolas Weny foi mais longe em suas pesquisas do qualquer outro bruxo. Por isso já é um vencedor.

A notícia animou mais ainda os habitantes de Cidade dos Elfos, faixas eram estendidas com o nome do historiador e vários cartazes com sua foto eram colados nas paredes das lojas e nos postes de iluminação.

O mundo parecia girar ao redor de um único bruxo, mas ele parecia não se importar. Seu trabalho era muito mais relevante do que pessoas gritando seu nome com furor. Ao encontrar a Página perdida Nicolas Weny deixou de estudar história, para fazê-la.

3 comentários:

Andre L. disse...

Incrível!!!

Hum... Essa página não seria como a da história de "O Sussurro das Bruxas", não? (não sei se vc leu o livro...).

Apenas duas coisas:

"There will be a new vision of what magic", não ficaria melhor como "There will be a new vision of what's magic"?
Da mesma forma que "Elfo's City", se for nome próprio não deve ser traduzida, seria mesmo "Cidade dos Elfos", ou então seria "Elf's City", pois "Elf" é "Elfo" in english...


Próximo capítulo! Venha a nós o vosso reino...

Tenison Jr. disse...

Na verdade seria "Elves' City", mas dexa pra lá. "Elfo's City" ficou mais massa mesmo - eita q puxa-saco eu sou...

Anônimo disse...

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